Lista de Poemas
CALI [FILO] GRAMA - [Manoel Serrão]

Cali grama.
Cali etimo fragma.
Cali nu xeno anêmico.
Cali etno noso a fago.
Cali trama.
Cali da claquer o cálix.
Cali cine o logo da hoste.
Cali éter o anemo da gag.
Xeno sofo.
Xeno eco o cosmo.
Xeno oniro.
Xeno o filo Teo de andro e gino.
Xilo sema.
Xilo o gene e geo.
Xilo o xisto.
Xilo iso a fos e a tanas...
Ó Cali grama!
Cali O miso radical-grego que maceta os ossos.
Ó cali grama! Cali O caco carcinoma na testa do mito CEO.
Ó D'us? São-nos humanos?
Homens às duras penas acenando, vão-se no adeus!
Ó D'us? São-nos humanos?
Não o ícone necro objeto do ofício!
Ó "Há um mundo lá fora... Vidas... Bocas de comer com os olhos..."
Este é Manuel Serrão que Thomas Stearns Eliot deveria ter conhecido, se em carne e osso ainda aqui estivesse. Talvez reforçaria a sua frase ódica mais lembrada entre os poetas:
“Um clássico só pode aparecer quando uma civilização estiver madura, quando uma língua e uma literatura estiverem maduras; e deve constituir a obra de uma mente madura. E a importância dessa civilização e dessa língua, bem como a abrangência da mente do poeta individual, que proporcionam a universalidade. (...)”.
Pois é Sr. T.S. Eliot. Imagina a interlocução (às vezes, desproporcional) entre a linguagem de uma civilização madura e a abrangência da mente de um poeta como Manuel Serrão. Acrescento que até aqui, não houveram tsunamis destruidores; nem da linguagem, nem da lógica de Serrão, pois no fundo de toda essa extraordinária manipulação de palavras, há explícita linguagem humana de um mesmo poeta amante, maldizente ou querençoso. Se não, leiamos: “Cali grama. / Cali etimo fragma./ Cali nu xeno anêmico./ Cali etno noso a fago. (...) O miso radical-grego que maceta os ossos./ O caco carcinoma na testa do mito CEO. / Homens? Apenas homens./ Não o ícone necro objeto do ofício!/ Há um mundo lá fora... vidas... Bocas de comer com os olhos..."
Eis como vejo o trabalho incansável desse obreiro nascido nos idos de 1960, em São Luís do Maranhão, formado em Direito, no Recife, pela Universidade Federal de Pernambuco. Dito isso, cabe a mim, agora, e apenas, fazer meu, um dos versos mais aplaudidos de Horácio: “Carpe diem quam minimum credula póstero.”
Mhario Lincoln
Presidente da Academia Poética Brasileira
Curitiba, 14.02.2018
Mhario Lincoln é editor-sênior da www.revistapoeticabrasileira.com.br - Acredito eu que a POESIA e a Literatura especificamente, deveriam ter um tratamento mais razoável neste País chamado Brasil. Que não só os folhetins novelescos repetitivos e enfadonhos a se perpetuar, cada vez mais, no ilusório coletivo. A poesia deveria (como estamos tentando fazer em nossas publicações) ter um lugar especial. Por exemplo, Antonio Candido de Mello e Souza, sociólogo, literato e professor universitário brasileiro, estudioso da literatura brasileira e estrangeira, pensa igual: 'A literatura é pois um sistema vivo de obras, agindo umas sobre as outras e sobre os leitores; e só vive na medida em que estes a vivem...'. Então, se não há produção literária, não há leitores e não havendo leitores, não sobrevive, por si só, a literatura.(...)" #domeulivro ML
Mhario Lincoln é editor-sênior da www.revistapoeticabrasileira.com.br

VÍCIO [Manoel Serrão]

O meu amor
tem sempre um vício:
As vezes reclama do conforto;
Outras, conforta
o egoísmo.
ANEL D’ÂMBAR [Manoel Serrão]

Louv'v 'stá núbil,
‘Stá “Loba” ‘stá úbere.
Lou’v ‘ste útero de fecundado amor,
Lou’v en... Lou’v en teu belo!
Ó lou'v! Lou'v en 'stá sorte!
Lou'v en 'stá serônia chuva.
'Stá serena orvalha, brisa do zéfiro.
'Stá mirra o aroma-rosa o coração fraterno. Lou'v en d’alcácer a libélula ‘alcanfor a mais bela!
Lou’v ‘stá ófris ‘stá "Fleur”.
Lou’v ‘stá croma lis buquê d’cor.
Lou’v en 'stá paz.
Lou’v en teu belo!
Ó Lou'v! Lou'v en 'ste amido.
Lou'v en 'stá madura semente o grão.
'Ste sal no cio do chão.
'Ste néctar humus do Nilo régio.
Lou'v 'stá colheita do afã, ânfora d’farto grão.
Lou’v ‘stá Isis ‘stá flama ‘stá íris.
Lou’v en d’amimo a alma sem dor.
Lou’v en o luau que a ti espero.
Lou’v en teu belo desejo sonhador!
Ó lou'v! Lou'v en 'sta lira.
Lou'v en 'ste delibado, o tear do coser, o libar.
'Ste elo infinito desejo sonhador.
'Stá prenda gêmea de junho.
Lou'v en aprus das d’águas de aço.
Lou’v ‘stá Déia ‘stá Osíris a que tudo possui.
Lou’v ‘stá glória Atenas do Olimpo.
Lou’v en 'ste amoroso louvor.
Lou’v en teu belo humor!
Ó Lou 'v! Lou'v en 'ste encanto quebranto.
Lou'v en 'stá Boda de Canaã 'ste amor.
'Stá dádiva a glória múltipla a melena.
'Stá núpcia, 'ste porto-marina, 'stá Luz.
Lou’v en o adejo dos colibris pelo céu beija-flor!
Ó lou'v en 'ste soer d'áurea amena, lou’v!
It’s a miracle? Ó D'us... Ó D'us... Ó D'us...
Lou’v en teu belo! Lou'v en! Mas dade-mh-a
O elo teu eterno anel d’alindado âmbar.
Ó lou'v en teu belo, belo, belo o Amor!
BALA ABALA [Manoel Serrão]
Bala à bala?
Bala é Bala!
Bala não cala bala.
Bala bate.
Bala abala.
Bala abate!
Bala à bala?
Bala obus cala.
Bala "trem bala" passa...
Bala doce acalma.
Bala... Bala... Bala traçada basta?..
Bala [ , ] para que te quero? Bala!
MESSIÂNICA [Manoel Serrão]




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Ó tivéssemos! Tivéssemos... Inda tivéssemos as epopeias homéricas – a ilíada e a Odisseia – a visão olímpica da existência, a expressão do deus Apolo de Delfos. Tivéssemos o modos respeito à efígie, o sujeito ético não objeto, a "justa medida" – a valorativa proporção em comedida porção por todas as fases da vida.
Ó tivéssemos! Inda tivéssemos... Tivéssemos a sertaneja epopeia – a saga d’a Pedra do Reino -, a visão dual sobrenatural, a expressão de Dom Pedro-Quaderna. Ó tivéssemos o modus sublime de olhar por meio da imago o universo popular. Tivéssemos os dois rochedos a sangue humano regados. Tivéssemos os fiéis sacrificados feito todos poderosos imortais ressuscitados. Ó tivéssemos!
Ó tivéssemos! Tivéssemos... Ó tivéssemos salvos os povos das florestas; Anastácias, Dandaras das cafuas, Luíses da Gama e os Zumbis da escravidão. Ó tivéssemos a dessedenta do Nordeste: a sebastiânica redenção. Tivéssemos dado cabo aos filhos da servidão. Tivéssemos as Cabras da Peste, o Rei do Cangaço -, Virgulino Lampião à sua imagem e semelhança. Ó sim sinhô! Tivéssemos Catulos, Vitalinos, Machados e Suassunas. Tivéssemos Joões do Vale, Patativas, Lobatos, Amados e Brennand's. Tivéssemos Montelos, Sousândrades, Gullas, Nauros e Gonzagões! Ó inda tivéssimos!!
Ó tivéssemos! Tivéssemos... Inda tivéssemos o drástico da tese; a cura pura para a incúria da peste; a norma culta menos culta distraida informal; o oblio obus para os corruptos e perversos! Tivéssemos o perplexo insano, os dês perfeitos, o imorredouro perpétuo!
Tivéssemos o hard, o soft, o bew: a Santíssima Trindade. O homo-cyber ultor urdindo a IA
que ‘stá por chegar. Ó sic? Tivéssemos!
Tivéssemos inda do artista o autismo! O toc sem pânico do bipolar: o sorrir no chorar, um prazer sem gozar no prozac e na eurritmia um cantar. O saber sem lugar inda por não saber o ser criar e d’arte: o recriar. Ó tivéssemos além das inquietudes e desgraças, de novo encenar em cada poema a intimidade do eterno nascer. A liberta da carne reinventar no pó o homo do barro.
Ó Tivéssemos! Tivéssemos Moisés... Francisco... Ratzinger... Tivéssemos Lutero... Agostinho... D. Helder e Mallarmé .
Tivéssemos Os “5 Solas” recristianizados. Pedro à Cristo jamais por três vezes negado. Tivéssemos mil vezes Deos a Enoc arrebatado. O clero de indulgências afogado. Tivéssemos dos profetas os dízimos exorcizados.
Tivéssemos O absurdo, a reponta, a eutimia. O absoluto em estado gasoso e todos os demais [sãos] relativos sonhando acordado. Ó Tivéssemos! Tivéssemos no Ser-ser existir os molambos dês feitos os farrapos...
Ó Tivéssemos no mundo que se enuncia na ordem social a consolidação da harmonia, o Bem para os códigos da justiça. Um lugar onde nenhuma importância a cor da pele nem do arco-íris tristeza tivesse, só alegria! Tivéssemos como os homens da Hélade as prédicas apolíneas: "Nada em excesso" e "Conhece-te a ti mesmo": Ó "Reconhece que não és um deus". Tivéssemos!!
Ó tivéssemos o Caos, os infinitos maiores do que outros e o reencontro do ser sem o consumo desejado que habita e modela o sonho. Tivéssemos! Tivéssemos o chilrear matinal dos pássaros; o arrulhat dos pombos toda a verdade e dos lábios o oscular sem mentir um calar. Ó inda tivéssemos dos Djins o encanto e o quebranto mais benfazejo!
Ah! Tivéssemos cultivado os afetos quão os DÊScomportados por todos abraçados. Tivéssemos DESobedecido as comunas -, até Cuba, Deus meu, até Cuba! E a fúria incontida do capital sujo. Tivéssemos! Tivéssemos o após sem podê-los usar contra todos buscando a quem devorar. Ó tivéssemos descartado a dúvida convertida em dívida quão a conveniência do descartesianismo -, o descogito: não penso - desconheço -, logo existo.
Tivéssemos! Tivéssemos o hoje antes dos gatos tiranos quão o depois do amanhã sem os ratos imundos, tivéssemos! Ó Tivéssemos O politicamente INcorreto, jamais o polido fascista tatuado a ferro.
Ó tivéssemos onde o Mundo passa o AMOR peregrino por todos os caminhos... Ó se ainda tivéssemos...
* IA [inteligência artificial]
O MITO DA SECA [Manoel Serrão]
Na sesma o sol estia, torra, tisna, estila, assola, opila, recrudesce o árido.
Seca a lavra, a sebe, a parelha, o estipe, a húmus, o barro e dissipa a mata.
Na sesma o sol na pedra lasca, o esterco seca, o calhau e na tapera resseca a palha.
Na sesma o sol cego, ceifa a gleba, o perau, queima a roça tocada a fogo pela “coivara”. Seca a bilha, roga a fé, reza a novena, ferra a boca, cala o berro, arrebenta a fome e estorrica a couraça.
Na sesma o sol subjaz do cacto o espinho do mandacaru a flor, e na serra o poial quebrar-se racha.
No latifúndio a chuva abunda, rega d'água o cio o grão que semeia o pasto.
É gota "santa" que faz dar a benta ração para a engorda no curral ao rebanho castro.
No latifúndio a bátega é dádiva que aduba a fécula para o festo lauto do repasto farto.
No latifúndio o dilúvio farta o clã, o feudo e do vil metal a fecunda para o jugo imposto da prata.
É dominus secular imperado pelo grão-senhor da terra; o feudatário que berra: "O Estado aqui sou Eu!”.
No latifúndio a “joia da coroa” é dote "podre" sem igualha, dívida imoral que ceva em saca o silo da safra,
Engorda a díade do amo oligarca, sacia a corte e o legado primitivo da casta.
Na sesma o sol flagela, impõe a dor, o martírio, o claustro, e na caatinga adusta do ser a honra, impõe a penúria, ceifa vidas, ceifa sonhos e amordaça o homem sem Pátria.
São nó e laço que cata e apeia o peão no passo. Cala o berrante, o aboio, e faz Asa Branca adejar sem grão um piar sem graça.
Na sesma o sol faz do pau Ipê cipó cavo sem polirrizo, das folhas restolho que enxameia a terra, e de toda a porção rasa sem chão mão-de-obra escrava.
Na sesma o sol a pino pune na canga - cruz - que pesa como purga à rês do canzil,
Divisa entre cancelas vidas secas tangendo para o êxodo o homem “invisível” retirante sem terras, Ó desterra-o!
Na sesma, a seca é cão sem braço nefasto que mata a soco de côvado sem abraço, e a golpe de língua a morte chega de antevéspera, e anuncia-se!
Na sesma o sol da sexta parte é martírio do corpo e d'alma que descarna da pele os ossos e da "grei" miúda a nervura até que no juízo final o separe, jaz na cova e acaba!
E eis, que entre.
Pedras e cactos.
Destinos e sorte.
Entre
O pó e a cal.
O sol e o sal.
Entre
A luta e a fome;
O martírio e a sede;
O sacrifício e a fome;
A bravura e a sede.
Entre
A servidão e a fome de uma raça qu’inda não receberam da Vida senão a dor, e os restos de migalhas...
Na sexta parte onde a forca da fome demora, o destino é a morte.·.
Imagem: Tela Retirantes Nordestinos - Vidas Secas - Cândido Portinari.
Comentários (1)
Parabéns por seus textos e seus poemas, meu caro Manoel Serrão. Poesia é, como disse o grande poeta Octávio Paz, salvação e nós dois seremos salvos por ela, assim como todo aquele que faça da beleza o único pão para sua alma. Tenho igual honra em te-lo como leitor. Um forte e cordial abraço.
