Ritmo
Seta enviesada
contornando velas e barcos
o sol anestesia teiús
e trespassa do tempo as couraças.
Embalando a sesta diária
de preguiçosos e rotundos bagres
o canto intuitivo das cigarras
ocultas nas barras da tarde.
E se a queda absurda das águas
transmuta rumor em presságio
a noite silencia e devolve
à vida o seu ritmo estável.
Luares
Os poemas são construídos
com a musicalidade da alma
é prudente, pois,
engravidar notas
multiplicar luares...
Vila Boa de Goiás
I
Quem toma pra si
as dores
que porventura são minhas:
- o rumor das ausências
que os telhados do tempo
visita?
Quem sobrevoa o cerrado
no estimulante voo guarida:
- o quero-quero solidário
que ao sinal de perigo avisa?
Quem resiste à aridez
no semblante do tépido dia:
- caviúnas e lobeiras
com seus braços retorcidos
simulando acrobacias?
Quem ilumina uma fatia
desse mundo submerso:
- a luz da poetisa
rompendo o prisma adverso?
Ah, Cora Coralina
como admitir tua partida
se em todos os recantos
do poema
te apresentas tão bela
quão viva?
II
As águas do Rio Vermelho
na antiga Vila Boa de Goiás
teus primeiros passos ainda vigiam
e as peregrinações em solo paulista
repletas estão
de poemas e simplicidade.
Tardiamente reconhecida
burlaste tempo e espaço
e, hoje, repousas tranqüila
na imortalidade.
DEFINIÇÃO
Não definas o que é poesia.
Agindo assim, trazes à tona
e desnudas
o que é belo porque mistério.
Preserva-a, na tua mala de viagem
- inconclusa.
INSPÍRAÇÃO
As palavras brincavam
nas calhas de um céu
descoberto.
E a inspiração gotejava
poesias no teto.
Esses estranhos dias
São estranhos e frios
Esses dias inóspitos
Em que a alegria
Goteja do teto do nada
E uma intransigente névoa
Veda-nos a paisagem.
do livro "Borboletas no aquário" - 2011
O preço do poema II
Quanto nos cobra o poema:
- por uma sinfonia de metáforas
- por uma visitação à alma
- por um deslumbre de voos?
Ou desapegado da matéria
doa-nos, ele, complacente
as suas inefáveis asas?
O preço do poema, senhores,
é o poeta quem paga!
Supérfluos
Meio aos "supérfluos objetos"
Armazenados sem lógica
No quartinho a eles destinado
Encontrei uma fosca folha
(Dessas de embalar pão)
Onde o meu pai exercitara,
Exaustivamente, a sua assinatura.
Percebia-se, claramente,
Através dos traços nítidos e fortes
Que a mão que conduzira "a pena"
O fizera qual fosse arado
Que rudemente desbravasse o chão.
O grito III
Já me fiz pausa
Num compasso de espera.
Tantos sonhos ao vento...
às vezes a vida soa
no contratempo.
Borboletas no aquário I
Mantinha borboletas
No aquário.
Sentado à mesa
Com as mãos no rosto
Espalmadas
Tecia um fio de tempo
(Só seu)
A observar, em voos suicidas,
Um submerso calendário.
do livro "Borboletas no aquário"
lançamento 7 de setembro
9ª Feira do Livro de Sertãozinho/SP