Para que servem os versos e versões?
eu atravessaria a cidade inteira
só para te ver sambar
escutaria os anseios da nossa melodia
marcaria as pausas com os pontos finais do bumbo
nossa bossa é falada
é hiphop lento
é a dinâmica melódica do forró
por você eu cantaria a lista telefônica
em redondilhas
tataritaritata
música é coisa física
estímulo concreto sensorial
criamos em cima de um murmúrio
nossa poesia frágil sem quem ou quê
mas isso não importa - liga o gravador
criamos em cima de um muro
nosso poema caduco que ora cai cá ora acolá
suprassumo
quaisquer “quais quais” oracular
o sopro assumo
linda flor em botão a voar
brinda amor em bordão a bordar
finda a dor em refrão popular
balacobaco saca-trapo de xamã
flor de cravo e batucado do colar balangandã
siricutico bororó cantarolar,
tico tico pó de mico
quero ver no que vai dar
Se é que vai mas sei que vou
Não custa nada arriscar
Música é coisa pra sentir de perto
E de longe assim não posso te escutar
Talvez esse seja o caminho certo
Até os astros resolverem se alinhar
Acho que minha rima é coisa de boteco
Pareço criança aprendendo a brincar
Desculpem-me os repentistas
E o galope à beira mar
Mas ritmo é sintonia e
Fico esperando a gente se encontrar
Talvez seja um sinal que procuro
Talvez seja bobagem te esperar
Lucas Menezes e Clarice Sabino
Copo meio cheio
infelizmente
é de lua
é dura
é ausente
é áries
é indecisa
felizmente
ainda é
E se a?
Notícia
Fictícia
Perícia
Carícia
Polícia
Milícia
Malícia
Propícia
e se a?...
Eu hei de internar todo mundo que é louco
Hei de internar o poeta
Pois sua loucura é inventar amores
Hei de internar o coveiro
Pois sua loucura é reinterpretar as flores
Hei de internar o barbeiro
Pois sua loucura é tangenciar uma lâmina afiada no rosto das pessoas
Hei de internar o rei
Pois sua loucura é passar a vida equilibrando coroas
Hei de internar o jornalista
Pois sua loucura é fazer perguntas só por fazê-las
Hei de internar o astrônomo
Pois sua loucura é passar o horário comercial olhando as estrelas
Hei de internar o cozinheiro
Pois sua loucura é fazer comida para outra pessoa comer
Hei de internar o torcedor
Pois sua loucura é pagar para dar apoio ao invés de receber
Hei de internar o estudante de cinema
Pois sua loucura é a sinestesia audiovisual
Hei de internar o agricultor
Pois sua loucura é chamar a erva de medicinal
Hei de internar o boxeador
Que agride e é agredido por um semelhante
Hei de internar o meteorologista
Pois sua loucura é prever o tempo adiante
Hei de internar o advogado
Pois sua loucura é defender o caso perdido
Seguindo na mesma lógica
Hei de internar o cupido
Hei de internar o sambista
Pois sua loucura é estar feliz e sorrindo a toda hora
Hei de internar o padre
Pois sua loucura é fazer Nossa a Sua Senhora
Hei de internar Simão Bacamarte
Pois sua loucura é dizer que é médico
Hei de internar o psiquiatra
Pois sua loucura é fingir que lê pensamentos e achar ético
Hei de internar aquele idoso na sala
Pois sua loucura é ficar sentado o dia todo na cadeira
Hei de internar esta mulher de branco
Pois sua loucura é achar que é enfermeira
Hei de internar o farmacêutico
Pois sua loucura é tentar me drogar pouco a pouco
Hei de internar este homem que escreve por mim
Pois sua loucura é internar todo mundo que é louco
Sintonia Sinfônica
Dó i toda vez que te escrevo
Ré sta-me rodar os vinis, roer as lúnulas e anuviar o que vejo
Mi nha literatura é o que o literal já não mais atura
Fá to falso consumado em partitura
Sol com seu velho hábito de derramar luz em qualquer lugar
Lá onde as rosas falam, o astro rei canta só
Si ntonia sinfônica, sinfonia sintônica
Sempre acaba como começou, em Dó
Por que que o céu é azul?
Martinho
Mart’nália
Marte
Mar
Vermelho
Rubro
Como todo planeta deveria ser
Como todo samba deveria soar
Como todo malandro deveria gingar
Como todo coração deveria bombear
Rubro de amor
Os poetas
- Um velho sábio já dizia:
“É preciso comprar arroz e flores
Arroz para viver e flores para ter pelo que viver“
- Outro velho sábio também já dizia:
“A rosa já é perfumada por si só”
Por que então fazer poesia
E falar tanto do perfume da rosa?
- Tem gente que não sente esse cheiro
E só os poetas podem descrevê-lo
Só eles desluzem moinhos de vento
Só eles estão nus e sós ao meio-dia
É o exagero de Cazuza
Que graça teria se não fosse assim?
- Seriam então os poetas
Velhos sábios
Que sempre “já diziam”
Ou apenas agentes catalisadores da ignorância?
- Enquanto estudamos isso
Eles vivem isso
Transformam o tédio em melodia!
Todo amor que há nesta vida
É inventado
- Mas, o que diferencia as poesias românticas
Se todas tratam de amor?
- Quadros pintados no mesmo quarto
Momentos artísticos diferentes
Ah, os poetas...
Nós rimos; eles rimam
Se choramos; viramos verso
É como a diferença
Entre a História e a Literatura
Uma conta o que aconteceu
A outra, o que poderia ter acontecido
- A poesia é o libertar?
- Estamos todos presos
Uns mais que os outros
Uns condenados
Outros achando que são livres
- Do que se trata, então, a poesia?
- Não é catar feijão ou caçar em vão
Mas
A poesia mostra que certas coisas só se resolvem na mão
No fim, os poetas não falam sobre nada
E, assim, falamos sobre tudo
Personificação
(A maior concentração de beleza possível em um rosto humano)
A coloração dos olhos
Verde cristalino
É a matiz do mar de Andaman
Da ilha Koh Phi Phi
Seu nariz, por conseguinte
Constitui uma pirâmide nasal
Fazendo com que Gizé, Quéfren e Quéops
Pareçam construções amadoras
Com ângulos imperfeitos
Já os seios faciais
Nos faz lembrar a hipsometria dos estudos cartográficos
A maçã do seu rosto é o verdadeiro fruto do paraíso de Éden
Representando o primeiro alçar voo de uma borboleta
Seu maxilar, queixo, e toda a mandíbula
São bem definidos
Como os versos do classicismo
Em busca pela sua perfeição estética
São a personificação da coroa, da culaça
E do rondiz de um diamante
Suas cutículas pilosas compõem um cabelo
Que transcende a definição de louro ou moreno
Assemelhando-se às ondas estacionárias da física
Que no surfar dos dedos se transformam
Em maré serena regida por Iemanjá
Por fim, seu sorriso…
É o Sorriso Aberto de Jovelina
O Sorriso de Criança de Ivone
Pigmentado e tingido pela cobertura de neve
Das esbranquiçadas cordilheiras e alpes suíços
É como um piano de cauda Steinway sem os sustenidos e bemóis
Vigente
Tenho preocupações
Sobre o esgotamento da água
Sobre o esgoto a céu aberto
Sobre o Ser Humano e suas mágoas
Sobre o planeta descoberto
O que é potável?
O que é postável?
Depende do filtro...
Tenho cismas
Sobre o presidente eleito
Sobre o futuro da nação
E, a cada sonho REM, quando deito
Sinto que estou perdendo minha religião
Popularizou-se o termo “mimimi”
As ficções são baseadas em fatos reais
E o tempo em que Don Don jogava no Andaraí
Não volta mais
Quer estudar arte? Banksy
Quer fazer arte? Banque-se
Quer apagar arte? Eleja-se
Quer ouvir arte? Elis, já sei!
Mas não quero lhe falar
Das coisas que aprendi nos discos
Tanta coisa aconteceu (creio eu)
A música, hoje, toca na TV e sem chuviscos
A "moda" é gostar de Raça Negra
Mão criminosa virou mão boba
Nosso discurso está limitado aos 15 segundos
E Pronome de Tratamento virou “@”
Quem pensa no tempo também ganha tempo
O futuro do presente me assusta mais que o do pretérito
Lamento...
O futuro presidente vê tortura e faz honra ao mérito
Tormento…
Inquérito...
Luar muda com a maré
Lembrar? Pra quem do futuro é
Vovó firmou na tina
O futuro vai ser ruim da cabeça e doente do pé
Vi gente roubar para comer
Vi gente avisando perigo na esquina
Vi gente roubar por querer
Vi gente do mal sendo bem-vinda
Amanhã foi um dia difícil e ontem será mais ainda
Crimes que eu não considero
Furtar para comer
Mil rosas roubadas
Errar o vernáculo
Redarguir o delegado
Desconsiderar crimes