Pesquisarei sempre as voltas que o tempo traz Qual sanfona de 120 baixos do Rei Luiz Do sertão desbravado pelos brancos e bravado pelos originários Como os Marcelinos dos açores a Timbaúba e Nova Iorque
Mas nem sempre são flores, há os que são cuspidos pelos seus E depois corrompidos de São Miguel a São José, ou corruptores E não se importam em separar filhos de pais, por dinheiro São nômades do sentimento alheiro, vivem de apagar memórias... E vendê-las
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COMO CALDO DE CANA
É assim na hora Feito caldo de cana Que o pistoleiro olha Mira E atira A flor De aço Sobre o peito inchaço Sobre a vida O cheiro do Jasmim O cheiro do meu vô Ah que flor Ai que dor Sob minhas lágrimas Sob meus pés Sobre minha Estela E que amor Guia-me Sempre Em busca do meu passado Das minhas glórias ancestrais Da princesa Maria Do rei Constantino Do patrono José do Livramento Ah vidas passadas Ai amores passados Ai paixões futuras Terrenas e santas Como o deus da lua
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APESAR DE TI
Mesmo com toda desilusão Por todo mal que fora feito Não me verás sucumbir a tua desonra Nem após ser praticada toda traição
Vou voar sobre teu desprezo Ser amigo terno e incondicional aos meus O mundo tem muito mais do que mereço Guarde teu sorriso torpe àqueles seus
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O PRIMOGÊNITO
Do prato do samba Nasceu o menino Teorizando a Física E a fé do candomblé
A graça e honra de vir de Canô Zeca, Dédé, toda àquela família real Além do poeta que construiu o mundo em versos O vi em shows cuja ternura nos colocava na família
Elogios, desnecessários, Carinho e amor por toda sua árvore genealógica de Araçá Sabendo-o cidadão do mundo Mas que o Brasil todo é um só
Nossa luta através da poesia, da cortesia, e da simplicidade A insustentável lindeza do ser How beautiful could a being be.
*Dedicado ao meu irmão em admiração Moreno veloso.
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REI NANÁ [Homenagem a Naná Vasconcelos]
O maestro dos tambores do nosso carnaval O mestre do batuque O dono do som das ondas do mar O timoneiro do navio negreiro
Que trouxe o samba da Bahia a Pernambuco E depois ao Rio Já antes quando ele era Semba O espírito de Naná já tamborilava por aí
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HOMENAGEM À ARARA VERMELHA [para Cida Pedrosa]
Quando eu estava indo à forca Ela me ligou Desesperado lhe disse ao canto da boca Minha família me pegou
Mas ela sabia que eu não ia perder a cabeça -Tenha calma, meu querido, vai dar tudo certo. Então a inquisidora me inquiriu à força Interrogou-me sem ouvir um por cento
Sentenciou: Você está bem. vai ficar conosco Não tinha jeito era um tribunal de exceção Tirei a roupa do trabalho, entreguei, celular, carteira, rosto Mas mesmo triste, confiava na força daquela calma expressão
E no fim disse a douta: Você sabe que eu não deveria estar aqui Mas vou esperar tranquilo até sair Para vê-la: A arara vermelha
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O ÚLTIMO CARNAVAL
O carnalval da minha janela cega de onde vêm as fantasias donde vem o berro, a algazarra donde vem os beijos e as heresias Dois anos de mortos Dois anos de escuridão dois anos sem a alegria de Carlos Sem a safadeza gostosa de conceição Não, não, não, não O mundo não acabou Ou pelo menos, é o carnaval, o purgatório não, não não não não Não é o juízo final Se fosse não me apaixonaria por Natália Pode haver amor no inferno? Negra cor de ouro Leva meu coração pela Ribeira Vou atrás até chegar à prefeitura Emendou os beiços com uma loira E agora… é cana, é pau do índio É da cerveja 3 por 15 O que faço? Vou pra casa? Claro que não Não não não não Amor de carnaval não acaba em quatro dias Depois a encontro na subida de um bloco Tum maracatu, tum maracatu Tum maracatu, Tum maracatu Lá vem nossos ancestrais escravizados É a sua guerra, Tum maracatu O batuque é muito forte Domina até alemães, uma gringa gira, gira, Pomba gira, Pomba gira, Um carioca se atira no chão, O mestre o levanta, o ampara, Manda cuidarem dele Que logo depois levanta no embalo Tum maracatu, tum maracatu Portugueses boquiabertos, Com medo, mas não conseguem não entrar na dança Acompanham o ritmo, dois passos, mãos unidas pra cima Tum Maracatu, tum maracatu Agora estou louco por Daniela, Sou tímido, mas ao cruzar o olhar com o meu Danou-se, quase engoliu a minha boca, A paixão foi repentina, nunca vi um beijo desse Fomos para frente da Pitombeira Um samba dos diabos tava rolado Era impossível ficar parado Passava a escola Patusco Nossa senhora a cachaça subiu no quengo Virei passista, juntou gente Já tinha gente, junto multidão Que me levantou como campeão Foi bom mas Daniela sumiu Puta que pariu Começar tudo de novo
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COMO AQUELE QUE VIVEU PARA CONTAR E COMO AQUELE QUE VOLTOU PARA CANTAR
Como aquele que viveu para contar, e como aquele que voltou para cantar... Ele vivia, como cantou Dylan Sobre as águas Conquistando o pão pra ti
E dessa forma viveu seus áureos anos na terra Compartilhou peixes, pão e a verdade Entrecortou suas palavras como diamantes A sublime paixão pelo divino que há no humano
Porque ele aqui esteve para nos encantar com seu brilho Com sua distinção de cavaleiro celestial Quando destrinchava todas as emoções existentes Principalmente aquelas dos olhos de sua mãe
É a vida aqui também como lá Aqui no sertão a gente planta na terra seca e colhe frutos cheios de suor E ainda assim aquele o sertanejo é resiliente, forte, valente, sonhador e pensante Como os adivinhadores de Buíque – que eu conheci de uma forma tão mágica
Como me fizeram crescer e aprender a observar o mato como a UFPE não o fez. Os olhos claros daquela gente negra Era o povoado todo uma família Siqueira Não um latifúndio, sim um vilarejo de sítios
Como a poesia transcendente do nosso avô Luiz Gonzaga E lá no sertão da Zona da Mata Norte, de Marcelinos de Lima e Constantinos da Silva
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O MARACAIBO
Em Maracaibo ficas E aqui mareio eu No luar alguma carta foi transcrita E no mar as contas dos teus olhos caíram
A superfície do sol fica azul Toda vez que te mostras a mim E o mundo sul ou norte Enfim, o tudo em mim
Clareia então o horizonte E a margem do rio Capibaribe se transfere pra ti E suas luzes trafegam pelas noites da Venezuela E ficam nossos bêbados poetas à cegueira
Enquanto as gôndolas se aglomeram em Veneza A nossa Veneza do Brasil ficava triste Por não ter por aqui teu ventre à mostra E assim te digo em prosa:
Não feche seus olhos nem o sorriso E assim fique sempre feliz E não se preocupe com o pobre poeta Pois este vive por viver e por isso é feliz
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BRASILEIRO DE GEMA E RAIZ
Eu vim nas caravelas e negreiros E estava na praia avistando as velas Habitava a mata, a caatinga e o cerrado.
Troquei a liberdade por espelhos Também comi o padre Sardinha Aprendi e ensinei a catequese
Plantei e queimei a doce cana Melava os dedos no melaço e a cara de aguardente Conhecia de tudo que fosse Manihot Beiju, beijo, beijei, lambi, me fartei
Então não se atreva dizer para não cantar Não beber a jurema Nem pra não adorar o ouricuri Nem chorar meus mortos E queimar-lhes os corpos Para depois comermos as cinzas