Quando a lua caiu sobre a minha casa
I
Quando a lua caiu sobre a
minha casa
(num sítio entre o lá e o aqui)
as estruturas de tijolos e
barro
pareceram ruir.
Mas como poderiam
se do barro me fiz
de tijolo em tijolo
me edifiquei
e de luares sobrevivi...
II
Quando o sol afoito
deitou-se sobre os telhados
a lua havia partido
mas na pressa do recolhimento
esquecera sobre o leito ardente
pequenos fios prateados...
Cais
Como voltar ao porto
se o mar me atrai?
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Enganos
Engano a morte todos os dias
com a aparência suicida
daquele que garimpa versos
como o próprio ar que aspira.
Alguns elementos inspiram
essa vigília:
- o odor imprevisível das marés
nada submissas
- as casinhas perdidas na imensidão
das campinas
- o aconchego colhido nas pessoas simples
numa cidadezinha qualquer de Minas
(por que me intrigam?)
- os últimos fragmentos do poente
deitando atrás da colina...
Engano a morte
como quem, ansiosamente,
procura a vida.
Mandaria flores
Mandaria flores
para Adalgisa -
"fosse ela a mulher
da minha vida".
Recitaria para Lina,
Pessoa -
"aprecisasse ela quem voa".
Faria uma canção para Cristina,
singela -
"qual Chico para Florbela".
Mas envio flores
para Anelise
funcionária da loja
de discos
com poemas de
Quintana -
"Ah, aqueles olhos doidivanas...".
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No lixo, o luxo
A franzina menina interrompeu,
bruscamente, a tarefa a qual,
atenciosamente executava, ao
deparar-se com um belo par de
brincos.
Demasiadamente grandes para o seu
tamanho, mas belos.
Colocou-os e verificou, num pedaço
de espelho, o resultado.
Sorriu satisfeita e por instantes foi
diva na fétida madrugada já que, subitamente.
como se lhe espetassem agulhas na consciência,
voltou à realidade.
O lixo, com seus restos de víveres e objetos
que vendidos permitiam a sobrevivência da
família era mais importante do que seu estúpido arroubo de vaidade.
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Tríades
O riso forçado
O gesto traído
O silêncio no lustre
A tristeza na perda
Uma flor sem perfume
Uma gaivota áptera
Um rio sem nascente
O homem sem história
Um artesão às escuras
A palavra pensada
A poesia no amigo
A paixão que cura.
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Haikai
Delírios de neve
Embriagados de vinho
A lareira acesa.
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Dar-te-ei todo o amor que tenho
Dar-te-ei
todo o amor que tenho
e se for pouco
(como penso)
posso resgatar todas
as noites de inverno
em que aportado
em uma aldeia qualquer
no tempo
sonhava o amor eterno.
Dar-te-ei
todo o amor que tenho
e se for pouco
(como penso)
multiplicá-lo-ei em versos
que tecerei madrugadas afora
degustando vinho ao relento.
Dar-te-ei
todo o amor que tenho
e se for pouco
(como penso)
talvez me reste cantar
com a voz desafinada, mas espontânea
dos apaixonados que esbanjam talento.
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Cenário
Escrevo como quem ama
por isso os meus versos
preparam a cama
Alvos lençóis
protegem nossos corpos
(versos exangues)
e os cobertores
(no frio)
são sonetos infames
que complementam o terceto
eu - tu - acalanto.
Escrevo como quem ama
e amando se descobre tantos
para uma única alma
revisitada com encanto.
Amo como quem escreve
as mesmas estórias
tantas vezes...
o cenário causando espanto.
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Telhados de vidro 1
I
Em terrível bombardeio
inquiriu-se o soldado:
- que valia tem o meio
se a dor já é prévio saldo?
II
Jovens: pueris sois vós
(retruca "o experiente")
não é prudente "ter voz"
(nem se apercebe que mente).
III
A velhice é coisa bela
que deve ser respeitada
pois revela sapiência
na calmaria da estrada.