Verdade ou ficção
Se há gente que acha que sou mesmo assim
Há outra que pensa que assim não sou;
Que sou aquela que se ficcionou
Ou, então, a que mais se aproxima de mim.
Faço das palavras meu espadachim
Digo tudo aquilo que sou e não sou
Aquela que em versos se desdobrou…
Laço-as, golpeio-as, dou-lhes fim.
Faço-vos sentir eu, amar ou odiar
Viver versos como se vossos fossem
Valorizando ou não, o meu versejar.
Rimas perfeitas que riem ou tossem
Num esforço enorme de aqui narrar
Emoções minhas, que as dores desossem!
Lucibei@poems
Lúcia Ribeiro
In “Sonetando”
MODOCROMIA Edições
Desamerdei-me
Hoje, o curtir, que era mais usado no Brasil atravessou o atlântico e instalou-se de vez neste jardim a beira-mar plantado, para ficar. Considerado muito útil, porque dispensou o verbo gozar, fruir, desfrutar... Agora curte-se tudo…as gajas/gajos, as caipiras e caipirinhas, as gordas de dar dó, as discos, os shots, as ganzas…
Surgem, então, pérolas de palavras nadas de uma ignorância em crescendo, porque o que importa é desenrascar-se, desenvencilhar-se…
Fala-se de imbigos, escupir no chão… ou escrevem-se palavras sui generis: desamerdar-se, sequesso, brilhas, nalgas…
Posto isto, eu, que às vezes me considero poeta, vou tentar desamerdar-me e fazer um poema, à minha maneira, com esta treta.
Desamerdei-me
Hoje, chavalita, sunhei cuntigo
Deichei d’ólhar pró meu imbigo
Tirei-te o azimute às nalgas
Desfiz-me das fraldas
Fixei tuas brilhas
Imaginei maravilhas
E órfão de nexo
Sonhei com sequesso.
Lucibei@poems
Lúcia Ribeiro
In “Muita Poesia e Pouca Prosa”
Outono
Outonam-se as carnes
Entre o estio dos sentidos
E o inverno do destino.
E o corpo pede Sol
Um “Sol” esperto…
A formigar desejos
A toldar a vista
A pedir investimento
A retardar o ocaso.
Lucibei@poems
Lúcia Ribeiro
In “Muita Poesia e Pouca Prosa”
Nudez
Adivinho a nudez
Com que te vestes...
E visto-te de carícias e beijos
Numa languidez acesa
Num querer rápido e aglutinador
Numa paixão desabrida.
Nudez
Adivinho a nudez
Com que te vestes...
E visto-te de carícias e beijos
Numa languidez acesa
Num querer rápido e aglutinador
Numa paixão desabrida.
Santo António
Santo António, malandreco,
adora moças solteiras.
Aquelas que são casadas…
não gostam de brincadeiras.
No entanto, este santinho,
defensor do casamento,
não brinca com coisas sérias…
é santo de muito tento.
Na noite do dia doze,
toda a gente quer folgar,
entre bailes e comida…
toda a noite sem parar.
Lucibei@poems
Lúcia Ribeiro
In ”Muita Poesia e Pouca Prosa”
Olhares escritos
Olhares escritos
Da rocha vermelha, maravilhosa
Sobressaiu uma vagina perfeita;
Virgem e sem apresentar maleita
Coisas da natureza mui fogosa.
A pintura erótica e cavernosa
Que a tela da terra tão bem enfeita
E o nosso olhar curioso não enjeita…
Uma visão, quiçá maliciosa.
Nesta partilha de formas e cores
Numa atitude deveras marota
Gracejam com a arte estes dois autores...
Desta simbiose quase anedota
Alterando um pouco os vossos humores
Poema e foto geraram risota.
Lucibei@poems
Lúcia Ribeiro
In ”Sonetando”
Modocromia Edições
Até sempre
Muito obrigada Agustina Bessa Luís
por todo o manancial que foste escrevendo
e que muita gente foi comprando e lendo,
por escreveres a prosa que eu sempre quis.
A tua escrita brotou como flor de lis,
um querer de mulher arrojada em crescendo,
mostrando-se ao mundo, seu valor tecendo
em palavras às vezes duras ou subtis.
Dizia-se bem mais conhecida que lida,
escreveu para o teatro e para o cinema,
sempre apoiada pelo homem de sua vida.
Escrever muito e escrever bem, era o seu lema.
Sobre gentes variadas e a sua lida
e recorrendo amiúde ao epifonema.
Lucibei@poems
Lúcia Ribeiro
In ”Muita Poesia e Pouca Prosa”
04-06-2019
Querer insano
Tua boca é fonte onde quero beber
Teu olhar é o lago onde quero navegar
Teu corpo o relevo aonde quero trepar
Teu espírito o remanso onde quero morrer.
Somado todo este puro e insano querer
Correndo o risco de tamanha conta errar;
Partirei, então, desolada, sem desfrutar
Um desejo oculto que esperava viver.
E, vivendo vou, esperançada neste amor
Que às vezes me derruba, outras me completa
Porfiando, neutralizo este desamor.
O fazer poesia também me completa
Com ela consigo afastar a minha dor
Tarefa calma, de todas a mais dileta.
Lúcia Ribeiro
In “Sonetando"
Modocromia Edições
Hoje, sou outra!
Hoje, acordei enxuta, seca,
mirrada de ideias feitas.
Hoje, recuso a racionalidade idiota.
Quero sonhar,
batizar-me de criatividade,
dar largas à felicidade.
Hoje, quero alhear-me de códigos,
alhear-me de leis,
despojar-me dos anéis…
Quero sentir-te nos dedos.
Lucibei@poems
Lúcia Ribeiro
In “ Muita Poesia e Pouca Prosa”