Sou um ser humano em constante construção. Me sinto parte da natureza e a ela vinculada no sentido material e imaterial. Gosto de lidar com as palavras construindo e desconstruindo castelos. Portanto, escrevo como um exercício de compreensão de mim e do mundo.
Sou um ser humano em constante construção. Me sinto parte da natureza e a ela vinculada no sentido material e imaterial. Gosto de lidar com as palavras construindo e desconstruindo castelos. Portanto, escrevo como um exercício de compreensão de mim e do mundo. Além de escrever e ler gosto de cinema, de música e de praticar jardinagem. Sou mãe e essa é uma experiência de vida que me fascina e desafia permanentemente. https://www.facebook.com/faatimarodrigues [email protected]
Escrever é sempre um ato litúrgico E cada um que crie o seu rito Comparo escrever com a feitura de biscoitos Escolho os ingredientes conforme o que me faz falta e misturo-os para sentir o sabor Por fim dou a forma Me apraz saborear o contéudo e ver a forma ! As vezes faço coraçõezinhos, quadradinhos, rolinhos, bolinhas Ao final brinco como criança ! Na escrita sigo a intuição Parto de uma palavra, de uma paisagem, de um cheiro As vezes há falta, as vezes há sobras e haja lapidação: tira de lá, põe de cá Nesse ínterim a imaginação vai longe Gosto é de brincar com a ideia enquanto visito lugares e pessoas Vejo céus estrelados e os mistérios do conto As mil e uma noites Vejo mares extensos Lembro até dos meus vestidos de laço na cintura e das festas da padroeira da minha infância Me vejo nas férias em Goiás Vozes a cruzar línguas e bocas a provar explosões de alegrias, risos das minhas crianças Escuto chuvas torrenciais e a famosa pergunta: "- Cadê o veranico de janeiro?" O cheiro morno de pão de queijo misturado com café enche a casa Coisas da Dona Maria ! Tudo isso me inspira na escrita e me faz recorrer à memoria, aos sons, letras e linguagens Os dicionários me auxiliam num percurso que vai do desejo ao dito. Um dia ainda saberei expressar com maestria esse oceano em que mergulho e que me encanta, mas que ao escrever nunca atravesso por inteiro. Sinto que essa aventura me traz ventura e por isso, com licença poética, afirmo: "navegar é preciso". Fátima Rodrigues Expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil. Em 30 de outubro de 2020.
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Nos labirintos da escrita e dos afetos (conto)
Naquele final de semana, março de 2014, em que ocorria Le Salon du Livre à Paris, entediado com a sua condição, o papel, a partir de um certo lugar, resolveu iniciar um diálogo com a caneta. Estava cansado da tirania daquela criatura que o utilizava na hora que desejava e que se postava a rascunhá-lo como bem queria, sem que indagasse sobre os seus desejos e sonhos. Achava absurdo que a caneta despejasse sobre si somente relatórios, prestação de contas, balanços e recados sem nenhum afeto. Essas marcas não o satisfaziam. Nunca sobrava à caneta um tempinho de nada para registrar em seu corpo um só verso, uma melodia, um haicai, ou, uma florzinha rabiscada. Com isso, o seu destino era sempre uma gaveta, um arquivo, a lixeira, ou a devolução para uma empresa de reciclagem, sem que houvesse nenhum gesto de carinho em seu corpo. Ficava pensando... e se fosse utilizado para imprimir uma tradução em Português das Cartas de Walter Benjamim, ou uma reedição da obra de Manoel de Barros? Quem sabe um livro de Simone de Beauvoir? E o que dizer de compor a obra do Saramago? Poderia viajar, participar de feiras, ter um lugar especial na biblioteca de alguém que zelasse por ele, que o levasse à sua cabeceira e que lhe fizesse companhia nas horas vagas. Ficava até pensando: e se virasse um caderninho de notas e fosse parar na escrivaninha de Ângela Davis? Poderia estar a contribuir na composição de uma obra humanitária! Ou quem sabe se não poderia compor um livro de Fernando Pessoa, e ir parar na biblioteca de Chico Buarque de Hollanda, que poderia manuseá-lo em busca de inspiração para a sua própria escrita?
Que sorte teria, se fosse um livro, para ter a possibilidade de acompanhar leitores e leitoras, pessoas sensíveis e portadoras desse sentimento ímpar de amor ao conhecimento e aos sentimentos do mundo. Ficou nessa digressão durante todo o final de semana, pensando em si, em suas razões e destino. Destino: substantivo masculino, trissílabo, palavra sonora, fardo que agora o comprimia. Sentia-se sem nenhuma importância naquele escritório sem vida, um lugar aprisionado por paredes cinzas, onde ácaros e poeiras sutis até lembravam o escritório de Wall Street onde trabalhou Bartlebly, o escrivão revolucionário de Herman Melville. Lembrava também da apatia do escriturário e, sobretudo, da sua rebeldia diante de afazeres tão repetitivos, ao responder às demandas do chefe com uma só frase: – “Prefiro não fazer”. Como suportava a caneta fazer sempre o mesmo tipo de escrita? Era final de semana. Iria aproveitar para planejar uma ação que ajudasse a mudar esse estado de coisas em sua vida. Na noite de sábado teve vários pesadelos. Primeiro sonhou com um incêndio de grandes proporções onde teve a sua vida ceifada. Virou cinzas e foi parar nos esgotos da cidade. Acordou suado e em pânico. Tomou chá para acalmar-se e voltar a dormir. Entretanto, novo pesadelo veio acordá-lo com um barulho ensurdecedor. No segundo pesadelo foi triturado por uma máquina que o transformou em pó prensado. Ainda assustado, ao acordar, pensou: a despeito das dores e da certeza da morte, nesse pesadelo teria direito a uma outra vida. Menos mal. Quem sabe ao voltar a uma nova condição de papel reciclado teria mais sorte? Mas, o pior de tudo era essa incerteza sobre seu destino. Persistia na mente a ideia de acolher em seu corpo romances, poesias, ilustrações e ganhar espaço numa estante de algum leitor ou leitora sensível, de preferência um escritor ou escritora. Acordou no domingo sob o efeito desses pesadelos e com a ideia fixa de dialogar com a caneta. Ensaiou, por todo aquele dia, palavras que criassem empatia no diálogo que dar-se-ia na segunda-feira. E, nesse dia, tão logo a caneta chegou ao escritório, cumprimentou-a efusivamente: - Bom dia, parceira!!! A caneta levantou a cabeça surpresa com o tom de intimidade, mas parou para escutá-lo e para retribuir, sem nenhum entusiasmo, o cumprimento. - Bom dia ! E o papel prosseguiu, de uma forma instigante: - Que tal conversarmos sobre o conteúdo da sua escrita? - Não entendi. Respondeu a caneta. - Falo sobre o que escreves, afinal sem papel teu trabalho não se realiza. A caneta respondeu disparada: - Você não é nada sutil, hein !? Que insulto! - Como se atreve a falar uma asneira dessas? - Você não sabe da existência das telas, onde se lê e escreve tal como se escreve no papel? - Nem sei porque ainda uso essas velharias de papel ? O papel respondeu calmamente, com uma voz melodiosa, mas sem espaço para contraposição: - Bem lembrado! Tenho em mente o papel e as telas. As telas significam, em parte, uma recriação da função do papel, embora nenhuma sociedade o tenha abolido completamente. - Com as telas ganhei mais funções e possibilidades. Existo como tela em diversas modalidades e ferramentas, mas continuo de grande utilidade na modalidade antiga. O papel, é um velho aliado das Ciências, das Artes e da Literatura. Desde a minha descoberta, após o papiro, sou um artigo muito importante. E, para selar a sua busca de parceria, ressaltou: - Você também é importante, e já passou por muitas transformações ao longo da História. Sabes disso, né? A caneta inquieta tergiversou: - Tela não é papel! E o papel retrucou: -Teclado também não é caneta, mas cumpre sina semelhante. - A caneta acrescentou: - Mas existe a caneta para se escrever nas telas... Impassível, mas fortalecido em suas decisões, o papel contra-argumentou: - O meu pensar não se põe sobre a forma, é sobre o conteúdo. Sendo papel ou tela estou a buscar um outro destino, fora dessa normatividade que é a essência dos relatórios e balanços. Não quero ir parar em lixeiras, ou em arquivos para meras consultas. Quero com a escrita estimular a imaginação, motivar a criação, proporcionar viagens. Ao escutar a caneta fez a seguinte proposta: - Que tal você fazer intervalos no trabalho e escrever poemas, compor músicas, crônicas, ensaios, cartas, ou escrever pelo menos bilhetes e pensamentos? A caneta respondeu impaciente: - Estás louco? Queres que eu perca o meu lugar? Me presto à escrita contábil, não me interessa essas asneiras de que falas. - Essas “asneiras” a que você se refere são alento, e verdadeiros bálsamos à alma. Retrucou o papel quase entristecido com tamanha positividade. Nesse momento, chegou a concordar com Byang-Chul Ham sobre a Sociedade do Cansaço e suas implicações. E ficou a refletir com nostalgia, ainda bem que existem papeis cumprindo com outras funções menos pragmáticas e mais poéticas do que as que ele próprio costuma reproduzir. A caneta pediu licença ao papel e recolheu-se a pensar. Gostava de escrever contas, não achava nada monótono construir dados, nem elaborar os relatórios ... Chegava mesmo a gostar de estabelecer e de cumprir metas. Fazia isso sempre! Era tão bom ver o papel cheinho de contas! Melhor será que ele nem saiba o quanto brinca com os números na cabeça, não no papel! Mas, agora estava sensível à demanda registrada pelo papel e sem dúvidas pelas telas que manuseava tão frequentemente. Como jamais havia pensado nas questões tão bem postas pelo companheiro de trabalho? Inclusive ficara sensível às suas dores quanto ao próprio destino. Ao pensar sobre o tema veio à sua mente uma indagação: - Então as canetas e os teclados também têm destino? Ao acionar os sentidos deu-se conta de que a sua escrita era conduzida por uma mão que a segurava e guiava firmemente. Agora estava ciente de que o seu destino dependia de um ser humano. Isso posto, não caberia a si nem ao papel as decisões sobre o que escrever. Precisava alertar o seu interlocutor para esses desígnios. Respirou fundo e pensou: Ah! Os labirintos da vida! Existem objetos e ferramentas tão importantes que podem cumprir com nobres funções, mas tudo esbarra na vontade e decisão dos seres humanos. Já o papel estava em sua versatilidade a pensar que não se trataria de abolir os relatórios, nem o manuseio de dados, tão necessários à explicação racional do mundo. A seu ver o que é imprescindível é ceder lugar à poesia. Mas isso não implica em banir da sociedade outros estilos de escrita e saberes. A mão que acionava a escrita levantou, finalmente, uma questão: - Por que não pensar sobre os Cavalcantis e os Cavalgados, e sobre as costuras do mundo em tempos de paz e de guerra? Afinal, quem comanda e quem é comandado? Que filosofia rege a vida de cada um de nós? Existe lugar para os desejos que em nós habitam? Dessa querela entre a caneta e o papel resta afirmar que ambas estão sob o jugo da escrita e não há prisões para a palavra quando o desejo de se expressar- é maior que o de calar-se. A palavra canta, voa e sangra. Ao bem ou ao mal do que se quer comunicar, como demonstrou o Marquês de Sade e prisioneiros políticos que também se valeram da escrita, em suas celas e exílios, ou mesmo sensíveis donas de casa a poetizar as suas vidas, há intenções ou no mínimo mensagens em toda escrita. Canetas e papeis falantes podem parecer desvarios ou alucinações urbanas, sofrências recalcadas das quais nem Kafka escapou. Mas não esqueçamos que pôr os objetos a falarem e até os narizes a andarem é coisa de quem escreve e isso ocorre em qualquer lugar do mundo.
Fátima Rodrigues
Versão publicada em 25/10/2020.
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A palavra e as descobertas do mundo
Severino seguia a pisar em sua própria sombra, circunstância que o projetava em direção ao zênite, palavra que ele acresceu ao seu vocabulário no dia anterior na escola onde estuda, num lugarejo denominado Jericó que segundo sua avó é nome bíblico. Sabia que ninguém acreditaria na coincidência de estar ele no dia seguinte a seguir sua sombra e sua sombra a segui-lo ou ao emparelhar-se a dita com ele, ainda que zênite tenha sido um assunto trabalhado, como já dito, por sua professora que chama também zênite de conteúdo junto com outras palavras que não entraram na cabeça de Severino por conta daquela estranheza vocabular tão distante do seu lugar, aonde se aprende mais com a vida do que com os livros.
Agora mesmo descobriu o zênite propriamente, horizonte bem distante que se desenha à sua frente. Caminha a esmo e ao seu lado uma sombra o segue lado a lado. A depender do horário essa sombra poderia estar em outra posição, entendimento que brotou em si por conta de uma ajuda que lhe deu o seu colega João Sem Medo quando falou das sombras que os acompanhavam na pelada, que não significa mulher nua, significa jogo de futebol sem juiz com regras frouxas, mais que isso diz-se de movimentos produzidos ao sabor da ginga do corpo, com no mínimo duas pessoas a improvisar e a divertir-se com a bola.
Lembrar-se da pelada o fez recordar-se das brincadeiras com a própria sombra quando jogava futebol de improviso com os amigos no tempo próprio do acontecer azimutal, expressão que criou com o uso do dicionário para no dia seguinte causar boa impressão à sua professora, atitude reprovada por terraplanistas, palavra que não tem nada a ver com trabalhadores que manejam máquinas ou instrumentos aplainando a terra para o plantio ou para outros fins práticos, diz respeito a ignorância de quem não estudou noções mínimas de Geografia e Astronomia e odeiam os que sabem situar-se num país imaginário e que em pleno século XXI acreditam que a terra é redonda porque na fotografia de certas paisagens do filme “O Céu de Suely” tem-se a impressão da existência de uma terra redonda e muito clara.
Lembrava agora Severino Silva dos Três Reis Magos que ele nem sabe porque são assim chamados, pois sendo eles reis deviam comer bem, o que não explica de modo algum a magreza de ninguém, mas o que interessa agora é que eles seguiam a Estrela- Guia, no que ele mesmo os imitava, não que siga a Estrela Guia, evento singular que deu origem ao Natal e ao nascimento de Cristo. Fala o adolescente de sua experiência ao seguir a lua, especialmente quando ilumina a terra nas tão famosas noites do sertão, e ao vagar acompanhando-a ou mesmo ao acompanhar o Cruzeiro do Sul, constelação que nos instiga “pelo sul” a indagar sobre a nossa latinidade em sua parca emergência.
E por falar em Cruzeiro do Sul como não citar Tonho Cavalcanti, um doido que residia nas redondezas, parente de Severino e de seus outros parentes que também seguia a lua, mas ninguém achava aquilo normal, todos achavam doidice, por isso ele, Severino, fazia às escondidas as suas caminhadas com a lua para evitar ser confundido com Tonho Cavalcanti. Não sabe ele se caminhar seguindo a lua ou o Cruzeiro do Sul é loucura ou não, de todo modo previne-se das más línguas, só não se previne é da sua consciência
O estranho dessa estória é que a gente de Jericó acha normal um camponês trabalhar o ano todo na terra do patrão e ser obrigado a pagar metade de tudo que colhe. Isso acontece naquele fim de mundo, mas acontecem também coisas semelhantes e até piores em outros lugares distantes, pois se até em Jerusalém há genocídio e conflitos por terra, imagina naquele mundinho onde quem manda até no delegado é o coronel. E isso a professora afirma que nada tem de errado uma vez que o coronel é também médico e o pai é procurador, a prima vice-prefeita e sua mulher é a prefeita e todas as ruas da cidade são nomeadas com três sobrenomes, os sobrenomes de três coronéis cuja trama familiar envolve matrimônios comuns. E por aí vai o elo inquebrantável.
Ao dar essa explicação a professora ficou sem fôlego, a palpitar e a suar assim como ficou quem aqui narrou num fôlego só essa história tão singular e cheia de delicadezas às vésperas do domingo, quando se recomenda fazer orações e não blasfêmias.
Desconfio que do outro lado do mundo, lugar que se amalgamou ao nosso país via navios negreiros, que chamam assim porque vinham repletos de negros e negras, também chamados negroides, mas que são na verdade pretos e pretas, e que essa é somente a cor de uma etnia, cor diferente do branco e do amarelo, cor como qualquer outra visto que não existe uma só cor de pele no mundo, lá também o zênite, assim como a história de reis e de rainhas são marcadas por incompreensões nos conteúdos escolares, mas são explicadas às crianças e aos jovens de outro jeito, como histórias de sombras, de assombração e de opressão que acompanharam certos cristãos-mercadores que ao chegarem naquele continente, levando também o terror, reinventarm a mercância da vida.
Severino seguiu caminhando e pensando... ou achava que estavano mínimo a pensar sobre a vida. Seu olhar mirava o horizonte que o fez lembrar-se de utopia, palavra que merece uma conversa na borda da calçada, olhando o mar ou mesmo seguindo o luar do sertão em noites de lua cheia.
Fátima Rodrigues – Expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil.
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A gente silencia
A gente silencia não é em razão da distância geográfica. O espaço que separa os seres humanos é sempre relativo. Lá costumamos nos aproximar ou nos afastar em nossa humandade ou desumanidade. Numa linguagem informal, para além de nós, divagamos horas e horas sobre a natureza, sua beleza, sua dinâmica, suas dores, seu lado indecifrável, e aonde quer que estejamos temos algo a contar. Já a escuta nem sempre se realiza, pois "dar ouvidos” instiga, doi e perturba numa avalanche só! Por isso, distanciar e silenciar têm semelhanças e diferenças. Silêncio se cultiva mesmo é no interior nas profundezas do ser lá onde reina o indizível É lá que tropeçamos e levantamos calmos, ou assoberbados
(....). É lá que a gente silencia e o silêncio vira mística encantamento, encontro consigo mesmo, paixão ou prisão. Fátima Rodrigues, Expedicionários, João Pessoa, Paraíba-Brasil em 10 de outubro de 2020.
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Ambiguidades do real
A realidade pode ser vista distorcida, mas dita com convicção. Pode ser uma opiniâo a revelar uma condição. Pode ser um desejo pleno de efeitos. Pode resultar de uma visão binária. Pode revelar até mesmo sistemas de objetos e de ações. Quiçá se concretize em premissas, conceitos e noções. A realidade é múltipla É fluida É líquida É subjetiva A realidade tem muitas trilhas e caminhos. A realidade está sempre a nos perscrutar
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O silêncio em manifesto
O silêncio em manifesto
O meu silêncio é a minha oração e somente se revela na escrita. É grão fertilizado na terra mãe. É um funk atravessando os palácios e se juntando às multidões. O meu silêncio é cortado por tiros que se repetem na favela e pela resistência dos Sem-terra. O meu silêncio sonha em ser potente onde houver humanidade, pois sangra em razão das queimadas na Amazônia, no Pantanal e na Mata Atlântica. O meu silêncio multiplica-se em vozes que denunciam o feminicídio. e soma-se ao grito poético de Carolina de Jesus ao afirmar: "Meu ideal é gostar de ler". O Meu silêncio é como a rocha mais dura que nem mesmo o intemperismo a atravessa. Pelo dito e não dito, o meu silêncio grafa as dores do mundo até que a primavera traga à lume a razão.
Fatima Rodrigues, em 07 de outubro de 2020.
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Os sertões de todos os nós
Os sertões de todos os “nós”
Quando os portugueses chegaram no Brasil eles não descobriram nada. Os espanhois já haviam estado por aqui, mas o verbo descobrir foi posto à prova por uns e outros. No continente africano e em outros continentes o fato se repetiu. Como explicar um ato inaugural em civilizações tão avançadas como a dos Incas, Aztecas e Maias ? Eles estavam lá com suas tecnologias e sua história! Melhor dizendo: estavam cá! Aqui no sul, o nosso norte, como bem propôs o artista uruguayo Joaquin Torres García. Podemos falar de encontros de outros que deu origem a uma certa invenção dos sertões. Sobre isso leio, leio, leio a perder de vista, e quando estou quase a entender adormeço exaurida. No dia seguinte retomo a minha bendita saga. Sertam está lá na Carta de Caminha, refere-se o escrivão aos interiores. E nós, pessoas comuns fomos nomeando esses nossos interiores com ações e sonhos ao infinito. Temos sertão até dentro de nós, a extravasar a nossa alma, a secar os nossos rios de lágrimas. A contar nossa epopeia. A nos fazer sonhar com um paraíso aonde jorraria leite e mel, à moda de Dom Sebastião Sertão de dentro Sertão de fora Como dizia Capistrano de Abreu Um dia ainda seremos um imenso Portugal Idealiza Chico Buarque, o compositor. Mas, enquanto as idealizações não se concretizam morremos de toda espécie de violência, e muitas vezes de tristeza. Há suicídio indígena nas aldeias e nas beiras de rodovia Com seus olhares impotentes mirando as suas terras originárias. Isso, quando a morte não nos chega de improviso como ocorreu com Macabea personagem de Clarice Lispector Estória que imita a vida de nordestinas, presas ao seu destino? Destino como afirmam alguns sobre Édipo-rei na tragédia grega? Suicídio indígena é destino? Eles ocorrem em demasia. Será destino ? Aniquilados estão os indígenas com o seu manifesto contra o agronegócio Mas não esqueçamos da Necropolítica de todo dia, da Transamazônica à Belo Monte Nem da dizimação de crianças e jovens negras nas periferias. Na cinelândia No aterro do flamengo na Candelária (....) Tudo isso é validado do alto da nossa insana filosofia terraplanista. Digo nossa porque envolve alguns Da minha parte acredito na existência de um analfabetismo político em registro ao que nos legou Bertold Brecht E os sertões? Melhor interpretá-lo antes que se transforme em desertos verdes. Em imensos canteiros do agro pop com seus fertilizantes artificiais, agrotóxicos e colheitadeiras gigantes. Parafraseando o dramaturgo ateniense Sófocles o Brasil clama aos brasileiros: decifra-me ou vos devoro!
Fátima Rodrigues – em 04 de outubro de 2020.
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Censuras e esculachos
Antes quem mandava passar a boiada era o vaqueiro A mestrança agora é tarefa do ministro do meio ambiente Antes quem pagava em moeda eram os pobres Agora o fazem certos políticos, com malas de dinheiro Antes o Brasil tinha alguma soberania Agora se obedece à Trump e a alguns embaixadores dos EUA Antes dizíamos "o petróleo é nosso" Agora somos informados de que o petróleo é deles Antes mentiras de presidente eram condenáveis Agora são opiniões que prevalecem Antes em lojas da Kopenhagen vendia-se chocolate Agora o MPF confirma ter numa delas lavagem de dinheiro Antes o Aécio Neves recebia em suas terras helicóptero cheio de pó Agora com processos prescritos pousa, no parlamento, de mocinho Antes o papa era pop e ninguém era poupado Agora o papa defende direitos e é execrado Antes era comum rapper contestar Agora a primeira- dama quer até isso interditar Se compararmos o antes e o agora não há papel que dê conta dos processos que prescrevem no STF Dos pedidos de empeachment no Congresso E dos abaixo-assinados em prol de justiça para Mariele
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Soneto da saudade
Ao partistes habitou-me o vazio Que persistiu por vias amorosas Em despedida lágrimas rolaram A escusar-se do intransigente arbítrio
Um sentir assim forte é guarida União profunda a tecer sentidos Ao assimilar o vazio do ente amado Vislumbrou no ato os afetos vividos
Ao exprimir em lágrimas o pesar E ao sentir a aflição da aguda falta enlaçou a dor no âmago do aconchego
Ninguém silencia a saudade viva Nem àquela obscurecida em vida Pois ambas são no ser assimiláveis
Fátima Rodrigues, em 24 de setembro de 2020.
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Delírios poéticos
Um pai falou para a filha que cabeça de vento é quem vive a inventar estórias e que a cabeça do escritor Jorge Amado era cheia de vento A menina quis conhecer o autor cabeça de vento e leu toda a sua obra Da leitura concluiu: - como o vento é imaginativo ! E até hoje ela sonha em ser cabeça de vento. Todas as manhãs respira com prazer a brisa do mar e agradece-lhe por aconduzí-la à escrita que tanto ama. E o pai, embora desconfiado da ingenuidade da filha, rir-se de soslaio Os dois levam a vida a imaginar, a contar e a escrever estórias fascinantes - E o vento ? Preencheu mais um espaço por meio de uma matáfora.