Lista de Poemas

TURBILHÃO

Escurece o dia na terra,
flutuem ondas no céu,
Acena o verde na serra,
O vento traz armas de guerra,
E o mar enfureceu.

Ouviu-se pranto e lamúria,
Aflição e desespero,
Solidão em pedra dura,
Tão longe na mente s' afigura,
Turbilhão em destempero.

Arrasta tudo o qu' apanha,
Tresloucado a fulminar,
Carros, casas em águas idas,
Multidões num sufoco, desvalidas,
Contra o vento a devastar.

Desvanece tudo ao redor,
Não há luz a iluminar,
Escasseia o pouco alimento,
Rodopia, leva-o o vento,
Pelas ruas a boiar.

Animais numa agonia,
Enleados, esfarrapados,
Tanta agitação, emergência,
Luta-se pela sobrevivência,
Avistar apavorado.

08-09-2017 Maria Antonieta Matos
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ALENTEJO JANELA ABERTA

Alentejo janela aberta,
De largos e soltos horizontes,
Onde a beleza ressalta,
O sol ardente tudo abrasa,
Povoam de branco os montes.

A luz clara, o azul do céu,
O passeio dos passarinhos,
Tantos cânticos, asas ao léu,
O esplendor que adormeceu,
O sonho a vaguear caminho.

Alentejo de tradições,
De "estórias" inolvidáveis,
De poemas e canções,
De música nos corações,
De gente linda e amáveis,

Alentejo dourado mar,
Espera-te a lua cheia,
Ao lusco-fusco a bailar,
espreitando a namorar,
Os amores na sua teia.

Maria Antonieta Matos, 19-07-2017
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GRITO

Cessem de se empolgarem dos feitos

Numa sonância sublime enganadora

Que a mentira se desfaz por conceitos

Que tarde ou cedo, se afirma reveladora

 

Gracejem lá do alto com olhares cegos

Em comunhão na zombaria gloriosos

Acostumai-vos a sugar todos os servos

Com estranhos jeitos miraculosos

 

Deitem abaixo um país erguido

Que o presente e futuro vê protegido

Arrependam-se amanhã que já tarda

 

Deitem-lhe fogo que depois de já ardido

O generoso ânimo bem-sucedido

Fraqueja, temeroso, mas não resta nada


11-10-2013 Maria Antonieta Matos
In "Poesia Sem Gavetas III"

2 973

AMIGOS

Tenho um jardim de flores

Perfumando o meu dia-a-dia

Enfeitado com lindas cores

Enchendo-me de alegria!


Maria Antonieta Matos 27-08-2012

3 104

O MAR

Gostava de ter nascido

Perto dessa imensidão

Nunca teria sentido

Um só minuto, solidão

Me deitava na areia

Ondas me vinham tapar

Olhava à noite as estrelas

Ficava sempre a sonhar

Com os peixinhos brincava

Conversava com a lua

O sonho me aconchegava

Meu amor, seria tua


03-09-2012 Maria Antonieta Matos


2 871

FIZ UMA ATERRAGEM NUM CAMPO SELVAGEM

Fiz uma aterragem

Num campo selvagem

Encontrei a cegonha

No ninho deitada

Com os seus filhos

Numa matraqueada

 

Encontrei o macaco

Nas árvores a baloiçar

E dentro de um buraco

A cobra a sonhar

 

A pastar a vaca

O pasto fresquinho

E em cima da fraca

Estava um passarinho

 

Entretida a ver

Os cisnes no lago

Sem me aperceber

Senti um afago

Beijou-me o macaco

Depois deu um salto

Um salto tão alto

Fiquei em sobressalto

Que me arrepiei

Se caísse em falso

 

Muito descontraída

Por entre os sobreiros

Dormi protegida

Sob os seus sombreiros

 

Depois do descanso

Vi o pónei manso

O camelo e a zebra

Olhando uma lesma

Fugindo indefesa

Escondeu-se no solo

E vi o canguru

Com o filho ao colo

Gritei-lhe cucu

E piscou-me o olho

 

Passava o Chital

Com ar elegante

Arfava, arfava

E parou um instante

 

Entretanto o Gamo

Com o corno entalado

Num grande ramo

Ficou rodeado

De gente a mirar

Mas muito concentrado

Conseguiu-se soltar

 

Passava o perú

Com leque elegante

Arrufava, arrufava

E parou um instante

Entretanto a fraca

Com linda casaca

Desfila aprumada

E ficou cercada

De público a olhar

Seu trajo invulgar

 

Num silêncio absoluto

E a pestanejar

O crocodilo, muito astuto

Põe-se a rastejar

Ali a tartaruga

Virando a cabeça

Saía a espreitar

Fazendo das suas

Para mergulhar

 

Grande desafio

Saltando e brincando

Cabras num redopio

As folhas trincando

 

De olhos fechados, a avestruz

Voava e sonhava

Não viu onde estava

E truz catrapus

 

Espantou o papagaio

Pousado no chão

E grita sabichão,

A olhar de soslaio

Ai, ai que eu desmaio

 

No prado a ovelha

Branquinha de neve

Coça a orelha

Por causa da guedelha

Tão enroladinha

Saiu uma bolinha

Muito bem feitinha

 

Despistado o porco-espinho

Que corria sozinho

Fez um alvoroço

Ao bater com o focinho

No pé da azinheira

Entretém-se a comer

Com grande cegueira

Nem dá por chover

 

De orelha fitada

Observando tudo

A lebre revirada

Com o olho num canudo

E a cria a mamar

A puxar pela teta

Não pára de brincar

Parece uma vedeta

 

Faço um intervalo

E fico a ressonar

Surpreende-me o galo

A cantarolar

Mas que belo canto

Para eu acordar

Um tenor, um espanto

Para harmonizar

 

Nesta fantasia

Estão belas chitas

E tenho a primazia

De ver as mais bonitas

Vejo lamas na cama

Com pijama às listas

 

A passear o elande

Com muito aparato

É deveras grande

Mas não parte um prato

 

Lémures fantasiados

Macacos a macaquear

E se forem bem mirados

Canguru parecem achar

 

Nandus desfilando

Numa linda passadeira

Com o pescoço girando

E o corpo à maneira

 

Ornamentados os Axis

Têm coroa avantajada

Quando estão a namorar

Por um triz, ai por um triz

Não fica a coroa engatada

 

Cervicapras cabriolas

Com feitio engraçado

Saltam e pulam no montado

Em jeito de sapateado

 

No final toca orquestra

E há muita animação

A burrica é a maestra

Ouve-se grande ovação

E eu acordei do sonho

A cantar uma canção

 

No campo Selvagem

Prima a natureza

Faz uma viagem

Para ver a beleza

 

Caminhando desprendido

Envolvendo os sentidos

Os sons e os cheiros,

O ver e o tocar

Animais protegidos

 

Convivendo com a natureza

Saltitando aqui e ali

Esta visita é com certeza

Um momento muito feliz

 

Vamos ver os animais

Ao parque do campo Selvagem

Conhecê-los por demais

Como brincam e o que fazem

 

Olha ali, o lindo Pavão

Com seu leque colorido

Come os bichinhos no chão

E é muito atrevido

 

Olha as cabritas anãs

Tão divertidas que estão

Brincam com as suas irmãs

Fazem muita confusão

 

Ciumento com sua dama

Com beleza a cortejar

Ecoa com muita chama

Dia e noite sem parar

 

Convivendo com a natureza

Ao ar livre e muito feliz

Passeando com certeza

Por aqui e por ali

 

O Perú todo enrufado

Abre o leque gracioso

Na quintinha destacado

Por se mostrar tão airoso

 

Maria Antonieta Matos 07-12-2011

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Injustiça

Injustiça ao nascer

O berço é desigual

Uns começam logo a sofrer

Sem ainda fazer mal


Ao crescer ainda criança

Anda a pedir para comer

Explorado pela ganância

Sem o adulto nada fazer


Ao brincar é discriminado

Por ser pobre ou diferente

Sempre a ser injustiçado

De uma forma indecente


Em adulto suas qualidades

São de importância menor

No meio de falsidades

É escravo cheio desamor


Quantos se dizem ser amigos

Para o outro cativar

Cheios de muitos sorrisos

E a faca estão a cravar


O fraco sem grande margem

Para se poder manobrar

É sufocado pela ordem

Dum que o queira desgastar


Na justiça se não tiver bens

Que o possam absolver

Culpado fica refém

Sem ninguém para o proteger


O poder é perverso

Subjuga o subordinado

Que faz tudo que é complexo

Com muito pouco ordenado


Com todos os trocos contados

A saúde não é prioritária

Doentes andam esforçados

Numa inexistência diária


O carimbo que se aplica

A qualquer pessoa de bem

Só por má-fé se justifica

E quem não quer ver, também


Maltratar um idoso

Ou pessoa pela cor

Absolver um criminoso

É injusto seja onde for


07-11-2012 Maria Antonieta Matos

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SOU MUNDO NUMA JANELA ABERTA

Sou mundo numa janela aberta,
respirando mares que nunca vi,
onde o vento me toca e desperta,
os sonhos guardados dentro de mim.

Sou estrada de passos invisíveis,
sou ponte lançada sobre o ar,
um mapa de rotas impossíveis
que só o coração sabe traçar.

Sou voz de manhã e de horizonte,
sou luz que dança na cortina,
sou montanha, sou rio, sou fonte,
sou a viagem que nunca termina.

E mesmo que o corpo permaneça,
o olhar atravessa o mar e a serra —
sou mundo numa janela que começa
a caber inteira dentro da terra.

Maria Antonieta Matos

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SOMOS ESTRANHOS

Somos estranhos na casa tão cheia,
Cada qual guarda o silêncio em capela,
E da janela, o vento nos incendeia,
Levando beijos à noite mais bela.

O riso ecoa, mas logo se rareia,
Sombra discreta em cortina singela,
E a saudade que o peito semeia
Cresce e se perde na lua amarela.

Mas, se distantes, os corpos se calam,
Nos corações ainda há centelha,
Chamas ocultas que nunca se apagam.

E nesta casa, que o tempo aconselha,
Mesmo estranhos, os sonhos se embalam:
Beijos voando de cada janela.
Maria Antonita Matos

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Meus olhos falam

Os meus olhos, de amor calado,

No brilho suave a chama se revela,

É lume terno, doce e delicado,

Que em cada olhar mais fundo se modela.

 

Na sombra oculta um gesto apaixonado,

Que o coração em segredo atrela,

E quando em ti repousa enamorado,

A alma inteira em silêncio se desvela.

 

Se a voz me falta, o olhar me denuncia, 

Pois nele mora a essência do sentir,

A chama pura, a luz que não se esfria.

 

E mesmo quando o tempo me fugir,

No espelho eterno dessa melodia,

Verás meus olhos sempre a te seguir.

Maria Antonieta Matos

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Comentários (2)

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namastibet

obrigado por me ler

Val
Val

Gostei , escreves bem :)

Maria Antonieta Rosado Mira Valentim de Matos - MARIA ANTONIETA MATOS, nasceu em 1949 em Terena, Concelho de Alandroal e reside em Évora, Alentejo, Portugal Aposentada da Função Pública
Editou o livro “ Visita à Aldeia da Terra” através de Edições Poejo, baseado e inspirado na Aldeia de esculturas em barro e cimento, sita em Arraiolos, livro de quadras e fotografias personalizadas na atividade e profissões da aldeia, apoiada pela junta de freguesia de Arraiolos. Fez apresentação do livro em escolas e Bibliotecas Municipais para crianças do jardim-de-infância, escola básica e séniores. Colabora em vários grupos de poesia e blogs.
Editou o livro "OLHARES RITMADOS - Nada Sou... Mais Do Que Eu", em 2022
Participação em Coletâneas: “Poetizar Monsaraz - Vol I” “Poetizar Monsaraz Vol II” “Nós Poetas Editamos V” “Nós Poetas Editamos VI” “Sentir D’um Poeta” “Eternamente Poeta” “Poesia sem Gavetas Parte III” “Poemário 2015” “Conto de Poetas Parte III” “Amor Eterno” \"Poemário 2016\" \"Apenas Saudade\" \" Fusão de Sentires\" \"Poemário 2017\" \"Mais Mulher\" \"Perdidamente II\" - Autores Edição - Pastelaria Studios Editora Grupo Múltiplas Histórias \"Sopro de Poesia\" - Autores Edição Orquídea Edições - Grupo Múltiplas Histórias \"Poesia a Cores\" - Pastelaria Studios Editora Grupo Múltiplas Histórias \"Dança das Palavras\" - Pastelaria Studios Editora \"Poesia com Reticências (...) - Pastelaria Studios Editora \"Poemário 2018\" - Pastelaria Studios \"Cascata de Palavras\" - Pastelaria Studios Editora \"Perdidamente Vol. III\" - Poem' Art - Grupo Literário Amigos - " Delírios de Verão"  - Delírios de Outono" "Poesia na Escola"  Verso & Prosa 

https://tradestories.pt/maria-matos/livro/visita-aldeia-da-terra