Poema tirado de um poema tirado de uma notícia de jornal
Joãozinho Gostoso era morador do morro Chapéu Mangueira
Cresceu sem pai e fazia vapor de segunda à sexta-feira
Ouvia “Um homem na estrada recomeça sua vida”
Sem nunca ter visto asfalto, não encontrou uma saída
Era conhecido no morro como JotaGê
Tinha o sonho de ser soldado na CDD
Dizem que seu pai se suicidou afogado
Mas, na lagoa Rodrigues de Freitas, o corpo nunca foi encontrado
De sábado ia no baile com o amigo aviãozinho
E de domingo jogava bola sem chuteira no campinho
Sua vida era rotina igual a Construção de Chico
Quando faltava alguém de olheiro pedia “deixa que eu fico”
Uma noite, ele quis impressionar o dono do morro
Vendeu daquela vez como se fosse o único
Roubou daquela vez como se fosse a útlima
Matou um homem fardado como se fosse mágico
E morreu na própria mão atrapalhando o tráfico
Eu sempre tive medo
Vejo a historia se repetindo e meu voto falido
Pessoas que, discutindo, não veêm o país caído
E mesmo eles tentando desfocar o meu olhar
Estou puto com o corrupto e esse luto me faz lutar
Não te convidaram para a festa do golpe?
Seu inimigo está no poder e já tomou posse
Não te ofereceram nem um cigarro?
A fumaça que eu trago vêm da bomba do estado
E eu trago em metáforas o medo de te eleger
Eu trago o nome da rosa com certidão e RG
Eu trago informação que um dia um professor me disse
Pra ser sincero
Eu sempre tive medo daquele vice
O passado tinha mais futuro do que o presente
Digo o passado recente, não aquele dos tenentes
Pegando sempre os exemplos ruins lá de fora
A casa das cartas virou jogo do bicho! E agora?
E agora John? E agora George? E agora Michel, o que nos resta?
E agora José, você que faz versos, que ama, protesta?
Não veio a utopia, não é igual Forrest Gump
Fogo em babel que essa é Babylon by Trump
E eu sempre tive medo daquele vice...
Toca o hino, dá discurso, só que esquece
Que o Brazil que voce ta falando é Brasil com S
Brasil de brasileiro que da luta nunca fugiu
Morreu alguém, e a ficha ainda não caiu
Democracia que não me deixa ser democrata
Mania de mantê-la abstrata
Mandato que nem metade ela cumpriu
Derrubaram a ficha, e a minha ficha caiu
Adão
Você me conquistou pela dificuldade
Ela pela confusão
Você pela vontade
Ela pelo coração
Você pela cidade
Ela naquele vagão
Você na continuidade
Ela na baldeação
Você me conquistou pela seletividade
Ela pela coleção
Você pela velocidade
Ela pela contramão
Você pela idade
Ela pela ilusão
Ela pela viagem
Você pelo pé no chão
Você me conquistou pela humildade
Ela pela presunção
Você pela tranqüilidade
Ela pela irritação
Você pela incerteza da verdade
Ela pela certeza da atuação
Ela pela brevidade
Você pela duração
Tarde demais
Haverá um dia todo cinza, em que será tarde demais
Um dia em que não exisitirão essas vaidades atuais
Um dia em que todas as árvores cortadas virarão papel
Um dia em que o ser humano será julgado como réu
Haverá um dia em que sobrará clemência
Um dia em que não adiantará de nada toda a ciência
Um dia em que será valorizada a sustentabilidade
Um dia em que vai supersaturar toda a cidade
Haverá um dia em que existirá vida em outro planeta
Um dia em que cairá toda a areia da ampulheta
Um dia em que não existirá céu nem inferno
Um dia em que o exterior valerá menos que o interno
Haverá um dia em que será valorizada a amizade
Um dia em que saberão o conceito de “sociedade”
Um dia em que todos estarão sem terno e gravata
Um dia em que não valerá de nada o ouro e a prata
Haverá um dia em que o nariz empinado vai se curvar
Um dia em que o seu computador e telefone vão falhar
Um dia em que todos lembrarão do continente africano
Um dia em que vão respeitar o a religião do muçulmano
Haverá um dia em que a roda vai parar
Um dia em que o teu amor não irá te chamar
Um dia em que a banda não irá passar
Haverá um dia em que existirá respeito com gays e afins
Um dia em que morrerão as flores de todos os jardins
Um dia em que os meios justificarão os fins.
Mariana
Quando eu vi Mariana
Na sua forma mais linda
Não percebi que ainda
Estava cercada em liberdade
Eu, que bebia na sua fonte
Carrego escombros túrbidos
E os meus ombros úmidos
Se enfraquecem de saudade
O Sol que arde dentro de nós
Justifica essa sobrecarga
A foz, a voz, avós a sós
Inundam essa vida amarga
Se, no seu passo tímido, eu encontrei paixão
É porque seu ritmo me engana
Rio doce que me afoga de sal, hipertensão
A vida insiste em continuar, Mariana
No seu vestido terracota escuro
Eu escorri como dois rios inteiros
Sem direção, contramão
Ação de um empreiteiro
Você virou minha obra mais bela, Mariana
Construída pelo Pai, pela Mãe
Pelo Espírito Santo
Amém e amem
Destruiu hectares de acalanto
O que restou da nossa vida leve
Vida louca, vida breve?
Leva uma vida bela
Como uma chuva que escreve
Eu sem você, Mariana
É uma família sem casa
É uma cidade sem água
É uma nódoa sem mágoa
É um pescador sem o peixe
Agricultor sem o feixe
Um Índio sem tribo
Farinha sem trigo
Mariana foi um rio que passou em minha vida
Assim, efêmera, líquida
Não mais insípida, tampouco incolor
Inodora, e agora?
Mariana, você roubou o meu amor
Sistema Solar
Amar-te juro que eu irei para sempre
Abjugarei de toda desordem da Terra
Que vive num eterno mundo de guerra
Para viver em teus sonhos impudentes
Palejarei deveras bem menos à luz da lua
P’ra ruborescer ao mártir de teu coração
E do satélite minguante não quero ilusão
Que a doce mentira de uma paixão mútua
Quem sabe amando em outra gravidade
Os sentimentos não ajeitam um eclipse
Que amar tenha menos responsabilidade
À Marte, juro, está na hora da decolagem
No fim, todos os astronautas carminados
Constataram que amar é a melhor viagem
Harmonia em acrasia
Éramos Portela e Mangueira
Passarela e bandeira
Mestre sala, quarto, porta e banheira
Eu, súdito como as nuvens para o céu
Ela, Independente como Padre Miguel
O Tom foi menor do que eu esperava
Mas, bastou
O olhar X9 me dedurou
E, se chove no sambódromo,
Deus quem regou
O jardim de minha escola é só amor
Desde Nenê que eu sou assim (e quem sofre é o tamborim)
Gosto do sereno, da roda a cantar
Planta do pé no asfalto, Partido Alto
Então, aproveite o recuo da bateria e Vai-Vai Vadiar
Quem ama, seus males espanta
Na Flor da Mocidade, bem Jovelina
A ladra que guarda a minha quadra
Minha Pérola Negra, minha sina
Foi um rio que passou na avenida
O “quaiscalingudum” de um coração partido faz cavaco chorar
É a comissão de frente com missão urgente
De concentrar e dispersar
Quando as platinelas do pandeiro entortarem
E o gorgurão da cuíca secar
Ela talvez perceba
Que eu era pimenta demais pro seu vatapá
Sonho de bamba, pesadelo de valsa
Brisa boa, ar lindo, cruz, luz e vela
Colore meu pavilhão
Mancha a minha faixa amarela
Somos Portela e Mangueira
Alegria na quarta-feira
Mas, não a faço carnaval
Pois carnaval é fevereiro
Faço-a pagode para o ano inteiro
Quando ela diz que essa pulga aí é Sapucaí
Que Samba é o meu único assunto
Respondo quaisquer quais quais, chego junto
E firmo sem medo:
“Você é minha escola, minha fantasia e meu enredo”
Contraste
A mentira seduz a verdade
A paz dança com a guerra
Onde está a minha liberdade
Se eles julgam quem erra?
Vou calar de tanto falar
Meu coração tenta enganar
Mas minha mente não mente
E sente que é diferente
Ele nega que amor rima com dor
Amador
Ele diz que não há ferida que coce
Precoce
Ele não se manifesta no novo ato
Novato
Ele expressa intolerância e eu aturo
Imaturo
A antítese movimenta o mundo, compare
O luxo com o traste, contraste
À mesma
À mesa uma taça e ao lado o barril
Dois corpos se amando e se protegendo do frio
No inverno é sereno, diferente do verão
Junto ao calor, foi-se a paixão
À mesa o jantar e no centro um queijo
Um corpo se lembrando do primeiro beijo
Ele tinha o véu, mas ele tem o inverno
Tradicional sommelier a sós com seu terno
Na adega o tinto francês, o branco e a esperança
No coração invernal a eterna lembrança
Mais uma dose, observando Marseille pela janela
Olha para a porta, mas nunca vinha ela
Ele relação com seu interior
Ela relações internacionais
Ele escrevendo sobre amor
Ela escrevendo jornais
Ele saúde, ela santé
Ele tinto, ela rosé
Ela mal acompanhada, ele sozinho
Ela vinha, ele vinho
Simbiose
Das coisas que nos separam
Não sei se culpo o tempo ou o vento
Culpo você
Pois eu pelo menos tento
Que tragédia achar culpados no amor
Ao invés de achar uma solução
Que catástrofe natural
Éramos simbiose em evolução
Suas obviedades eram imprevisíveis
Suas futilidades eram necessárias
Ela perguntava quais as minhas intenções
Eu respondia: “várias”
A sua forma era perfeita
Curvas tropicanas
Achei significado
Até nas poesias parnasianas
Ela é a prova real do clichê
O clichê existe por causa dela
Assim como o Sol
Numa folha qualquer de “Aquarela”
Mas o futuro não estava ali
Esperando pela gente
Ele estava ocupado demais
Atrapalhando o presente
E eu ocupado demais
Planejando o futuro... demérito
Agora gasto o meu tempo
Escrevendo o pretérito
Mais-que-perfeito (espero)
Ir ao litoral para olhar as estrelas
Deitado em seu colo
Você respirando
Vendo os planos que eu bolo
Torcer pra não ser mais uma
Das ilusões amorosas
Constelar o céu da sua boca
Lume das estrelas mais brilhosas
Delinear a lua na rota
Embaralhar o céu e mar azul
Criei um novo zodíaco
As pintas do seu rosto indicavam cruzeiro do sul