Harmonia em acrasia
Éramos Portela e Mangueira
Passarela e bandeira
Mestre sala, quarto, porta e banheira
Eu, súdito como as nuvens para o céu
Ela, Independente como Padre Miguel
O Tom foi menor do que eu esperava
Mas, bastou
O olhar X9 me dedurou
E, se chove no sambódromo,
Deus quem regou
O jardim de minha escola é só amor
Desde Nenê que eu sou assim (e quem sofre é o tamborim)
Gosto do sereno, da roda a cantar
Planta do pé no asfalto, Partido Alto
Então, aproveite o recuo da bateria e Vai-Vai Vadiar
Quem ama, seus males espanta
Na Flor da Mocidade, bem Jovelina
A ladra que guarda a minha quadra
Minha Pérola Negra, minha sina
Foi um rio que passou na avenida
O “quaiscalingudum” de um coração partido faz cavaco chorar
É a comissão de frente com missão urgente
De concentrar e dispersar
Quando as platinelas do pandeiro entortarem
E o gorgurão da cuíca secar
Ela talvez perceba
Que eu era pimenta demais pro seu vatapá
Sonho de bamba, pesadelo de valsa
Brisa boa, ar lindo, cruz, luz e vela
Colore meu pavilhão
Mancha a minha faixa amarela
Somos Portela e Mangueira
Alegria na quarta-feira
Mas, não a faço carnaval
Pois carnaval é fevereiro
Faço-a pagode para o ano inteiro
Quando ela diz que essa pulga aí é Sapucaí
Que Samba é o meu único assunto
Respondo quaisquer quais quais, chego junto
E firmo sem medo:
“Você é minha escola, minha fantasia e meu enredo”
Entre nós
Ilê Aiyê trouxe nova aurora
Enredo para um samba de amor
Pessoas cheias de glitter por fora
Mas você trouxe brilho interior
Não sei se nosso romance vira tema de simulado
Ou apenas tema de mais uma redação
Uma nuance, problema dissimulado
Mas não 5 parágrafos de dissertação
Para te descrever, preciso de mil estrofes
Sonetos, baladas e rondós
E por mais que eu filosofe
Não conseguirei desamarrar nós
Ou desamarrar-nos
Deste laço cego
Seu corpo tem rimas
Que só eu enxergo
Você não é mais uma poesia
Que eu escrevi durante a tarde
És verso de madrugada
Sono que some, peito que arde
Um amor dissílabo, confesso
O único “Eu” da relação é lírico
Tudo é “Você“, me expresso
E peço análise de algum crítico
Que me criticou, apontou meu problema
Sofro por amores que ainda não vivi
O seu sorriso é um poema
E é mais lindo do que todos que eu já escrevi
Pablo Escolar
O menor com seu sonho de quebrada
Condição com adição de uma mão armada
Trocou a caneta pela beretta carregada
Conspirando seu futuro não faz mais lição de casa
Com a ponto 30 é mais fácil de alcançar e assim vai
Pra ele uma hornet e um i30 pro seu pai
Pra sua mãe o prédio mais alto de Xangai
E o seu sonho de quebrada cai
Trocando escola por cola, matemática violenta
Tres oitão mais doze, colar com a bala ponto 50
O sistema deixou na margem mais um pivete
Que não sabe usar artigo, mas já é 157
Que podia estar andando com caderno
E não uma peça embaixo da blusa
Deixaram o menor interpretar errado
“carreira, dinheiro e canudo” do Cazuza
Quer ser Tony Montana porque viu no supercine
Envolvido e refém da face oculta do crime
Deu all in com um full house e o rebuy já não mais vale
Mas não teve a mesma sorte do Casino Royale
Correu pelo errado e sua mãe não se orgulha
O camelo não passou pelo buraco da agulha
Deixa ele ir quem não é visto não é lembrado
Outro assassinato, outro sonho acordado
E dele nem já não estão mais lembrando
Achou uma luz no fim túnel
Mas era o Giroflex piscando
Isca da faísca entre sistema e milícia
Eu não dou mais pé pra essa fé que eu ponho
Um governo que vende estilo de vida
Mas a realidade é a prima pobre do sonho
Em cada esquina eu vejo mais um motivo
A polícia é ouro em tiro esportivo
Quero ver o Brasil campeão e incentivo pras crianças estudarem
E a volta olímpica pras olimpíadas nunca mais voltarem
Rounds e rendas
Eu vi a desistência de vários
Ouvi cofres, gavetas, salários
E a ignorância que era uma dádiva
Dá devagar a voz ao necessário
Funcionário sem empresa e contrato
Como que pensa em buscar sindicato?
Como compensa a mistura no prato?
E o patrão na ganância morrendo engasgado
Motivos de sobra pra jogar a toalha
Motivos que dobram o peso da falha
Mas se desistir, pendurar suas luvas
Aposenta de vez essa luta diária
Rotina que cobra, que mata
Cidade de homens de lata
Vaselina que não estanca o sangue
Lembrando: “Não apanhe antes que cê bata”
Quantos Robson Conceição
Acordam as 4, pegam lotação
Esquivam, batem, apanham, ganham
E a medalha não é nem de latão
Mais um assalto no ringue
Nenhum pouco motivado
Mais um assalto nas ruas
Que podia ser evitado
Jab, cruzado, contagem até 10
Job afastado, cuide de seus pés
Bilhete sem saldo transporte ta caro
Jornada e trabalho de azar ou revés
Surreal igual David Lynch
Apanha sozinho se prende no clinch
Luva pendurada mão já calejada
Floyd Mayweather sem nenhum requinte
Um dia frio um bom lugar pra ter um oficio
Mas aguentar todos os rounds ta difícil
É que a conta que não fecha no fim do mês
Tira de um bolso que não tem benefício
E o bom é que esse vale tudo não vale nada
O boxe diz tudo na metáfora e no trauma
Nocautes que derrubam sua alma
Nem sempre o gongo te salva
À mesma
À mesa uma taça e ao lado o barril
Dois corpos se amando e se protegendo do frio
No inverno é sereno, diferente do verão
Junto ao calor, foi-se a paixão
À mesa o jantar e no centro um queijo
Um corpo se lembrando do primeiro beijo
Ele tinha o véu, mas ele tem o inverno
Tradicional sommelier a sós com seu terno
Na adega o tinto francês, o branco e a esperança
No coração invernal a eterna lembrança
Mais uma dose, observando Marseille pela janela
Olha para a porta, mas nunca vinha ela
Ele relação com seu interior
Ela relações internacionais
Ele escrevendo sobre amor
Ela escrevendo jornais
Ele saúde, ela santé
Ele tinto, ela rosé
Ela mal acompanhada, ele sozinho
Ela vinha, ele vinho
Contraste
A mentira seduz a verdade
A paz dança com a guerra
Onde está a minha liberdade
Se eles julgam quem erra?
Vou calar de tanto falar
Meu coração tenta enganar
Mas minha mente não mente
E sente que é diferente
Ele nega que amor rima com dor
Amador
Ele diz que não há ferida que coce
Precoce
Ele não se manifesta no novo ato
Novato
Ele expressa intolerância e eu aturo
Imaturo
A antítese movimenta o mundo, compare
O luxo com o traste, contraste
Carta de amor
Ridícula igual todas as outras
Esdrúxula igual Álvaro um dia escreveu
É ridícula por ser de amor
E digna de quem já sofreu
Escrevo mesmo assim
Sem vergonha de ser patético
Cético ao ponto de acreditar
E acreditando ao ponto de ser cético
Você me fez voar mais alto do que Dumont
E escrever melhor do que Drummond
Eu sei que vou te amar em cada despedida
Mais do que a música do Tom
Ave de rapina, sofisticada como anis
Minguante como 1/3 da lua
Depois de 14 beijos, eu pedi bis
E lembrei ¼ de você nua
Estudei as três do romantismo
Pra chegar à fase que estou
Inexplicável e surreal como Ismália
Que por um sonho se jogou
Vivo a “Lira dos Vinte Anos”
Cantando a “Canção do exílio”
Boêmio urbano
Postiço como um cílio
Descartável igual flecha
Fiz cego ver, milagre de um cupido
Dancei com o seu cabelo
E te ganhei com uma fala mansa ao pé do ouvido
Prometi a mim mesmo
Que não ia escrever uma carta de amor
Mas escrevi, não só para depor
Mas para não ser
Ridículo
Poema tirado de um poema tirado de uma notícia de jornal
Joãozinho Gostoso era morador do morro Chapéu Mangueira
Cresceu sem pai e fazia vapor de segunda à sexta-feira
Ouvia “Um homem na estrada recomeça sua vida”
Sem nunca ter visto asfalto, não encontrou uma saída
Era conhecido no morro como JotaGê
Tinha o sonho de ser soldado na CDD
Dizem que seu pai se suicidou afogado
Mas, na lagoa Rodrigues de Freitas, o corpo nunca foi encontrado
De sábado ia no baile com o amigo aviãozinho
E de domingo jogava bola sem chuteira no campinho
Sua vida era rotina igual a Construção de Chico
Quando faltava alguém de olheiro pedia “deixa que eu fico”
Uma noite, ele quis impressionar o dono do morro
Vendeu daquela vez como se fosse o único
Roubou daquela vez como se fosse a útlima
Matou um homem fardado como se fosse mágico
E morreu na própria mão atrapalhando o tráfico
Solidão com vista pro mar
Quando ela tirou os pés da areia
O que era sereno virou ressaca
O que era comunhão virou solidão
O que era convicção virou casaca
O mar, vasto, ficou estreito
O sol, extrovertido, desvaneceu
O céu, intrometido, ficou na dele
E o sonho, todo azul, adormeceu
Eu, que fumo, apaguei o meu cigarro
Eu, que bebo, dispensei um conhaque
E a água que molhava minhas canelas
Cancelava o meu embarque
O amor nunca coube numa janela sobre o mar
Nem em um trapiche ou bangalô
E eu não sei dançar tão devagar
Para acompanhar Oguntê, Ynaê e Marabô
A maresia me ofereceu sinestesias
Que nunca foram combinadas antes
Perdi-me entre contos, sambas e poesias
Entre Jorges Amados e amantes
Perdi-me no canto do recife
Nas vozes de um coral sem cor
Agudo como um barítono
Grave como um tenor
Meu peito formiga, ela nunca foi abelha
Sempre dei mel, erro meu
Ela é cigarra, é cigana
É obliqua, e o dissimulado sou eu
Menino de prata
Purpurina, glitter e pó alemão
Todo dia assim, pra chamar atenção
Com os bilhetes de um texto na mão
Pedindo ajuda pro arroz e feijão
Qualquer centavo já é agradecido
Uma moeda, mais que merecido
Tem três irmãos, um desaparecido
Mãe desempregada e o pai falecido
Ô menino de prata, vai baldear
Tem urubu aqui pra te pegar
É que nessa estação não pode mendigar
Hoje não tem prata pra se alimentar
Pro moço de terno e gravata
Dez centavos a menos não mata
Pois ele tem dinheiro pra catraca
Mas ele não quer se sujar de prata
Ele sabe que nem tem idade
Pra se pintar da cor da cidade
Próxima estação já é Liberdade
Pelo lado direito é o desembarque
Ô menino de prata, vai baldear
Tem urubu aqui pra te pegar
É que nessa estação não pode mendigar
Hoje não tem prata pra se alimentar