Lista de Poemas

Depois da lágrima

(“Um provérbio grego diz que apenas mulheres que lavaram seus olhos com lágrimas podem ver claramente”)


Não sei como dizer
Qu’esses roteiros que hão de vir
Com caminhos obstaculizados
Por amantes de nomes chatos e profissões fastidiosas
Terão uma única vantagem:
Apresentar-lhe-ão a si mesma
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LPs

Pela Lapa
Bem por lá
Atolei a vaca
Vi circo voar

Pela Lapa
Pala dei em te olhar
Sua pele, pelo pula, pêgo no meu paladar

Quem veio da Cinelândia
Já ouviu o samba que eu fiz
É que passou uma garota
Dessas que cantam os vinis

E os Vinicius, Jobins e os Donatos
Fiquem, hoje, em Ipanema
Eu vou ao Beco do Rato

Te conhecer em 3D
Num show do D2
Macura comigo Dilê
O resto a gente vê depois

Esqueça toda lástima
Afeto que te afeta
Venha à Barraca da Fátima
Beber sua predileta

Sorrindo pra mim, triunfa um belo arco
Esse borogodó é do balacobaco
Trocando LPs
Mem de Sá, Champs-Élysées
Você faz o meu Rio “parler” francês
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Demora

Demorei tanto a escrever sobre uma árvore
Que um prédio ergueu-se à frente
Tirando-me completamente sua vista

Demorei tanto a escrever sobre Plutão
Que já não sei mais
Se, enfim, é dado ou não como um planeta

Não aprendi francês a tempo
Por isso, não escrevi a Lauren
Demorei

A demora poética é a mais fria execução
Homicídio culposo em esboços
Um atraso à vida, aos relatos cósmicos
Aos netos que não vieram
Nem mais virão

Mas, a ti…
Escrevi-te tão depressa
Que, mesmo vivo
Foste um verso meteórico
Não delonguei teu legado
Contigo, escolheria a demora
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Amores exatos

O nosso amor chegaria ao fim
Amando como manda Assis
Ou com discussões baseadas em hermenêutica
Maiêutica, exortação e anacronismo

P’ra mim, a gravidade sempre foi 10
Talvez, considerando 9,8m/s²
O impacto fosse menor

Eu quero um amor exato
Fórmulas bregas
E.u Vc = S²
Daquelas que os amantes retalham nas árvores

Amar exatamente
Fugir do acaso botânico
Como o sexo das plantas
Torcendo pela colaboração do vento a carregar nossos pólens

Amor sem rima, direto
Sem alterar a estrutura
Pelos fins estéticos

Amor em números
Naturais, inteiros, racionais, irracionais
Contudo, reais

Eu transformei nosso amor em matemática
Para que eu pudesse te amar para sempre
O infinito só é real nas matérias exatas
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Eclipse Solar I

O que era dia virou noite
Fez-se sombra na rua
Todo Mundo parou a ver
A minha boca com a sua
Nosso encontro
Foi como Sol e Lua
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Eclipse Solar II

Às vezes, ilustre
Minguante, num traço destro
Cheia, de um folclore sinistro
Crescente, como quem diz: “Eu me mostro!”
Brilhando, sempre, sem lastro
A Lua só quer um dia de astro
(Luminoso, não mais iluminado)
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Pessoa

Não me iniciei na poesia a fim de ser Pessoa
Eu só queria ser sua pessoa
Usaria da licença poética, afinal
A gerar alguns efeitos dominós
Transformaria a 1ª do singular em plural
Para que “eu” virasse “nós”
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Sobre leite, criação e triunfo

Ícaro se queimou quando, ainda, moço
A palma engana
O verdadeiro calor a gente sente no dorso
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Ela pra mim (III)

É a estação pra Mangueira
É o inverno pro Vivaldi
É o cotidiano pro Chico
É o farrapo pra Garibaldi

É a mecânica pra laranja
É a rosa pro Noel
É o tom pro Jobim
É a linguagem pra Babel

É o repique pro Ubirany
É o xadrez pra quermesse
É a América pro Neruda
É a copa pro Messi

É a embaixadinha pro Caniddia
É a embaixada pro Mandela
É a fuga pra Alcatraz
É o prisioneiro pra Lisbela

É o Dundie pro Michael Scott
É o Olodum pro Galvão
É a vertigem pro Hitchcock
É a lucidez pro Aragão

É o cachorro pro Emicida
É a Zona Leste pros mano
É o Z pro Zorro
É o L pro Cano

É o parto pra doula
É a Pietà pro Michelangelo
É a Madona pro Rafael
É o “levantar” pra Maya Angelou

É o silêncio pro Chaplin
É a discussão pro fórum
É a aliança pra guerra
É o anel pro Gollum

É a sociedade pros poetas que já morreram
É a união pro Gorbatchov
É o melodrama pro Almodóvar
É a queda pro “fall in love”

É a queda pra Berlim
É a felicidade pros finais
Ela pra mim
É sempre algo a mais
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Abstinência

I

Alívio e estímulo
Bem-estar, prazer, enlevo, euforia
Distorção da realidade
Dilatação, criatividade e sinestesia

II

Sistema dopaminérgico desregulado
Sobreposto por ocitocina e vasopressina
Indisposição, falta de apetite, melancolia
Inércia, insônia e perda de rotina

III

Depois de passar por tudo isso
De a superar como quem supera um vício 
Lembrei do que você mesma, uma vez, me disse
“O amor é uma droga”
E isso explica a minha caretice
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Comentários (1)

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Quem é Lucas menezes? o pouco que li, me deixou em frenesi, poesia branda, estou em êxtase. Abraços!

Redes Sociais: @dybaile

Talvez tenha nascido tarde demais, por não ter levado a antropofagia de seus versos à Semana de Arte Moderna, não ter vivido o folclore e a loucura de Macunaíma, não ter admirado Iracema, ou por não ter escrito um samba com Vinicius de Moraes. Talvez tenha nascido cedo demais, por ser à frente do tempo. Mas, nasceu na época certa. Trouxe a vanguarda de seus versos carregada de uma iconoclastia subversiva e, ao mesmo tempo, romântica.