Manito O Nato

Manito O Nato

n. 0000-04-06, Rio de Janeiro

Perfil
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Deixei meu coração enfim morar na lua

Deixei meu coração enfim morar na lua.

Vi seu olhar, no céu sem fim planar, errante.

Vi-me espelhada a sorte eterna em brilho instante

Que na imensidão revela a essência Tua

Senti toda demência que na ciência atua

- Buscando pela essência Teu pairar constante

Sobre a mãe esfera - em atitude infante,

Pois tendo a Ti adiante segue improba e crua.

Vi do meu coração um longo olhar rendido,

Radiante e embebecido no esplendor da casa

Da Tua paz e da Tua luz, sem ter, sem dor, sem ruído.

Ouvi meu coração por fim bradar da lua:

“Dá-me fazer senhor, da imperfeição uma asa

e envolto em tua Paz voar feliz na rua”.
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Biografia

Regue tuas lágrimas a paixão perdida, mas que não venha a aguada de uma nova primavera encontrar-te a semente do amor putrefeita por tão longo pranto.
Mereces muito mais tu a tua liberdade, do que teus fracassos a coroa dos teus lamentos!
Manito O Nato
 

Poemas

8

Nas asas da surreal-idade

Nas asas da surreal-idade
Lancei-me fora ao vento
Tendo a esquerda o silencio
E à direita mortas verdades...
N'alma lembranças acesas
No olhar o sonho celeste...
Levo no coração agreste
Rumorejante vozerio

À frente, em brilho noturno
Única silenciosa e bela
Reinando sobre o vazio
Sorri-me a estrela-dalva
Emoldurada pela janela

Ao meu convite e da mata
Que do véu negro ela encanta
Ajoelhada diante dela
A noite fica parada...
E o silencio a cantar se levanta
No coaxar, nos silvos e nos pios,
Soltando-se em risos cálidos;
Tudo petrifica o momento
Escondido na vésper azulada...
E eu sem pensamento
Adormeço em sua luz... ao relento.
1 150

Nuvens espessas

Espessas formam-se as nuvens
Carregadas de cor e de penas
Das penas caladas na alma
Na alma em que o penar reza
Quem como ao céu acena
Sem disfarce rogando à arte
No Deus de quem ela é parte
Que as espessas nuvens errantes
Sejam brancas, fugazes, serenas
Caminheiras em cantilenas
E seja a tormenta estandarte
Fechando-lhe o inverno, destarte.
762

Regenerando

Equilibre-se minha cambembe carcaça...

De ti me libertar não pude, não posso e tento

Tentado no menino que de sempre e ainda,

Num jogo acriançado de birra e de graça,

Em seu bojo sorri e brinca arreliento.

Deste casulo que o pó dos anos encurva,

Despertar adolescente retorna à fantasia

E o licor adamantino brota da fonte turva;

Torrente primaveril à carquilha se mistura

E regenera a velha craca inerte, seca e dura.

552

O mar inteiro

Ei-lo com seu balanço obstinado

Que abraça a noite,torvo, sibilino,

Entregue à solidão do seu reinado

E do silencio da presença do divino.

 

Por liberdade tem o brilho matutino

E a fortuna de banhar a terra inteira

Acolhendo a foz dos rios que por destino

Dão-lhe o frescor dos véus da cachoeira

 

Do porto à pedra, da pedra à areia da areia ao porto,

Ele se perde, se encontra e se despede

E na distancia fluir se deixa, absorto,

Entre as algas e os corais que a cor lhe cede

 

Abandonando seu status de mar morto,

De mar aberto, mar revolto ou mar profundo

Se apequena e se desdobra a meu conforto

E em oceanos se divide pelo mundo.

 

Extasiado por seu pulsar ao sol fecundo,

Temperando corpo e alma com seu cheiro,

O coração não quer perder nenhum segundo

Pra pulsar c'a dimensão do mar inteiro
701

Dá de coração o coração

Mostra-te no amor o aceno parco
Postigo de espia tênue e breve...
Aeriforme, borboleteante - delicado,
Deixa inteiro que seu vôo o leve.
Dá-lhe de coração o coração,
Seja no iracundo torpor do medo,
Seja nos braços febris da emoção.
Enreda-te em seu arco com avidez,
A todo risco mergulha em seu condão,
Tinge na sua cor teus medos de lividez,
Não desposes por segura a pétrea solidão.


525

Quadras finais

O verbo em mim se esvai isso é verdade,
Desfalecido na fuligem do meu peito.
Engano ter-me crido um alvo eleito,
Sirênico sonho, ser do estro a raridade

Lança aguda - fere e fende a sanidade -
A vaidade, sutil madrinha do imperfeito,
Risonha e fácil insinuou-se em meu leito,
Vestal profana, por progênie a veleidade.

Esvai-se o vento e sem rumo meu adejo
Por sol esvoaça, adentra a noite, ao relento
E as certezas, a segurança e até o talento,
Já distantes, apagam os rastros de sobejo

O silencio que me veste o verbo inteiro,
Vem sem rosto, vem sem vulto e sem matiz
Do fracasso é talho vivo e é cicatriz
È a tristeza a libertar-me em seu viveiro

Porque dessa liberdade ser posseiro?
Pra que asas, quero longas, sem ter céu?
Silencia-se a ópera bufa ao meu te-déum;
Secam-se me as folhas, reaparece o canteiro!
610

Palavras vazias

Da luz perdeu-se o branco das palavras...
Desbotados, os gestos descidos delas,
Perderam-se igualmente da doçura
Desfeitos, insípidas gotas da verdade.

Da pagina, remota pagina, que perdura,
Sombras se confundem com as minhas
E o branco das palavras sobre as linhas
Decompõe-se em cores mortas e em rasura.
569

Re-lembranças

Reescrever linha a linha, velhas linhas,
Impressas na soleira da saudade
Permito-me, enfeitando a realidade,
De lembranças, estóicas, porem minhas.

Transmudar letra a letra em novas linhas,
Suprimindo as intrigas e a maldade,
O nó da nostalgia o peito invade,
Cingindo cepo a cepo antigas vinhas.

Vagando por memórias do passado,
Dissímiles, reencontro lado a lado,
O bem e o mal, num embate tão antigo.

Destarte, em findas telas presencio,
No ocaso o lusco fusco já tardio,
Colhendo o sol que ainda esta comigo.
585

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