O grito II
Todo grito
é um refúgio.
Às vezes o silêncio
deixa de ser acolhe (dor).
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Supérfluos
Meio aos "supérfluos objetos"
Armazenados sem lógica
No quartinho a eles destinado
Encontrei uma fosca folha
(Dessas de embalar pão)
Onde o meu pai exercitara,
Exaustivamente, a sua assinatura.
Percebia-se, claramente,
Através dos traços nítidos e fortes
Que a mão que conduzira "a pena"
O fizera qual fosse arado
Que rudemente desbravasse o chão.
O preço do poema I
Quanto vale o poema:
- nas frentes de batalha
- nas perdas irreparáveis
- na solidão que a alma talha?
Quanto vale o poema:
- aos nossos filhos drogados
- aos órfãos do destino
- aos desenganados?
O poema faz seu preço
ou o preço do poema
pelo tamanho da fome
é estipulado?
Quanto vale o poema:
- nas filas dos hospitais
- nas mutilações dos sonhos
- nas nossas guerras pessoais?
Quanto vale o poema:
- aos idosos desrespeitados
- às minorias esquecidas
- aos amantes desregrados?
O poema faz seu preço
ou deveras
estou enganado?
Sobre portas e janelas IV
Tantas portas e janelas
não evidenciaram a trama
dos caminhos sem retorno
das cancelas improvisadas.
E afoitos como o vento
atropelando dores e risos
negligentes e perdulários
descuramos a beleza do grito.
Borboletas no aquário II
Mantinha borboletas
No aquário
O silêncio a balbuciar-lhe
Regozijos de naufrágios...
Mas, quando as mãos violáceas
Não pressentiram mais as cores
E a visão turva admitiu
Guelras na fala
Ao fio partido
Gritou
Ah, gritou!
Suspensos ao eco
Todos os mares não desbravados!
do livro "Borboletas no aquário"
lançamento 7 de setembro
9ª Feira do Livro de Sertãozinho/SP
Sobre portas e janelas III
"Incólumes dos naufrágios
nossos entes vem sempre à tona
na incansável busca ao abraço.
Átimo da verdade
artimanhas do tempo.
de onde os eflúvios da saudade?
Inexorável e lenta
a noite da vigília se arrasta
trespassando as vergas do espanto
ante a dúbia incompreensão dos fatos".
Sobre portas e janelas I
Havia uma janela
aberta ao desconhecido
que instigava a curiosidade
e o indomável instinto
dos descompromissados voos
sobre a silhueta do destino.
Margeavam a estrada
figueiras e hibiscos
e esparramados à sombra
entre duendes e mitos
não imaginávamos
que em futuras janelas
sequer postigos haveria.
Sobre portas e janelas II
Havia uma porta
que permanecia entreaberta
e o ranger das dobradiças
perturbava o silêncio
que descia lentamente
pelos fios da inexorável espera.
Sempre me perguntei
porquê nunca se fechava
"talvez estrategicamente localizada
permitisse-nos visualizar
o horizonte fundir-se à estrada".
Sedução
Minha paixão que ora se revela
Na vastidão do abraço sereno
É o amor na postura mais bela
É se entregar de corpo e alma, pleno.
Por ti esqueço infames mazelas
Espera, medo, solidão, tormento...
Numa clareira ou à luz de velas
Tu és o fruto do qual me alimento.
E sigo avante, tento desvendar
Tua essência, volúpia de mar.
Se me provocas por que afinal
Não te possuo, beleza imortal?
"A poesia, caro, qual a lua
Só te inspira, jamais será tua".
Beirais III
O relógio dissolve idílios
E com a sutileza dos sábios
urde insídias.
Por que a idiossincrasia
De postar-se à frente
na batalha
Reivindicando medalhas
guarida?
E no lusco-fusco que se anuncia
Sentinela a observar o mar agitado
Perscruto: haverá beirais
Para um eventual pouso forçado?