Escova de dentes lilás
Eu sei
Que os melhores elogios que você já recebeu
Ainda são os meus
A forma que tratamos os elefantes na sala
Diz muito sobre as memórias que cultivo como apogeus
Será que o erro partiu daqui?
Ao esquecer uma lembrança minha
Em um lugar só seu, insinuando novos problemas
As fotos nas geladeiras são detalhes
Como os títulos de poemas
Pudera ter me dado a oportunidade
De conversar a nossa desconversa pessoalmente
Pra calar palavras mal ditas com um beijo bem dado
Tê-la-ia mais uma vez
Se fingisse ser o que não sou?
Ou s’eu permanecesse imaculado?
A criatividade exige intensidade e vice-versa
Regras de uma paleta colorida
Das religiões que já passei
Não gostei dos testamentos
Juramentos eternos tiram a nossa vida
Eu sei
Que você ainda me ama
Em uma dessas milhares de galáxias
Que James Webb fotografou
Não tire as borboletas de seu estômago à força
O tempo já é eficiente e cruel o bastante
Para o serviço que se prestou
Aprecie, não apresse
Devagar, a sorte passa por nós
E não passamos pela sorte finita
O que faço? Com o baralho que embaralhei
Para fazer um truque de mágica com a sua carta favorita
Não desembaralho, o maço se mantém
Não deixo nosso amor acabar
E, se quiser um conselho
Não deixe também
Episódio da Mosca
Você só passa pelo mundo uma vez
Mas, o mundo passa por você todo dia
A beleza do deserto
Contar até quatro na respiração
Fui ao estádio ver um jogo
Que não era do meu time de coração
O cheiro da madrugada
A primavera sabática que eu tirei
Um mágico que te deixa escolher qualquer carta
Exceto o Rei
Uma tela tem que ter algo
Tem que ser mais interessante que a parede
Sr. Ninguém perdido em um oásis
Ansiado com a sede
O II-V-I do Jazz
4'33" de John Cage tocando no ônibus me distrai
Nós só lembramos da nossa memória
Quando ela nos trai
Filler de anime
Terror por trovões relampeados
“Vende-se: sapatos de bebês. Nunca usados”
Deus e Nietzsche em um duelo de Velho Oeste
Ó meu deus, caro Friedrich
Você falhou e morreu antes do celeste
Enxergar é diferente de visualizar
Fácil falar longe da tela que me clareia
Medroso demais para acertar o tiro em minha cabeça
Tímida infância
Time da infância
Fino artista chinês que fez o vaso
Parnasianismo preso no passado
Não se rebele
Deixe a mosca infectar seu laboratório
Quando o palco está em silêncio
Escutamos o auditório
“Para entender o mundo, é preciso se afastar dele de vez em quando”
Albert Camus
Meu partido (com Fabio Brazza)
Sambei em mil rodas
Assim como Pelé fez mil gols
Eu nunca toquei samba
O samba que sempre me tocou
Há muito mais educação no terreiro que no plenário
Por isso, eu sou partideiro… não partidário
Aprendi a respeitar primeiro quem chegou primeiro
E não quem tem o maior salário
Não sou partidário, sou partideiro
Aos fariseus não deixarei dinheiro
Meu testamento foi escrito por Candeia
Houve um tempo em que o samba dava cadeia
Oficial batia em quem batia pandeiro
E a cela vivia cheia
Mas o colarinho branco não era presidiário
Não colaria um branco pra mudar esse cenário?
O colarinho branco do copo do pagodeiro
Afogando as mágoas de um passado hereditário
O samba carrega a força do que é ser brasileiro
União, democracia num espaço igualitário
Valores que nosso país só enxerga fevereiro
Mas que deviam existir em todo calendário
Em toda sala, em todo solo, por esse Brasil inteiro
No ministério, no magistério de um sonho mais solidário
Mas, infelizmente o que se vê é o contrário
Exclusão, desigualdade e um líder reacionário
Fiz samba pro Sol nascer
Fiz samba quando ele se pôs
Fiz samba pras moças, pros moços
E pra quem não se identifica com nenhum dos dois
No contratempo desse pensamento quadrado
Se o Brasil fosse uma roda, sem lado
Sem ser partido pelo planalto
Curando o peito partido num partido alto
Teria muito mais alegria, respeito e comunhão
Não seria um descobrimento, seria uma invenção
Só tocaria o instrumento quem soubesse o fundamento
Mas, no fim, todos cantando a mesma canção
No ritmo da percussão bateria o coração
E o povo, em volta, levando o Brasil na palma da mão
Sem a fantasia do noticiário, esse é o Brasil verdadeiro
Dessa parte sou inteiro, é meu jeito de ser revolucionário
Por isso, não sou partidário… sou partideiro
Reticentes
…
…
…
…
E assim ficaram
Um esperando o outro
Quem chama quem?
Transferiram a responsabilidade ao acaso
Transferiram o orgulho ao atraso
Um jeito de não sentir dor
Já não peço mais nada
Já não peco arrependido
Montado em um cedilha
Pra dar-lhe outro sentido
Um sentido que nunca foi seu
Ainda não sei o que vi em você
Na verdade, sei bem
Só finjo não ver
Você insiste em “bolacha”
E eu até fico confortável com “biscoito”
É que eu queria ser carioca
Mas, a palavra pouco me importa
Você deve ter votado errado em 2018
Nada do que vivemos estava escrito lá no céu
Quando falamos dos tempos de Barão
Você pensa em Café; eu, em Vermelho
E Cartola não é um chapéu
Carrão nunca foi um luxo
Sempre será a estação aqui perto de casa
Sei que adora vinho
Mas, imagine o que um rubro-negro pensa quando você diz “taça”
Pensando assim
É mais fácil de superar o que você deixou
Talvez essa seja só a minha maneira
De sonhar acordado
Um jeito de não sentir dor
Às 7
Às 7 você acorda
E eu, por impulso, acordo junto
No relógio que dá corda
Você me recorda
As 7 maravilhas do mundo
Os 7 anjos
As 7 sílabas da redondilha
7 artes, pois
As maravilhas são artísticas
E a Arte é uma maravilha
Debruço-me a receber luz
Igual Maria e José
Tumultuando meu túmulo
Tal faraó faria em Gizé
Li Nietzsche durante a tarde
“Humana, demasiado humana”
Ligando exagero e vaidade
Na colisão cartesiana
Debaixo de 7 chaves
Um amor trancado
Nem a 7 palmos aceitarias ele aberto afora
A não cometer os 7 pecados
Eu mesmo me julguei por dentro
Pra não ser jogado fora
Pedi, mais aos céus, malandragem
Quis as 7 vidas de um gato
Fiz um set de filmagem
Assisti "Os 7 de Chicago"
Às 7 você volta
(Mais conhecida como "às dezenove")
Aquela voz doce, da manhã,
Já não se escuta mais
Subi uma oitava e as escadas
Temendo o inferno
Com receio de você ter ido
Rendida tal cristo
Buscar novas maravilhas no mundo moderno
A Inês já é morta do lado de cá
Deixar-te-ei
Se me chateei
Aqui já não há espaço
A quem aborrece um coração
Pesam-me os pêsames
Menos do que já pesaram antes
Isento do espólio
P’ra evitar declaração
Judia de mim, ó cão!
Mas, não faça teatro na janela
Que eu não sou Minhocão
Tampouco espetáculo na varanda
Que eu não sou quarentena
As máscaras caíram
Via elevado em gota-serena
Suas tentativas, desleais
São como Solimões tentando se misturar no Rio Negro
Nossa temperatura, velocidade e química
Já não são mais iguais
Em um âmago amargo
Seguimos unidos
Unidos pelas nossas cicatrizes
Como atrizes
De um musical sem som… sem sim
Agora, que sei dizer “não”
Cerrada a cortina
Posso viver enfim
Malmequer
A falta do teu amor me vulnerabilizou
Até a fé, que não tenho, rondou à minha escolta
Ateu, cético, racional…
Eu já sabia que nada traria a sua volta
Joguei búzios, pois sorte não existe
Fiz simpatia, pois superstição é besteira
Firmei ponto, crendice
Comprei, por curiosidade, arruda na feira
Soltei sal grosso para temperar a relação
Agarrei-me às guias das mais diferentes cores
Mergulhei o Santo Antônio na água, em comunhão
De ponta cabeça, pra afogar as minhas dores
Enlacei muiraquitã no pescoço
Convoquei toda a legião de Jorge
Bati cabeça pra saudar
Comigo-ninguém-pode!
Tentei comunicação pelo córtex, como um chorão
Busquei explicação nas borras de café
Li feitiço, banhei-me em alecrim
Aos Juremeiros e atabaques, fiz Axé
Rezei Pai Nosso, Ave Maria
Fiz mandinga como quem mendiga
Se não for por um milagre, me largue
Só você que me abençoa ou me castiga
Apelei a todos os Santos, Lulu
Que seja fraqueza… não garanto sobreviver
E se amanhã não for nada disso
Caberá só ao bem-me-querer
Morte e propósito
Minhas sinceras condolências ao
Sonâmbulo que morreu dormindo
Soldado que morreu engasgado
Careta que morreu de pneumotórax
Roqueiro que morreu de velho
Rei que morreu n'outro trono
Bombeiro que morreu afogado
Astronauta que morreu na Terra
Ao poeta que morreu de Amor
Brincadeira de criança
I
Fui à Lua e levei um amigo
Fui à Lua e levei um amigo e um celular
Fui à Lua e levei um amigo, um celular e um relógio
Fui à Lua e levei um amigo, um celular, um relógio e um espelho
Fui à Lua e levei um amigo, um celular, um relógio, um espelho e uma bandeira norte-americana
Fui à Lua e levei um amigo, um celular, um relógio, um espelho, uma bandeira norte-americana e um pequeno passo para o homem
II
Fui ao mercado e levei 1kg de arroz
Fui ao mercado e levei 1kg de arroz e ½ dúzia de ovos