Lista de Poemas
SOBRENOME [Manoel Serrão]

Por que inda vós queixeis?
Se lhe deu o Sol um nome,
E um sobrenome todo Poesia?
VOYEUR [Manoel Serrão]

Do quintal à copa,
Uma só porta.
Flerta o voyeur!
POETRIX: É constituído com no máximo 30 (trinta) sílabas métricas distribuídas em 03 (três) versos (terceto); dissidente dos haikais, de origem japonesa. Mas diferentemente do haikai, é exigível o título do poetrix, que não entra na contagem silábica e pode dá complementariedade ao texto.
ÁGUAS DE A-PRUS (ABRIL) [Manoel Serrão]

Águas mil...
Águas de aprus.
Águas de abril.
Águas de regar vidas.
Rios de curar sonhos.
Águas mil...
Águas de aprus.
Águas de abril.
Águas de cortar aço.
Rios de perdoar tudo.
DIVINA VÉSPER [Manoel Serrão]
Oh! Deia dos célios, sonho idílio, rubra luz de ingente encanto.Ó gesta que c’o corpo medra das nebulosas, silenciastes?
Vai-te! Sede a voz, dizeis a uma só palavra ao tempo doravante o tempo que podeis!
Por que as estrelas não duram para sempre? E o amor à chama que alimenta a vida não te fora a sorte?
Filha da Ursa Maior, quão Templário c’a anima e c’o esp’rito em guarda.
Pus-me em espera velada para não sedes sombras, nem das sombras do eclipse escravas.
Ó tu que és honra - Diva de humana casta - o mal de ti se arrede?
Sigo-te! Eu que a tenho drão, sei preciso tão os teus erros possíveis quantos são!
Vai-te! Prenuncia-nos em ode que se avista, à tarde, onde o omnipresente Sol se fez o nada ser vista um desertor.
Vês! No lar do eterno não há tempo urgente sem tempo contente para sorrir!
Ó de seda manto ou voiler, ó divina Vésper de pura veste, o que mais quereis na cera planetária por amor?
Vês! Onde ‘stás, concede-te! Ó Vênus, por dá cá nos aquele Eros pura, e o que de ti Urano nos dera, restou-nos? Não vês, o coração d’agora que outrora por ti sorrira, choram? E bem-te-quis, divina Véspe!
SENTIMENTOS [Manoel Serrão]

Como não te querer?
Diz-me: o que hei de fazer?
Sentimentos! Já bem sabes de mim.
Sabes tu a quem fala a minha canção.
Já não quis te querer.
Te mentir? Não ao meu coração,
Mas tu sabes de mim!
MINUANO [Manoel Serrão]

Fiel, e leal tu és
Como o vento minuano,
- frio e seco –, quando chega?
Derruba meio mundo!
CARCINOMA [Manoel Serrão]

Ora o perfeito sem defeito.
Ora o mais que perfeito a imperfeição.
Ora o mortal mais que defeito.
Ora o sujeito imortal a perfeição.
Ó imperfectível carcinoma?
Doentes não atingem metas!...
ANTINOMIA [Manoel Serrão]
Vejo avessa à gangue a tribo.
Vejo o “avir” do vezo aviso.
Vejo o vício, o viço, o ambíguo.
Vejo a Vogue, a Veja, a crise.
Vejo o VIP, a voile, o yuppie.
Vejo o vil, a van, o viso.
Vejo o surdo, a Vox, o mudo.
Vejo o véu, a urb. Um puzzle!!
Vejo o obus, o ópio, o óbolo.
Vejo o ódio, o óbito, o órfão.
Vejo o ócio, o óbvio, o óbice.
Vejo o ópio, o ágio, o opus.
Vejo o arbítrio, o abuso, o brigo.
Vejo o rito, o mito, o Sísifo.
Vejo a réstia, o injusto, o grito
Vejo o luxo, a vida acabar no lixo.
Vejo o lombo, o arrombo, o tombo.
Vejo o vômito, o soluçado, o pânico.
Vejo o vômer, o “esperto”, o tonto”.
Vejo o ranço, o ronco, o pranto.
Vejo o Papa, o Bispo, o dízimo.
Vejo a Toga, o antro, o cancro.
Vejo o Bem, o Mau, o “Santo”.
Vejo o Rapa, o Mala, o Banto.
Vejo O Pai, o “dolar” – O Nóia.
Vejo a senha, o “trovão”, a prova.
Vejo o tira, o canhão, a pólvora.
Vejo O "Boca", O berro, O Humano.
Vejo o PIB, o desemprego, o adorno.
Vejo o perjúrio, o corrupto, o furor.
Vejo o sonho, o engano, vejo a dor!
Vejo claros, vejo pardos e negros.
Vejo magros, caricatos e vermelhos.
Vejo o todo, vejo o tudo, vejo o nada...
Vejo que não há por detrás dos muros para os homens,
Outros planos! Ó desenganos... Desenganos...
ÉRATO & CALÍOPE [Manoel Serrão]

Por Zeus e Mnemósine, ó cria de Urano e Gaia!
Que me-a fizestes?
Que me-a fizestes, ó Calíope?
Que me-a fizestes, ó rainha da epópeia.
Ó Deusa da eloquência e da poesia épica, que me-a fizestes?
Por Zeus e Mnemósine, ó filha de Urano e Gaia!
Que me-a fizestes?
Que me-a fizestes, ó Érato?
Que me-a fizestes, ó musa da lira.
Ó Deusa dos hinos e da poesia lírica, que me-a fizestes?
Deos, que me-a fizestes?
Ó régia de encantar os afetos?
Ó “fleur” delibada de cortejados dons?
Que me-a fizestes?
Tomaste-me às mãos.
Tomaste-me o corpo e as vestes.
Tornaste-me a essência.
Tomaste-me do avesso o inverso.
Não vês que já de pé, se comprazem e se alegram os meus versos?
Não vês que já pulsão, guirlandas de flores adornam-me o coração?
E que pétalas de rosas atapetam a chã d’alma, entorpece-me?
Ó ditosa, tece e ama!
Como desejo onde tu ‘stás, e aqui, devora-me,
Um’ hora, por toda parte a querer-te anseio mais.
Amostrade-mh-a Eros que no céu, d’agora,
No-lo - ás cirros gris nem cerúleo de azul igual.
No-lo - ás decassílabos de versos brancos nem rimas pobres,
Tampouco pranto no imo dantes quão inelutável aguaçal.
Por Pausânias,
Amostrade-mh-a Eros?
Não vês que o arco-íris no porto cais da poesia já não chora a dor sem amor na vida.
Ó vernal primavera de reflorescer a verve.
Ó ambrósia de suster no regalo o verbo.
Ó pôr Deos, que me-a fizestes, ó musa?
Ó oceano aberto, mar sem fronteiras,
Contigo irei até onde navegarem as velas.
Ó que me-a fizestes, Deia?
Comentários (1)
Parabéns por seus textos e seus poemas, meu caro Manoel Serrão. Poesia é, como disse o grande poeta Octávio Paz, salvação e nós dois seremos salvos por ela, assim como todo aquele que faça da beleza o único pão para sua alma. Tenho igual honra em te-lo como leitor. Um forte e cordial abraço.
