O preço do poema I
Quanto vale o poema:
- nas frentes de batalha
- nas perdas irreparáveis
- na solidão que a alma talha?
Quanto vale o poema:
- aos nossos filhos drogados
- aos órfãos do destino
- aos desenganados?
O poema faz seu preço
ou o preço do poema
pelo tamanho da fome
é estipulado?
Quanto vale o poema:
- nas filas dos hospitais
- nas mutilações dos sonhos
- nas nossas guerras pessoais?
Quanto vale o poema:
- aos idosos desrespeitados
- às minorias esquecidas
- aos amantes desregrados?
O poema faz seu preço
ou deveras
estou enganado?
Sobre portas e janelas IV
Tantas portas e janelas
não evidenciaram a trama
dos caminhos sem retorno
das cancelas improvisadas.
E afoitos como o vento
atropelando dores e risos
negligentes e perdulários
descuramos a beleza do grito.
O preço do poema II
Quanto nos cobra o poema:
- por uma sinfonia de metáforas
- por uma visitação à alma
- por um deslumbre de voos?
Ou desapegado da matéria
doa-nos, ele, complacente
as suas inefáveis asas?
O preço do poema, senhores,
é o poeta quem paga!
Supérfluos
Meio aos "supérfluos objetos"
Armazenados sem lógica
No quartinho a eles destinado
Encontrei uma fosca folha
(Dessas de embalar pão)
Onde o meu pai exercitara,
Exaustivamente, a sua assinatura.
Percebia-se, claramente,
Através dos traços nítidos e fortes
Que a mão que conduzira "a pena"
O fizera qual fosse arado
Que rudemente desbravasse o chão.
Sobre portas e janelas II
Havia uma porta
que permanecia entreaberta
e o ranger das dobradiças
perturbava o silêncio
que descia lentamente
pelos fios da inexorável espera.
Sempre me perguntei
porquê nunca se fechava
"talvez estrategicamente localizada
permitisse-nos visualizar
o horizonte fundir-se à estrada".
Pai
O teu sorriso era lindo
água de cachoeira
deslizando límpida
entre pedras e limo.
A tua alegria era infinda
e nem os dissabores
de tua árdua lida
(a infância pelo trabalho
fora tolhida)
a arrefecia.
Genúina era a tua poesia
lapidada com a rusticidade
de mãos e alma "caipiras"
(às vezes fugia-lhe a rima).
Ah, velho amigo,
tivesse eu a consciência
de que teu abraço
um dia me faltaria...
Sobre portas e janelas III
"Incólumes dos naufrágios
nossos entes vem sempre à tona
na incansável busca ao abraço.
Átimo da verdade
artimanhas do tempo.
de onde os eflúvios da saudade?
Inexorável e lenta
a noite da vigília se arrasta
trespassando as vergas do espanto
ante a dúbia incompreensão dos fatos".
Sobre portas e janelas I
Havia uma janela
aberta ao desconhecido
que instigava a curiosidade
e o indomável instinto
dos descompromissados voos
sobre a silhueta do destino.
Margeavam a estrada
figueiras e hibiscos
e esparramados à sombra
entre duendes e mitos
não imaginávamos
que em futuras janelas
sequer postigos haveria.
Beirais III
O relógio dissolve idílios
E com a sutileza dos sábios
urde insídias.
Por que a idiossincrasia
De postar-se à frente
na batalha
Reivindicando medalhas
guarida?
E no lusco-fusco que se anuncia
Sentinela a observar o mar agitado
Perscruto: haverá beirais
Para um eventual pouso forçado?
Beirais I
De onde essa dor
Que não se mostra
Recôndita detrás
De invisíveis portas?
De onde esse voo
Alçado sobre destroços
A ausência de beirais
Ao pássaro acaso importa?
do livro "Beirais" - 2007