Meio bossa nova e rock'n'roll
Ela é uma Blitz na hora do Rush
No meio da Highway to Hell
De veludo com um revolver
Aponta a escada para o céu
Quer seu nome brilhando em Led
No corpo de um Zeppelin
E uma placa Metallica
Escrito “eu te quero só pra mim”
Ela discute signos, sou peixes
Dead Fish nas Águas de Março
Ela é Scorpions, decidida
Leva a sério, mas eu disfarço
Minha Queen mal sabe
Que Ultrajes rigorosos não me comovem
Ela me xinga, eu respondo: “U2”
E continuo sendo um Bon jovem
Mas eu lhe dou um Kiss
A gente esquece as Guns
Foca nas Roses
Que Ogum exime os afãs
Quando tudo estiver Red e Hot
Ela atinge na minha cama
O bpm da MPB
E o estado de Nirvana
Fica tudo no Bem Bom
Toco um love song
Acabou o chorare
You shook me all night long
Seu Nélson Motta deu a nota
Que hoje o som é rock'n'roll
E esse clipe sem nexo
Faz parte do meu show
Vanguarda
Substantivo feminino
Com todas as fases da literatura
Seu corpo é só poesia
E, por isso, prende a minha leitura
Seu cabelo, reticências
Suas pernas, versos prontos
Sua boca é uma cantiga
Suas pintas são os pontos
Uso a língua para marcar suas páginas
Torno meu hábito mais prático
Não deixo a sua aventura chata
Como um livro didático
Quero ler seu corpo desde as orelhas
Desde a contracapa até o prefácio
Sem ordem, objetivo e simples
Naturalista como José Bonifácio
Suas antíteses barrocas
Dividem meu desejo
Quero os prazeres mundanos
De tudo que eu vejo
A salvação está na paz bucólica
No “Fugere Urbem” do Arcadismo
Sua respiração é o Carpe Diem
Que me deixa à beira do abismo
Seus olhos simbolistas
Transcendem o surreal
Faz-te arte pela arte
Parnasiana, rigor formal
Capítulos divididos
O miolo eu sei de cor
Por isso que lhe traduzo
Em redondilha maior
Não te faço um haicai
Pois isso não lhe transcreve
Faço de ti um texto longo
Com conteúdo leve
Seu corpo é um manifesto
Estruturado em cada etapa
Em cada vírgula
Ah, se eu tivesse julgado pela capa...
Cubismo
À esquerda, tomou posto
Por dizer que o lado direito do rosto
É a sua face favorita
Ah, mas os demais ângulos…
Perspectivas e traços
Por todos os lados
Faz-se mais bonita
Queria que, um dia, se visse como arte
Entenderia, enfim, o meu amor por toda parte
Ela pra mim (IV)
É o caminho pra El Dorado
É a procura pra batida perfeita
É a Gioconda pro Leonardo
É a “ideologia de gênero” pra Direita
É o capacete pro Čech
É a Pérsia pro Xá
É o mate pro xeque
É a Brasília pro JK
É a Paris pro Miles Davis
É a Roma pro Fellini
É o escapismo pro artista
É o escape pro Houdini
É o lado de lá da ponte pra Niterói
É o lado de cá da ponte pro Racionais
É a capa pro super-herói
É a capa pros jornais
É o labirinto pro Umberto
É o eco pro morcego
É a curva pro Niemeyer
É a filosofia pro grego
É a asa pro Ícaro
É o inferno pro Dante
É o coturno pro militar
É a meia pro estudante
É o cordel pra literatura
É o noturno pro Chopin
É o jardim pro Monet
É o Flamengo pro Maracanã
É a provocação pro Abujamra
É o mistério pro Sherlock
É o poste pro bicheiro
É a gota pro Pollock
É a voz pro rádio
É o cinema pro Alfredo
É o paraíso pro Caravaggio
É o 10 pro Samba-Enredo
É a prensa pro café
É a pressa pro pé
É a mão pro Maradona
É a coroa pro Pelé
É o Clube da Esquina pro Milton
É o Clube de Roque pro Detonauta
É o tambor pro orixá
É o sopro pra flauta
É a águia pra Portela
É a fita pro Senhor do Bonfim
Será que também sou pra ela
Tudo o que ela é pra mim?
Amor e atração II
Declarei-me a alguém
Que encarava o amor com relatividade
Não posso apresentar o céu e as estrelas
A quem ignora tamanha gravidade
Amor e atração
Guardo, comigo, declarações
Por medo de fazê-las
O Amor é coisa séria
Você não entende a gravidade
Só o espaço e as estrelas
ZZZ
Já há um tempo não escuto o zumbido
Tampouco o bálsamo do repelente
Já há algum tempo os mosquitos não perturbam minha noite
Talvez saibam que ela anda perturbada o suficiente
O herege
Vi ontem um herege
Na imundície da avareza
Pervertendo o evangelho
Saqueava vulneráveis
Salientava déspotas
E tomava o nome do Senhor em vão
O herege não era um libertino,
Não era um comunista,
Não era um ateu.
O herege, meu Deus, era um pastor.
(Inspirado em "O bicho" de Manuel Bandeira)
Tirando um coelho e um samba do Cartola
Descobri a cor do “A” da sua cartilha
Sem mágica ou quaisquer ilusões
Mágicos leem mentes
Eu leio corações
Às vezes eu Rio, às vezes eu Morro
Alguma coisa acontece no meu calçadão
Uma Bossa de Copacabana com açúcar no pão
É que quando eu chego por aqui, o Cristo sorri
Dá dura a polícia bem certa de suas milícias
Há desgovernança que cerca todas as ilhas
Todavia, ainda havia a minha Sapucaí
Mangueira, Portela e toda a tradição
Alguma coisa acontece no meu calçadão
Mistura Cazuza e Bethânia, Cartola e João
Quando eu vi que gente da gente padece no morro
Chamei de Cidade Partida, maravilha ao oposto
É que Cabral acha feio o que não é seu governo
Nem tente agora sua redenção em Cosme Velho
O amanhã é só um museu para os novos militantes
E seus caminhos finos, estreitos, entre lapas e becos
Vem desde a Restinga da Marambaia
Aprendo a unir o trabalho com idas à praia
Porque pra mim é um preço e pra gringo outro preço
No jogo do bicho, a fezinha em Vila Isabel
Maraca lotado, um Fla-Flu são dois Sóis no céu
Quem viu Santa Monica e sobe por Santa Teresa
Terça acordo cedo, mas vou à Pedra do Sal
Seus botecos, verdadeiras festas, em plena Pavuna
Esotérica, de um social sem lógica, berço de samba
No pé, rock na veia e funk no quadril
Cássias e Nandos passeiam na sua Lagoa
E novos malandros já podem sambar na Gamboa