De onde a música?
Havia sorriso e luz
nas tardes brancas de outono
em que os meninos soltos
olvidando quaisquer conselhos
burlavam a vigilância das horas.
O mundo não era ainda
esse labirinto de espantos
e acrobatas por instinto
saltávamos o muro do encanto.
Hoje há essa encruzilhada
cravada no peito da noite
de onde virá a música
soando feito pranto?
Borboletas no aquário III
Uma chuva fina e persistente
Visitava os alicerces do passado
Quando fez o que, há tempos, cogitava:
- Mirou o ponto luminoso no teto de tudo
- Guardou os álbuns de todas as renúncias
Na gaveta do armário
- Fez par com a vida, num beijo inusitado
- E, finalmente, convicto, quebrou o aquário.
Borboletas no aquário
Lançamento: dia 07 de setembro
9ª Feira do Livro de Sertãozinho/SP
O grito I
Ao gritares
aprecia o eco
faz bem ouvir
a própria alma.
Vila Boa de Goiás
I
Quem toma pra si
as dores
que porventura são minhas:
- o rumor das ausências
que os telhados do tempo
visita?
Quem sobrevoa o cerrado
no estimulante voo guarida:
- o quero-quero solidário
que ao sinal de perigo avisa?
Quem resiste à aridez
no semblante do tépido dia:
- caviúnas e lobeiras
com seus braços retorcidos
simulando acrobacias?
Quem ilumina uma fatia
desse mundo submerso:
- a luz da poetisa
rompendo o prisma adverso?
Ah, Cora Coralina
como admitir tua partida
se em todos os recantos
do poema
te apresentas tão bela
quão viva?
II
As águas do Rio Vermelho
na antiga Vila Boa de Goiás
teus primeiros passos ainda vigiam
e as peregrinações em solo paulista
repletas estão
de poemas e simplicidade.
Tardiamente reconhecida
burlaste tempo e espaço
e, hoje, repousas tranqüila
na imortalidade.
Quase luz
Cansei de chorar meus mortos
quero agora
o riso descabido das crianças
e o inusitado movimento das ondas
banhando um céu sem retoques.
Um poema de Drummond
uma canção de Lennon
que celebrem a alegria
como raios a iluminarem
da terra a face viva.
E se me perguntarem
por aqueles que já partiram
direi: estão presentes
em uma forma a qual não fazem jus
nossos parcos conhecimentos
meio espaço, meio fluido,
quase luz...
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Portos, olhares e ausências
Acalento olhares
como o solitário porto
ávido por embarcações
à deriva.
Dissimulo cantigas
num parto natural
que seduz e dá à luz
inexplicável melodia.
E portuário calejado
habito todas as ausências
que insistem em preencher
chegadas e despedidas.
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Outono
Antes que o frio
Do vindouro inverno
Enrijeça os meus
Sentimentos
Desfolharei todos os
Temores
Que Insistem em fincar
Raízes adversas.
E em cada pedaço
De silêncio
Que o vento levar
Repousará um verso
Que servirá de elo
Entre os amigos ausentes.
E o inverno será
Aconchegante
Pois com os frutos
Produzidos no outono
Alimentarei a minha alma
Errante.
Desertos
Devorei a manhã
Com a sede dos desertos
E,afoito. descurei sabores
E poemas que do teto vazavam...
Só mais tarde
Alijado da minha
Pretensão de pássaro
Em voos cúmplices descobri
A diversidade de oásis
Que os teus sentimentos guardavam.
O lustre
Um silêncio de algas
Na garganta da madrugada
O morto contempla o lustre:
Seria a luz almejada?
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Ritmo
Seta enviesada
contornando velas e barcos
o sol anestesia teiús
e trespassa do tempo as couraças.
Embalando a sesta diária
de preguiçosos e rotundos bagres
o canto intuitivo das cigarras
ocultas nas barras da tarde.
E se a queda absurda das águas
transmuta rumor em presságio
a noite silencia e devolve
à vida o seu ritmo estável.