Contraste
A mentira seduz a verdade
A paz dança com a guerra
Onde está a minha liberdade
Se eles julgam quem erra?
Vou calar de tanto falar
Meu coração tenta enganar
Mas minha mente não mente
E sente que é diferente
Ele nega que amor rima com dor
Amador
Ele diz que não há ferida que coce
Precoce
Ele não se manifesta no novo ato
Novato
Ele expressa intolerância e eu aturo
Imaturo
A antítese movimenta o mundo, compare
O luxo com o traste, contraste
Sistema Solar
Amar-te juro que eu irei para sempre
Abjugarei de toda desordem da Terra
Que vive num eterno mundo de guerra
Para viver em teus sonhos impudentes
Palejarei deveras bem menos à luz da lua
P’ra ruborescer ao mártir de teu coração
E do satélite minguante não quero ilusão
Que a doce mentira de uma paixão mútua
Quem sabe amando em outra gravidade
Os sentimentos não ajeitam um eclipse
Que amar tenha menos responsabilidade
À Marte, juro, está na hora da decolagem
No fim, todos os astronautas carminados
Constataram que amar é a melhor viagem
Poema tirado de um poema tirado de uma notícia de jornal
Joãozinho Gostoso era morador do morro Chapéu Mangueira
Cresceu sem pai e fazia vapor de segunda à sexta-feira
Ouvia “Um homem na estrada recomeça sua vida”
Sem nunca ter visto asfalto, não encontrou uma saída
Era conhecido no morro como JotaGê
Tinha o sonho de ser soldado na CDD
Dizem que seu pai se suicidou afogado
Mas, na lagoa Rodrigues de Freitas, o corpo nunca foi encontrado
De sábado ia no baile com o amigo aviãozinho
E de domingo jogava bola sem chuteira no campinho
Sua vida era rotina igual a Construção de Chico
Quando faltava alguém de olheiro pedia “deixa que eu fico”
Uma noite, ele quis impressionar o dono do morro
Vendeu daquela vez como se fosse o único
Roubou daquela vez como se fosse a útlima
Matou um homem fardado como se fosse mágico
E morreu na própria mão atrapalhando o tráfico
À mesma
À mesa uma taça e ao lado o barril
Dois corpos se amando e se protegendo do frio
No inverno é sereno, diferente do verão
Junto ao calor, foi-se a paixão
À mesa o jantar e no centro um queijo
Um corpo se lembrando do primeiro beijo
Ele tinha o véu, mas ele tem o inverno
Tradicional sommelier a sós com seu terno
Na adega o tinto francês, o branco e a esperança
No coração invernal a eterna lembrança
Mais uma dose, observando Marseille pela janela
Olha para a porta, mas nunca vinha ela
Ele relação com seu interior
Ela relações internacionais
Ele escrevendo sobre amor
Ela escrevendo jornais
Ele saúde, ela santé
Ele tinto, ela rosé
Ela mal acompanhada, ele sozinho
Ela vinha, ele vinho
Simbiose
Das coisas que nos separam
Não sei se culpo o tempo ou o vento
Culpo você
Pois eu pelo menos tento
Que tragédia achar culpados no amor
Ao invés de achar uma solução
Que catástrofe natural
Éramos simbiose em evolução
Suas obviedades eram imprevisíveis
Suas futilidades eram necessárias
Ela perguntava quais as minhas intenções
Eu respondia: “várias”
A sua forma era perfeita
Curvas tropicanas
Achei significado
Até nas poesias parnasianas
Ela é a prova real do clichê
O clichê existe por causa dela
Assim como o Sol
Numa folha qualquer de “Aquarela”
Mas o futuro não estava ali
Esperando pela gente
Ele estava ocupado demais
Atrapalhando o presente
E eu ocupado demais
Planejando o futuro... demérito
Agora gasto o meu tempo
Escrevendo o pretérito
Mais-que-perfeito (espero)
Ir ao litoral para olhar as estrelas
Deitado em seu colo
Você respirando
Vendo os planos que eu bolo
Torcer pra não ser mais uma
Das ilusões amorosas
Constelar o céu da sua boca
Lume das estrelas mais brilhosas
Delinear a lua na rota
Embaralhar o céu e mar azul
Criei um novo zodíaco
As pintas do seu rosto indicavam cruzeiro do sul
Solidão com vista pro mar
Quando ela tirou os pés da areia
O que era sereno virou ressaca
O que era comunhão virou solidão
O que era convicção virou casaca
O mar, vasto, ficou estreito
O sol, extrovertido, desvaneceu
O céu, intrometido, ficou na dele
E o sonho, todo azul, adormeceu
Eu, que fumo, apaguei o meu cigarro
Eu, que bebo, dispensei um conhaque
E a água que molhava minhas canelas
Cancelava o meu embarque
O amor nunca coube numa janela sobre o mar
Nem em um trapiche ou bangalô
E eu não sei dançar tão devagar
Para acompanhar Oguntê, Ynaê e Marabô
A maresia me ofereceu sinestesias
Que nunca foram combinadas antes
Perdi-me entre contos, sambas e poesias
Entre Jorges Amados e amantes
Perdi-me no canto do recife
Nas vozes de um coral sem cor
Agudo como um barítono
Grave como um tenor
Meu peito formiga, ela nunca foi abelha
Sempre dei mel, erro meu
Ela é cigarra, é cigana
É obliqua, e o dissimulado sou eu
O poeta morreu
O poeta morreu
De amor
Mas continua vivendo
Foi ao inferno e ao céu
Voltou
E continua apenas sendo
Sobrevivente e não mais vivente
Corpo são e alma doente
Sobrevive, mas não vivencia
Vive no limbo e morreu na poesia
Ela não soube dar valor a quem lhe amou de verdade
O melhor, poeta, é voar para longe dessa vaidade
Sua alma reencarnou na frieza e escuridão
Nenhuma aurora ou céu azul dá-lhe cola ao coração
Nesse universo onde a escuridão é regra e a luz é exceção
O que era melodia virou barulho e confusão
Não tem mais banda, só sobrou a percussão
Os batimentos desaceleraram em desilusão
Provando ao poeta
Que tem música que é melhor sem ler a tradução
O poeta vai ter de arranjar outro ofício
Psicólogo, cardiologista, filósofo
Mas é difícil, verso é vício
É curativo para um coração partido
Conversa com o verso, peito doído e pulsando
Pois um bom partideiro só chora versando
Sofre no amor pois a ingenuidade faz parte
Ingênuo, é poeta e ainda não sabe
Se a arte imita a vida ou a vida imita a arte
O poeta morreu
Parou de escrever
Não por falta de talento
Ele padeceu
Está morto por dentro
Menino de prata
Purpurina, glitter e pó alemão
Todo dia assim, pra chamar atenção
Com os bilhetes de um texto na mão
Pedindo ajuda pro arroz e feijão
Qualquer centavo já é agradecido
Uma moeda, mais que merecido
Tem três irmãos, um desaparecido
Mãe desempregada e o pai falecido
Ô menino de prata, vai baldear
Tem urubu aqui pra te pegar
É que nessa estação não pode mendigar
Hoje não tem prata pra se alimentar
Pro moço de terno e gravata
Dez centavos a menos não mata
Pois ele tem dinheiro pra catraca
Mas ele não quer se sujar de prata
Ele sabe que nem tem idade
Pra se pintar da cor da cidade
Próxima estação já é Liberdade
Pelo lado direito é o desembarque
Ô menino de prata, vai baldear
Tem urubu aqui pra te pegar
É que nessa estação não pode mendigar
Hoje não tem prata pra se alimentar
Mentiras sinceras
Escancaro nosso amor pelo céu
Deixo-o passear por um zepelim
Uso social completo e compro o véu
Pra você acreditar em mim
Invado seus sonhos
Desperto sua madrugada
Pinto seu rosto em óleo sobre tela
Faço todas as curvas da sua estrada
Dou-lhe todas as cores da aquarela
Troco açúcar pelo adoçante
Aprendo a amar seus trejeitos
Vou de apartidário a militante
Esqueço todos os nossos defeitos
Trago um pedaço da lua
Viro lanterna pra sua escuridão
Se estiver incendiada de raiva
Faço chuva
E só deixo queimando o seu coração
O livro que você adora eu leio
Faço o pôr do sol não ter mais fim
Dedico-te o meu melhor devaneio
Pra você acreditar em mim
Precipitação
Meus olhos se precipitaram achando que era você
Precipitaram-se fazendo pelo meu rosto chover
Já de saída, não basta fechar, mas tranca a porta
Tu não percebes que mesmo trancada ela transborda
Meus olhos, numa corrente de lágrimas, apagam nossa vela
Quem não arrisca molhar o próprio lar deixa fechada a janela
E de que adianta tê-la fechada se lá fora está sua faixa amarela
Encharcada e desbotada, sem mais bordado o nome dela
Tamanha arrogância achar que essa pessoa era o Mundo
Tamanho egoísmo crer que nessa garoa eu inundo
Tamanha precipitação que mal escoa e eu afundo
Você reta e eu curva
Você nítida e eu turva
Você guarda e eu chuva