Relógio quebrado
Se até Deus escreve linhas tortas
Por que cobram tanto as linhas certas do poeta?
Rimo sem rima, pois rimos com rimas
Às vezes só quero chorar...
Irrito a gramática, mato a matemática
Às vezes só quero contar... mas não 1,2,3
Só a minha versão da história
O relógio quebrado acerta duas vezes a hora no dia
Eu acerto dois corações em uma só estrofe
Não me orgulho, mas já encantei Fulana e Beltrana no mesmo verso
Troquei relações por poemas
Poemas por relações
O que eu faço é pra poucos
Todavia, para muitas
Aprendi poesia da mesma forma que aprendi o amor
Sem curso
Se, no fim das contas, eu for um relógio quebrado
Pelo menos sei que ainda controlo seu pulso
Mise-en-scène
Dar-lhe-ia a mão uma última vez
Mas o amor…
O amor não dá pé
Ainda que eu saiba
Que sob todo esse verniz
Esconde-se uma mulher que ri, que chora, que sente
Não a encontrei nesta venusta versão
E eu vou te deixar ali
Como aqueles papéis de garantia que a gente só aloca num canto qualquer
Junto aos outros papéis que à mesa estão
Sem utilidade alguma a não ser testar a tinta de canetas velhas
Ou rascunhar alguma informação importante enquanto no telefone
E que, depois de um tempo, a gente pega
Desdobra, abre, relembra
Vê que já não tem mais valor
E joga fora
A Inês já é morta do lado de cá
Deixar-te-ei
Se me chateei
Aqui já não há espaço
A quem aborrece um coração
Pesam-me os pêsames
Menos do que já pesaram antes
Isento do espólio
P’ra evitar declaração
Judia de mim, ó cão!
Mas, não faça teatro na janela
Que eu não sou Minhocão
Tampouco espetáculo na varanda
Que eu não sou quarentena
As máscaras caíram
Via elevado em gota-serena
Suas tentativas, desleais
São como Solimões tentando se misturar no Rio Negro
Nossa temperatura, velocidade e química
Já não são mais iguais
Em um âmago amargo
Seguimos unidos
Unidos pelas nossas cicatrizes
Como atrizes
De um musical sem som… sem sim
Agora, que sei dizer “não”
Cerrada a cortina
Posso viver enfim
Às 7
Às 7 você acorda
E eu, por impulso, acordo junto
No relógio que dá corda
Você me recorda
As 7 maravilhas do mundo
Os 7 anjos
As 7 sílabas da redondilha
7 artes, pois
As maravilhas são artísticas
E a Arte é uma maravilha
Debruço-me a receber luz
Igual Maria e José
Tumultuando meu túmulo
Tal faraó faria em Gizé
Li Nietzsche durante a tarde
“Humana, demasiado humana”
Ligando exagero e vaidade
Na colisão cartesiana
Debaixo de 7 chaves
Um amor trancado
Nem a 7 palmos aceitarias ele aberto afora
A não cometer os 7 pecados
Eu mesmo me julguei por dentro
Pra não ser jogado fora
Pedi, mais aos céus, malandragem
Quis as 7 vidas de um gato
Fiz um set de filmagem
Assisti "Os 7 de Chicago"
Às 7 você volta
(Mais conhecida como "às dezenove")
Aquela voz doce, da manhã,
Já não se escuta mais
Subi uma oitava e as escadas
Temendo o inferno
Com receio de você ter ido
Rendida tal cristo
Buscar novas maravilhas no mundo moderno
Humor vítreo
Farol e Lua competiram
A pratear nossa madrugada
Foi quando olhamos para o céu
E eu recebi a promessa de uma tarde ensolarada
Com seu jeans por cima do abajur
Ensina-me as sílabas que já desaprendi
Como encilhar este cavalo decassílabo
Em sina, o mar salgado a nutrir
Jonathan Swift e Esther Vanhomrigh
Andando sobre a luz dos postes
Tais qual a malandragem
Que balança mas não cai
É muito fácil se apaixonar pelos seus olhos
Qualquer um consegue
Conseguiu e conseguirá inúmeras vezes
Por isso, encantei-me pelo que se encontra atrás deles
Naquela noite e nas que se sucederam
Eu dormi com frio, mesmo de cobertor
Houve calor
Mas, você não me esquentou
Não me culpe por odiar as estrelas
Elas nunca me amaram de volta
Não quero lhe convencer dos plágios
E nem que “Lá” é a sua nota
Vá nessa, como uma borboleta
Que foge do estômago em frenesim
Vá nessa! Não nesta
Por situar-se espacialmente longe daqui
Eu não tinha café para você
Você tinha manhã para mim?
Eu quero ver
Eu quero ver suas vulnerabilidades
Suas incertezas e fraquezas
Eu quero ver a sua cara quando leva um susto
Eu quero ver você usando o banheiro
Eu quero ver você de óculos de grau
Eu quero ver você quando fica com fome
Eu quero ver um mico seu
Do mesmo jeito que a Sapucaí diz:
“Eu quero ver na quarta-feira”
Eu quero ver você sem fantasia
Sem pose, sem desfile
Sem confete e alegoria
Eu quero ver você sendo você
Eu quero ver
Apenas você
Verifique se o mesmo encontra-se neste andar
Antes de entrar
Antes de se apaixonar
Antes de se doar
Antes de se declarar
Verifique se o mesmo encontra-se neste andar
Do contrário, a queda é subsolar
Vidro
Você me derrete
Como quem faz vidro
Esquenta na temperatura mais alta
Funde, escorre, molda e cria
Algo que quebra fácil como dente-de-leão na ventania
Se eu pudesse ao menos ser aço
Alumínio, ferro ou cobre
Não me cobre, ou melhor
Cobre! Deixa que eu te cubro
E descubro um novo tipo de vidro, um que dobre
Se ao menos fosse temperado ou laminado
A reter meus fragmentos em um elo
Não quebraria igual vidro comum
Que tira as pessoas do ambiente e obriga o uso de chinelo
Você me estilhaça
Como quem quebra vidro
Derrubado, sou irrestaurável
Pode varrer, juntar, limpar e pedir a Deus
Mas, passado o tempo
Ao encontrar uma lasca perdida
Lembrar-se-á, ainda, dos cacos meus
Aos 24
Eu passei 24 anos da minha vida sem um sinal de vida seu
E vivia muito bem assim
Tudo bem… a gente se conheceu de repente
Mas, não queria de repente esse fim
As últimas 24h sem o seu boa noite ou bom dia
Foram torturantes
Fizeram a Lua e o Sol desaparecer
Ao menos me fale o que aconteceu… ou, vai acontecer
Me avisa o que tá rolando
24 é como os 48 do segundo tempo
E eu envelheci o dobro de anos te esperando
Esperei, meditei (tentei)
Sabia que, em um dia, dá pra ouvir 315 vezes “Oceano”?
Se eu amo Djavan? Ô se amo
Mas, não mais do que te amei
Se estiver ocupada, não te culpo
As horas me marcam como quem joga na defesa
Com o cronômetro nos últimos 24 segundos
E a bola nas mãos do Antetokounmpo
O ponteiro me venceu
Espero que fique bem
Assinado: Dybaile
Ah, e nessas últimas 24 horas
Eu também aprendi japonês em braile!
Episódio da Mosca
Você só passa pelo mundo uma vez
Mas, o mundo passa por você todo dia
A beleza do deserto
Contar até quatro na respiração
Fui ao estádio ver um jogo
Que não era do meu time de coração
O cheiro da madrugada
A primavera sabática que eu tirei
Um mágico que te deixa escolher qualquer carta
Exceto o Rei
Uma tela tem que ter algo
Tem que ser mais interessante que a parede
Sr. Ninguém perdido em um oásis
Ansiado com a sede
O II-V-I do Jazz
4'33" de John Cage tocando no ônibus me distrai
Nós só lembramos da nossa memória
Quando ela nos trai
Filler de anime
Terror por trovões relampeados
“Vende-se: sapatos de bebês. Nunca usados”
Deus e Nietzsche em um duelo de Velho Oeste
Ó meu deus, caro Friedrich
Você falhou e morreu antes do celeste
Enxergar é diferente de visualizar
Fácil falar longe da tela que me clareia
Medroso demais para acertar o tiro em minha cabeça
Tímida infância
Time da infância
Fino artista chinês que fez o vaso
Parnasianismo preso no passado
Não se rebele
Deixe a mosca infectar seu laboratório
Quando o palco está em silêncio
Escutamos o auditório
“Para entender o mundo, é preciso se afastar dele de vez em quando”
Albert Camus