Simbiose
Das coisas que nos separam
Não sei se culpo o tempo ou o vento
Culpo você
Pois eu pelo menos tento
Que tragédia achar culpados no amor
Ao invés de achar uma solução
Que catástrofe natural
Éramos simbiose em evolução
Suas obviedades eram imprevisíveis
Suas futilidades eram necessárias
Ela perguntava quais as minhas intenções
Eu respondia: “várias”
A sua forma era perfeita
Curvas tropicanas
Achei significado
Até nas poesias parnasianas
Ela é a prova real do clichê
O clichê existe por causa dela
Assim como o Sol
Numa folha qualquer de “Aquarela”
Mas o futuro não estava ali
Esperando pela gente
Ele estava ocupado demais
Atrapalhando o presente
E eu ocupado demais
Planejando o futuro... demérito
Agora gasto o meu tempo
Escrevendo o pretérito
Mais-que-perfeito (espero)
Ir ao litoral para olhar as estrelas
Deitado em seu colo
Você respirando
Vendo os planos que eu bolo
Torcer pra não ser mais uma
Das ilusões amorosas
Constelar o céu da sua boca
Lume das estrelas mais brilhosas
Delinear a lua na rota
Embaralhar o céu e mar azul
Criei um novo zodíaco
As pintas do seu rosto indicavam cruzeiro do sul
Rounds e rendas
Eu vi a desistência de vários
Ouvi cofres, gavetas, salários
E a ignorância que era uma dádiva
Dá devagar a voz ao necessário
Funcionário sem empresa e contrato
Como que pensa em buscar sindicato?
Como compensa a mistura no prato?
E o patrão na ganância morrendo engasgado
Motivos de sobra pra jogar a toalha
Motivos que dobram o peso da falha
Mas se desistir, pendurar suas luvas
Aposenta de vez essa luta diária
Rotina que cobra, que mata
Cidade de homens de lata
Vaselina que não estanca o sangue
Lembrando: “Não apanhe antes que cê bata”
Quantos Robson Conceição
Acordam as 4, pegam lotação
Esquivam, batem, apanham, ganham
E a medalha não é nem de latão
Mais um assalto no ringue
Nenhum pouco motivado
Mais um assalto nas ruas
Que podia ser evitado
Jab, cruzado, contagem até 10
Job afastado, cuide de seus pés
Bilhete sem saldo transporte ta caro
Jornada e trabalho de azar ou revés
Surreal igual David Lynch
Apanha sozinho se prende no clinch
Luva pendurada mão já calejada
Floyd Mayweather sem nenhum requinte
Um dia frio um bom lugar pra ter um oficio
Mas aguentar todos os rounds ta difícil
É que a conta que não fecha no fim do mês
Tira de um bolso que não tem benefício
E o bom é que esse vale tudo não vale nada
O boxe diz tudo na metáfora e no trauma
Nocautes que derrubam sua alma
Nem sempre o gongo te salva
Sonestações
Eu e eu e este Agosto
Meu amor só a sol posto
Você e você meu coração sentiu
Meu amor caído no outono de Abril
Eu Junho por deus que toda noite eu lembro
Do dia em que te vi com Julho naquele Setembro
E agora com meu alanceado coração vermelho rubro
Não posso mais lhe amar na primavera de Outubro
Nas minhas memórias remanescentes todo dia eu caço
A lembrança apagada de um verão sem mormaço
O sol desvanecido à transpor Janeiro, Fevereiro e Março
Metaforicamente, perder você é perder um membro
Amorosamente amputado, no calendário eu desenho
Eu e eu e este solitário Dezembro.
Adão
Você me conquistou pela dificuldade
Ela pela confusão
Você pela vontade
Ela pelo coração
Você pela cidade
Ela naquele vagão
Você na continuidade
Ela na baldeação
Você me conquistou pela seletividade
Ela pela coleção
Você pela velocidade
Ela pela contramão
Você pela idade
Ela pela ilusão
Ela pela viagem
Você pelo pé no chão
Você me conquistou pela humildade
Ela pela presunção
Você pela tranqüilidade
Ela pela irritação
Você pela incerteza da verdade
Ela pela certeza da atuação
Ela pela brevidade
Você pela duração
Sistema Solar
Amar-te juro que eu irei para sempre
Abjugarei de toda desordem da Terra
Que vive num eterno mundo de guerra
Para viver em teus sonhos impudentes
Palejarei deveras bem menos à luz da lua
P’ra ruborescer ao mártir de teu coração
E do satélite minguante não quero ilusão
Que a doce mentira de uma paixão mútua
Quem sabe amando em outra gravidade
Os sentimentos não ajeitam um eclipse
Que amar tenha menos responsabilidade
À Marte, juro, está na hora da decolagem
No fim, todos os astronautas carminados
Constataram que amar é a melhor viagem
Mentiras sinceras
Escancaro nosso amor pelo céu
Deixo-o passear por um zepelim
Uso social completo e compro o véu
Pra você acreditar em mim
Invado seus sonhos
Desperto sua madrugada
Pinto seu rosto em óleo sobre tela
Faço todas as curvas da sua estrada
Dou-lhe todas as cores da aquarela
Troco açúcar pelo adoçante
Aprendo a amar seus trejeitos
Vou de apartidário a militante
Esqueço todos os nossos defeitos
Trago um pedaço da lua
Viro lanterna pra sua escuridão
Se estiver incendiada de raiva
Faço chuva
E só deixo queimando o seu coração
O livro que você adora eu leio
Faço o pôr do sol não ter mais fim
Dedico-te o meu melhor devaneio
Pra você acreditar em mim
Pablo Escolar
O menor com seu sonho de quebrada
Condição com adição de uma mão armada
Trocou a caneta pela beretta carregada
Conspirando seu futuro não faz mais lição de casa
Com a ponto 30 é mais fácil de alcançar e assim vai
Pra ele uma hornet e um i30 pro seu pai
Pra sua mãe o prédio mais alto de Xangai
E o seu sonho de quebrada cai
Trocando escola por cola, matemática violenta
Tres oitão mais doze, colar com a bala ponto 50
O sistema deixou na margem mais um pivete
Que não sabe usar artigo, mas já é 157
Que podia estar andando com caderno
E não uma peça embaixo da blusa
Deixaram o menor interpretar errado
“carreira, dinheiro e canudo” do Cazuza
Quer ser Tony Montana porque viu no supercine
Envolvido e refém da face oculta do crime
Deu all in com um full house e o rebuy já não mais vale
Mas não teve a mesma sorte do Casino Royale
Correu pelo errado e sua mãe não se orgulha
O camelo não passou pelo buraco da agulha
Deixa ele ir quem não é visto não é lembrado
Outro assassinato, outro sonho acordado
E dele nem já não estão mais lembrando
Achou uma luz no fim túnel
Mas era o Giroflex piscando
Isca da faísca entre sistema e milícia
Eu não dou mais pé pra essa fé que eu ponho
Um governo que vende estilo de vida
Mas a realidade é a prima pobre do sonho
Em cada esquina eu vejo mais um motivo
A polícia é ouro em tiro esportivo
Quero ver o Brasil campeão e incentivo pras crianças estudarem
E a volta olímpica pras olimpíadas nunca mais voltarem
Menino de prata
Purpurina, glitter e pó alemão
Todo dia assim, pra chamar atenção
Com os bilhetes de um texto na mão
Pedindo ajuda pro arroz e feijão
Qualquer centavo já é agradecido
Uma moeda, mais que merecido
Tem três irmãos, um desaparecido
Mãe desempregada e o pai falecido
Ô menino de prata, vai baldear
Tem urubu aqui pra te pegar
É que nessa estação não pode mendigar
Hoje não tem prata pra se alimentar
Pro moço de terno e gravata
Dez centavos a menos não mata
Pois ele tem dinheiro pra catraca
Mas ele não quer se sujar de prata
Ele sabe que nem tem idade
Pra se pintar da cor da cidade
Próxima estação já é Liberdade
Pelo lado direito é o desembarque
Ô menino de prata, vai baldear
Tem urubu aqui pra te pegar
É que nessa estação não pode mendigar
Hoje não tem prata pra se alimentar
O poeta morreu
O poeta morreu
De amor
Mas continua vivendo
Foi ao inferno e ao céu
Voltou
E continua apenas sendo
Sobrevivente e não mais vivente
Corpo são e alma doente
Sobrevive, mas não vivencia
Vive no limbo e morreu na poesia
Ela não soube dar valor a quem lhe amou de verdade
O melhor, poeta, é voar para longe dessa vaidade
Sua alma reencarnou na frieza e escuridão
Nenhuma aurora ou céu azul dá-lhe cola ao coração
Nesse universo onde a escuridão é regra e a luz é exceção
O que era melodia virou barulho e confusão
Não tem mais banda, só sobrou a percussão
Os batimentos desaceleraram em desilusão
Provando ao poeta
Que tem música que é melhor sem ler a tradução
O poeta vai ter de arranjar outro ofício
Psicólogo, cardiologista, filósofo
Mas é difícil, verso é vício
É curativo para um coração partido
Conversa com o verso, peito doído e pulsando
Pois um bom partideiro só chora versando
Sofre no amor pois a ingenuidade faz parte
Ingênuo, é poeta e ainda não sabe
Se a arte imita a vida ou a vida imita a arte
O poeta morreu
Parou de escrever
Não por falta de talento
Ele padeceu
Está morto por dentro
Solidão com vista pro mar
Quando ela tirou os pés da areia
O que era sereno virou ressaca
O que era comunhão virou solidão
O que era convicção virou casaca
O mar, vasto, ficou estreito
O sol, extrovertido, desvaneceu
O céu, intrometido, ficou na dele
E o sonho, todo azul, adormeceu
Eu, que fumo, apaguei o meu cigarro
Eu, que bebo, dispensei um conhaque
E a água que molhava minhas canelas
Cancelava o meu embarque
O amor nunca coube numa janela sobre o mar
Nem em um trapiche ou bangalô
E eu não sei dançar tão devagar
Para acompanhar Oguntê, Ynaê e Marabô
A maresia me ofereceu sinestesias
Que nunca foram combinadas antes
Perdi-me entre contos, sambas e poesias
Entre Jorges Amados e amantes
Perdi-me no canto do recife
Nas vozes de um coral sem cor
Agudo como um barítono
Grave como um tenor
Meu peito formiga, ela nunca foi abelha
Sempre dei mel, erro meu
Ela é cigarra, é cigana
É obliqua, e o dissimulado sou eu