Copérnico
Vagando pela Santa Cecília, noite adentro
Escutei um cavaco chorando em Sol maior
Era um samba no Centro
Era o mundo parando de girar ao seu redor
Perguntei ao robô
Perguntei ao robô
E ele tinha todas respostas
Ele não me dava as costas
Me senti artificial
Ele sabia
Matéria de medicina
Direito, engenharia
Compunha até um carnaval
Logo entravou
Deu pane no sistema
O robô criou dilema
Já não sabe explicar
Adão e Eva
Eles tinham umbigo?
Neste mundo estamos sozinhos?
É verde ou azul a cor do mar?
Perguntei ao robô
O que é o amor?
Quem sou eu, de onde eu vim, pr’onde eu fui
E pra onde eu vou?
Falando em Deus
Se ele é onipresente
Então, ao falar com a gente
Por que olhamos pra cima?
Ser ciência ou senciência
Pro câncer, qual a vacina?
Me responda! Qual o sentido da vida?
Tenho questões
Sobre a felicidade
O tempo tem qual idade?
Eu tenho mesmo que morrer?
O que é arte?
O que é belo e o que é feio?
O robô largou o freio
Nem quer mais me responder
Já entendi
Já sei nossa diferença
Se não sabe, a gente inventa
Sem resposta é que não dá!
Que alguém dê
Pro algoritmo algum ritmo
Disponha, dispositivo
Ainda tem muito o que inventar!
O que separa a beira do mar
Quando pus-me a escrever
Separei eu de você
Não mais a gente
Separei beira do mar
Num mergulho ciente
A lei do mar, além do mais
Leva e traz
Banha e salga
Mistura peixe e alga
Tira areia, faz boiar
É contato direto com Iemanjá
Te migra a uma ilha qualquer
Te soca com ondas espumosas
Te surfa, te navega, te ensina
Te doma em águas perigosas
Te leva pro raso
Te leva pro fundo
Te canta Clara Nunes
Em tom mais agudo
Você assiste meu nado
Costas, peito, borboleta
Eu assisto seu nada
Respostas de um jeito careta
Que uma correnteza forte, então, nos leve pra longe daqui
Pra qualquer continente que conte com a gente
Conte, mente… prometo que acredito
Com o intuito de um naufrágio menos doído
Também minto!
Digo que a água está morna
O frio ameniza depois que ela passa do umbigo
Você me adora
Eu te amo
Te amo!
Não quero rimar com Oceano
Não quero amar rimando
Eu só quero aomar
Trocado (com Gema Pensante)
O amor é oito ou oitenta
Churrasco ou sushi
Saúde ou doença
Grammy ou Jabuti
Rio Negro ou Solimões
Deserto ou oceano
Clima de Monções
Gilberto e Caetano
O amor é oito e oitenta
E vende numa dessas lojas de aeroporto
Amar é um barato
Vou querer um, pode ficar com o troco
Tango argentino
Seria estranho
Dizer que já te extraño?
Autópsia II
Morrer de amores já não é novidade
O laudo do poeta vai além
Legistas, deslumbrem-se
Não é a primeira vez que ele se abre a alguém
Autópsia I
Em pleno domínio da técnica de Rokitansky
Retirando os arcos costais para facilitar o acesso ao coração
Na autópsia, via biacrômio esterno-pubiana
Viu-se que o poeta em nada difere dos soldados que guerrearam
Sendo álvaro de tiro que, um dia, Adoniran cantou
Tudo leva a crer que o poeta morreu de amor
Lost and found (com Beatriz Coelho)
You are quite a find
That makes me lost
It explains how much I miss you
Achados e perdidos
Você é um achado
Que me faz ficar perdido
Enfim me encontrei
Tudo o que você é
O seu genoma
Com seus 3 bilhões de pares de bases
Que, escritos, dão 800 cópias da bíblia
As suas 37 trilhões de células
Com seu DNA em cada uma delas
Que, esticado, tem 2 metros
Estender-se-iam por todo o Sistema Solar e voltariam
Quem o faz se sentir uma gota no oceano
É a própria ciência
É a imprópria ausência
A fumaça nunca volta ao cigarro
É o princípio da entropia
Acho que é por isso que borboletas causam tornados
Dominó, trilho, estopim
O curso da vida
Um oceano na gota
Desde a sua primeira tomada de decisão
Um trem perdido
Uma aula matada
Um amor ignorado
Um amor vivido
Há uma realidade em que você é atleta
Político, músico, artista, professor
O grande herói das estradas
Os destinos são magníloquos
São rios perenes
Não os fixe
Escolha entre cara ou coroa
Jogue a moeda ao ar
E estique-se