Vidro
Você me derrete
Como quem faz vidro
Esquenta na temperatura mais alta
Funde, escorre, molda e cria
Algo que quebra fácil como dente-de-leão na ventania
Se eu pudesse ao menos ser aço
Alumínio, ferro ou cobre
Não me cobre, ou melhor
Cobre! Deixa que eu te cubro
E descubro um novo tipo de vidro, um que dobre
Se ao menos fosse temperado ou laminado
A reter meus fragmentos em um elo
Não quebraria igual vidro comum
Que tira as pessoas do ambiente e obriga o uso de chinelo
Você me estilhaça
Como quem quebra vidro
Derrubado, sou irrestaurável
Pode varrer, juntar, limpar e pedir a Deus
Mas, passado o tempo
Ao encontrar uma lasca perdida
Lembrar-se-á, ainda, dos cacos meus
Artigo Definido
Quanta indefinição…
Assuma seu par
Nunca foi Uma
Sempre foi A
Flores e rancores
Eu mal te vi e já bem-te-vi
Coisa boa de sentir
Eu mal te vi e já bem-te-vi
Canto pra você me ouvir
Um passarinho
Cuja cor eu nem me lembro mais
Me contou que eu fiquei pra trás
De asas cortadas, modo avião
Ouça, então, o despropositado desatino
Que despetala em um peteleco
Percorrendo nos seus ecos
A minha canção
Onde a encontro, encontro ritmo
Batuque e palma
O lalaia do Arlindo
O lelele do Exalta
Até Geraldo Vandré fez música a falar de ti
E eu duvido que ele te viu como eu te vi
Como eu te vejo
Enfeito as borboletas com o efeito
No Sol que raia no riso
E no canto
Cantinho esquerdo do peito
É o meu jeito
De não querer ficar plantado igual couve
Pois, no meu vaso, sempre coube flor
Se houve amor, colhe quem regou
Tipo pas-sa-ri-nhos do Emicida
O nosso amor só quer passarinhar
Mas, eu não sei o que será da minha vida
Sem o teu peito p’ra pousar
Assim como as mais belas flores
Os mais feios rancores
Também morrem um dia
Sendo sincero
Eu só espero,
Confio e esmero
Que, no seu peito, eu perfume alegria
Às 7
Às 7 você acorda
E eu, por impulso, acordo junto
No relógio que dá corda
Você me recorda
As 7 maravilhas do mundo
Os 7 anjos
As 7 sílabas da redondilha
7 artes, pois
As maravilhas são artísticas
E a Arte é uma maravilha
Debruço-me a receber luz
Igual Maria e José
Tumultuando meu túmulo
Tal faraó faria em Gizé
Li Nietzsche durante a tarde
“Humana, demasiado humana”
Ligando exagero e vaidade
Na colisão cartesiana
Debaixo de 7 chaves
Um amor trancado
Nem a 7 palmos aceitarias ele aberto afora
A não cometer os 7 pecados
Eu mesmo me julguei por dentro
Pra não ser jogado fora
Pedi, mais aos céus, malandragem
Quis as 7 vidas de um gato
Fiz um set de filmagem
Assisti "Os 7 de Chicago"
Às 7 você volta
(Mais conhecida como "às dezenove")
Aquela voz doce, da manhã,
Já não se escuta mais
Subi uma oitava e as escadas
Temendo o inferno
Com receio de você ter ido
Rendida tal cristo
Buscar novas maravilhas no mundo moderno
Verifique se o mesmo encontra-se neste andar
Antes de entrar
Antes de se apaixonar
Antes de se doar
Antes de se declarar
Verifique se o mesmo encontra-se neste andar
Do contrário, a queda é subsolar
Escova de dentes lilás
Eu sei
Que os melhores elogios que você já recebeu
Ainda são os meus
A forma que tratamos os elefantes na sala
Diz muito sobre as memórias que cultivo como apogeus
Será que o erro partiu daqui?
Ao esquecer uma lembrança minha
Em um lugar só seu, insinuando novos problemas
As fotos nas geladeiras são detalhes
Como os títulos de poemas
Pudera ter me dado a oportunidade
De conversar a nossa desconversa pessoalmente
Pra calar palavras mal ditas com um beijo bem dado
Tê-la-ia mais uma vez
Se fingisse ser o que não sou?
Ou s’eu permanecesse imaculado?
A criatividade exige intensidade e vice-versa
Regras de uma paleta colorida
Das religiões que já passei
Não gostei dos testamentos
Juramentos eternos tiram a nossa vida
Eu sei
Que você ainda me ama
Em uma dessas milhares de galáxias
Que James Webb fotografou
Não tire as borboletas de seu estômago à força
O tempo já é eficiente e cruel o bastante
Para o serviço que se prestou
Aprecie, não apresse
Devagar, a sorte passa por nós
E não passamos pela sorte finita
O que faço? Com o baralho que embaralhei
Para fazer um truque de mágica com a sua carta favorita
Não desembaralho, o maço se mantém
Não deixo nosso amor acabar
E, se quiser um conselho
Não deixe também
Meu partido (com Fabio Brazza)
Sambei em mil rodas
Assim como Pelé fez mil gols
Eu nunca toquei samba
O samba que sempre me tocou
Há muito mais educação no terreiro que no plenário
Por isso, eu sou partideiro… não partidário
Aprendi a respeitar primeiro quem chegou primeiro
E não quem tem o maior salário
Não sou partidário, sou partideiro
Aos fariseus não deixarei dinheiro
Meu testamento foi escrito por Candeia
Houve um tempo em que o samba dava cadeia
Oficial batia em quem batia pandeiro
E a cela vivia cheia
Mas o colarinho branco não era presidiário
Não colaria um branco pra mudar esse cenário?
O colarinho branco do copo do pagodeiro
Afogando as mágoas de um passado hereditário
O samba carrega a força do que é ser brasileiro
União, democracia num espaço igualitário
Valores que nosso país só enxerga fevereiro
Mas que deviam existir em todo calendário
Em toda sala, em todo solo, por esse Brasil inteiro
No ministério, no magistério de um sonho mais solidário
Mas, infelizmente o que se vê é o contrário
Exclusão, desigualdade e um líder reacionário
Fiz samba pro Sol nascer
Fiz samba quando ele se pôs
Fiz samba pras moças, pros moços
E pra quem não se identifica com nenhum dos dois
No contratempo desse pensamento quadrado
Se o Brasil fosse uma roda, sem lado
Sem ser partido pelo planalto
Curando o peito partido num partido alto
Teria muito mais alegria, respeito e comunhão
Não seria um descobrimento, seria uma invenção
Só tocaria o instrumento quem soubesse o fundamento
Mas, no fim, todos cantando a mesma canção
No ritmo da percussão bateria o coração
E o povo, em volta, levando o Brasil na palma da mão
Sem a fantasia do noticiário, esse é o Brasil verdadeiro
Dessa parte sou inteiro, é meu jeito de ser revolucionário
Por isso, não sou partidário… sou partideiro
Humor vítreo
Farol e Lua competiram
A pratear nossa madrugada
Foi quando olhamos para o céu
E eu recebi a promessa de uma tarde ensolarada
Com seu jeans por cima do abajur
Ensina-me as sílabas que já desaprendi
Como encilhar este cavalo decassílabo
Em sina, o mar salgado a nutrir
Jonathan Swift e Esther Vanhomrigh
Andando sobre a luz dos postes
Tais qual a malandragem
Que balança mas não cai
É muito fácil se apaixonar pelos seus olhos
Qualquer um consegue
Conseguiu e conseguirá inúmeras vezes
Por isso, encantei-me pelo que se encontra atrás deles
Naquela noite e nas que se sucederam
Eu dormi com frio, mesmo de cobertor
Houve calor
Mas, você não me esquentou
Não me culpe por odiar as estrelas
Elas nunca me amaram de volta
Não quero lhe convencer dos plágios
E nem que “Lá” é a sua nota
Vá nessa, como uma borboleta
Que foge do estômago em frenesim
Vá nessa! Não nesta
Por situar-se espacialmente longe daqui
Eu não tinha café para você
Você tinha manhã para mim?
Morte e propósito
Minhas sinceras condolências ao
Sonâmbulo que morreu dormindo
Soldado que morreu engasgado
Careta que morreu de pneumotórax
Roqueiro que morreu de velho
Rei que morreu n'outro trono
Bombeiro que morreu afogado
Astronauta que morreu na Terra
Ao poeta que morreu de Amor
Um jeito de não sentir dor
Já não peço mais nada
Já não peco arrependido
Montado em um cedilha
Pra dar-lhe outro sentido
Um sentido que nunca foi seu
Ainda não sei o que vi em você
Na verdade, sei bem
Só finjo não ver
Você insiste em “bolacha”
E eu até fico confortável com “biscoito”
É que eu queria ser carioca
Mas, a palavra pouco me importa
Você deve ter votado errado em 2018
Nada do que vivemos estava escrito lá no céu
Quando falamos dos tempos de Barão
Você pensa em Café; eu, em Vermelho
E Cartola não é um chapéu
Carrão nunca foi um luxo
Sempre será a estação aqui perto de casa
Sei que adora vinho
Mas, imagine o que um rubro-negro pensa quando você diz “taça”
Pensando assim
É mais fácil de superar o que você deixou
Talvez essa seja só a minha maneira
De sonhar acordado
Um jeito de não sentir dor