VAI-TE EMBORA 2020
Vai-te embora dois mil e vinte
Nem saudade vás deixar
Fiquei tão sozinha em casa
Sem poder ver a alvorada
No meu Alentejo, a raiar
Senti-me morrer de tristeza
Sem saber do que me escondia
Entretinha a minha mente
E via o confinar crescente
Na ânsia que em mim crescia
Deixei de olhar o vasto campo
Pleno de flores, de muitas cores
O céu do meu Alentejo
Que só da janela vejo
Sem brisa, cheiro e sabores
Para preencher o vazio
Inventei-me a cada momento
Para afugentar a peçonha
E a saudade tão medonha
Da família que amo tanto
Sabe-se lá quando a guerra acaba?
Quando nos voltamos a encontrar?
Se temos a mesma liberdade?
Se matamos toda a saudade?
Se nos voltamos a abraçar?
Há um receio deprimente
Se essa grade não se liberta
Do vírus que nos assola
Do amor que nem consola
Do toque que não desperta
Saudar o vasto horizonte
Do meu Alentejo tão lindo
O desejo que não dispenso
O sorriso… esse alento
Que tarda e está suspenso
Meu sol que vives ausente
No sentir da minha alma
Leva as mágoas para sempre
Deixa meu coração ciente
Que em breve tudo se acalma
Évora, 04/01/2021, Maria Antonieta Matos
A LUA
À tardinha-quando o sol se deita
Sai a lua a vigiar
Os tristes que andam na rua
E os amores pra namorar
Caminha por toda a noite
Carinhosa e conselheira
E sempre os amores provoca
Para alarve brincadeira
Conversa sorri contente
Se esconde pra nos espreitar
Para que sintam saudades
Desse seu iluminar
Tem tamanha maroteira
Na forma de s’ enfeitiçar
Que surge bela e formosa
E espelha-se nas águas do mar
Caindo na sua lindeza
A chama dos seus amores
Valsa ardendo em desejo
Num âmago de sonho e fervor
Misteriosa e confidente
Traz ao colo a existência
Anuncia a sua sorte
Guia a morte e a inocência
As estrelas são suas aliadas
Enfeitando o firmamento
Entre luzes e risadas
Dos que sonham o momento
Num leito em braços de amor
Suspiram perfume da rosa
A vida ganha outra cor
Nesse alvorecer cor-de-rosa
Maria Antonieta Matos 16-07-2019
VI VOAR UMA BORBOLETA
Vi voar uma borboleta,
De flor em flor no jardim,
Tão bela, colorida, de orla preta,
Dançando as asas sem fim.
Estava reinando feliz
No seu mundo glorioso,
Respirando olor da Liz,
Pousando um ar curioso.
Num sol muito iluminado,
Mais a cor resplandecia,
Nos meus olhos regalados.
Beijava a flor saciada,
E nessa quietude morria,
Dessa essência inebriada.
17-06-2020 Maria Antonieta Matos
TUDO NEGA O BICHO INQUIETO
Voltaria a sonhar o sonho,
Onde as asas me levavam,
Livres com ar tão risonho,
Que de alegria choravam,
Mas não viam tal tamanho
O horizonte se mostrava,
De par em par tão ardente,
Que faminta me espraiava,
Nesse olhar confidente,
E ao seu colo desmaiava.
Voltaria a sonhar o sonho,
Que sonhei e foi tão breve,
Neste abrigo vazio tristonho,
Pelo acordar se descreve,
Mas com garras me oponho.
Voltaria a andar na rua,
Sem disfarces que sustento,
Caminhando de fronte nua,
A roçar-me ao doce vento,
E às escondidas com a lua.
Voltariam os afetos,
A reunião alargada,
A existência dos netos,
Que nesta vida parada,
Tudo nega o “bicho” inquieto.
Évora, 16-05-2020 – Maria Antonieta Matos
LONGE DE TODOS…
Longe de todos são trevas que percorro
Nesta prisão que augura segurança!
Sonho-me perdida no tempo
Em que escuto as flores a chegar,
e meus olhos não podem venerar,
Minh’ alma não colhe esse alento
Meus ouvidos são gritos, silêncios
A cada passo lasso de momentos,
Contemplo o sol, a lua, os passarinhos
Que veem até mim, e não posso tocar,
Meus olhos descalços peregrinos
Caminham doces e errantes
Pelas ruas desertas, sozinhos,
A chuva canta-me baixinho
Saúda-me na minha janela
As árvores acenam-me sorrindo
E o vento abraça-me rugindo
Aquecendo a minha cela.
Os dias choram de ansiedade
No coração de cada habitante
Neste planeta de desigualdades.
O medo abrasa o pensamento
Hospitais saturam de doença
Mortes e tanto desalento
Alertando as consciências.
Falta-me o abraço… o beijo caloroso
O carinho, o toque de cada um que amo
Falta-me esse olhar tão gracioso
A reunião à mesa cheia de cor
Que neste tempo tanto clamo.
Maria Antonieta Matos 02-04-2020
A PANDEMIA – COVID19
Ai …! O mundo no mesmo barco
Num balançar que dá medo
Sozinhos sem um abraço
Que nos conforte tão cedo
Um pavor do invisível
Um confronto sem igual
A um vírus destemido
Tão diferente do habitual
Não escolhe pobres, nem ricos
Nem local, nem País
Na terra, ar ou mar
Não escapa gente por aí …
Há uma união mundial
Com esporádica resistência
Que aos poucos tomam consciência
Do risco fenomenal
Todos se unem pr’ o combate
Ao surto que nos invadiu
Que dispara a cada instante
Com esforços como ninguém viu
Todo o mundo se debate
Para evitar a pandemia
Onde o sobre-humano é real
No universo de assimetrias
Sem carinho sem piedade
E sem dignidade gente pr’a cova
Sem um ai que nos comova
Sem a despedida que resolva
Num tempo de ambiguidade
Com receio uns dos outros
A distância é obrigatória
Para que o vírus não se pegue
E se propague sem demora
Calem-se as armas de guerra
Centrem-se em exterminar o monstro
Que cego em qualquer caminho
A qualquer vai ao encontro
A sanidade e a economia
Estão a par nesta desgraça
Que a humanidade não previa
E que a todos ultrapassa.
Na esperança que tudo passe
Outra alma se levanta
Atentos, mas confiantes
Que outro mundo vai renascer
Mais humano, mais solidário
Todos livres para crescer
Entretanto fique em casa
Não ponha em risco ninguém
Para o bem dos nossos guerreiros
Que nos protegem tão bem
24-03-2020 Maria Antonieta Matos
MIGRANTES
Veem de longe, de muito longe,
Pelo mar desconhecido,
Agitados, cheios de esperança,
Deslocam um punhado de nada,
Veem sofrendo nessa estrada,
Empilhados sem segurança,
Trazem os filhos, as mulheres grávidas,
Fogem da guerra, da triste ventura,
No peito uma agonia tão dura…
Sua reação serena e impávida.
A fome, o frio, a falta de amor os faz mais fortes,
A secura a doença, a morte não se lh’ figura,
Mas a ânsia de mudar essa amargura,
Supera tudo e almejam toda a sorte.
No desconhecido o sonho perdura,
A saudade corre-lhe nas veias,
Carregam a história da terra, da sua aldeia,
Um desejo breve que só o tempo cura.
Muitos não conseguem experimentar o sonho,
As ondas agitam bravas a embarcação,
O medo e o cansaço lhe cria ilusão,
E apaga-se a vida num grito medonho.
Outros o seu olhar encontra outro caminho,
Às vezes tão sinuoso, íngreme e escorregadio,
Mas não desistem sempre em frente, por um fio,
Resistindo e desafiando cada etapa do seu destino.
14-12-2019 Maria Antonieta Matos
LÁGRIMAS CAEM DOS BEIRAIS
Lágrimas caem dos beirais
Em pranto as almas perdidas
Que voam aos tombos aos ais
No céu em longas corridas
Ilumina-se o céu e a terra
Ouvem-se estrondos tamanhos
Sai tristeza atrás da serra
Num véu escuro muito estranho
Mete medo o horizonte
Apagaram-se todos os sois
Ruge o vento no mudo monte
Surge um perfume no ar
Da terra molhada guiam faróis
Os pequenos barcos a navegar
13-11-2019 Maria Antonieta Matos
BRILHO DOS OLHOS…
Quando o brilho dos olhos meus,
Comunicam com os teus,
Agitam-se mil sensações,
Enternecem o desejo,
o sabor dum doce beijo,
Um pulsar de corações,
Envolve a cumplicidade,
no puro amor de verdade.
Quando o brilho dos olhos meus,
Fitam de frente os teus,
Perco-me do mundo das normas,
Dou-te a alma e o coração,
Encho o peito de emoção,
Dedilhando as tuas formas.
Quando o brilho dos meus olhos,
Fita os teus olhos e me cega,
Sinto o sonho realizado,
E o tempo pára nessa entrega,
Abraço a alegria esse amor,
A explosão de tanta cor,
A felicidade que aconchega.
Quando o olhar acaricia,
Seja quem for neste mundo,
Esvai-se toda a melancolia,
Num semblante carrancudo.
12-12-2019 Maria Antonieta Matos
DIZEM GOSTAR DOS MEUS VERSOS
Dizem gostar dos meus versos
Penso ser pra m’ agradar
Porque ao lê-los na dor imersos
Muitas vezes fico a chorar
Falo o que vejo e o que sinto
E em mágoas ando perdida
No enredo d’ um labirinto
Onde a saída é proibida
Canto neles o que vai n’alma
As injustiças do mundo inteiro
Todo o podre que ninguém fala
Canto o sonho, o amor, a natureza
Revivo o meu beijo primeiro
E o coração exalta essa nobreza
12-11-2019 Maria Antonieta Matos