Telhados de vidro 2
I
Ardiloso é o tempo
Nas tramas do coração
Na dor é esquecimento
Do eterno a negação...
II
O silêncio é santuário
Guardado pelo bom senso
Atributo necessário
Pois se falo, logo penso.
III
Não há dor que se compare
Àquela do ente ausente
Que a Virgem Mãe nos ampare
Que Deus esteja presente!
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Abstrações 1
De inimagináveis devaneios
Surge a obra do pintor
Afinal o que é a sua tela
Senão
Uma incompreensível carta
Escrita á maõ...
No lixo, o luxo
A franzina menina interrompeu,
bruscamente, a tarefa a qual,
atenciosamente executava, ao
deparar-se com um belo par de
brincos.
Demasiadamente grandes para o seu
tamanho, mas belos.
Colocou-os e verificou, num pedaço
de espelho, o resultado.
Sorriu satisfeita e por instantes foi
diva na fétida madrugada já que, subitamente.
como se lhe espetassem agulhas na consciência,
voltou à realidade.
O lixo, com seus restos de víveres e objetos
que vendidos permitiam a sobrevivência da
família era mais importante do que seu estúpido arroubo de vaidade.
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Elementos
Finjo-me água
e transbordo noite em fora
invadindo sonhos alheios
no destempero das horas.
Finjo-me fogo
e na promiscuidade das intenções
revogo paradigmas
e seduzo inconsciente
o meu próprio destino.
Encontro-me ar
(não caibo em mim)
preencherei o universo
ou balões de festim?
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O lado côncavo do espelho
Sobre tênue fio
o equilibrista se
concentra
e já em terra firme
da queda se alimenta.
Sob o estigma
envolvente
de alterar padrões de
comportamento
impotente sente-se o domador
ante a sua intrínseca dor.
O desenhista se
esmera
em concluir seu
melhor traço:
da sua concreta solidão
construir poema abstrato.
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Cais
Como voltar ao porto
se o mar me atrai?
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Quando a lua caiu sobre a minha casa
I
Quando a lua caiu sobre a
minha casa
(num sítio entre o lá e o aqui)
as estruturas de tijolos e
barro
pareceram ruir.
Mas como poderiam
se do barro me fiz
de tijolo em tijolo
me edifiquei
e de luares sobrevivi...
II
Quando o sol afoito
deitou-se sobre os telhados
a lua havia partido
mas na pressa do recolhimento
esquecera sobre o leito ardente
pequenos fios prateados...
As ausências geram sons
As ausências geram
Sons
Que atravessam a linha
Do tempo.
As ausências geram
Sons
Acordes involuntários
Alheios ao diapasão.
As ausências geram
Sons
E perpetuam suas presenças
Sem alarde.
Oh, aromas da saudade
Visitando remota canção!
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Dar-te-ei todo o amor que tenho
Dar-te-ei
todo o amor que tenho
e se for pouco
(como penso)
posso resgatar todas
as noites de inverno
em que aportado
em uma aldeia qualquer
no tempo
sonhava o amor eterno.
Dar-te-ei
todo o amor que tenho
e se for pouco
(como penso)
multiplicá-lo-ei em versos
que tecerei madrugadas afora
degustando vinho ao relento.
Dar-te-ei
todo o amor que tenho
e se for pouco
(como penso)
talvez me reste cantar
com a voz desafinada, mas espontânea
dos apaixonados que esbanjam talento.
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Através do olho mágico
Através do olho
Mágico
Que instalei no portal
Dos meus temores
Seleciono as visitas
Que dividem comigo
Alegrias e dores.
São poucas:
um amigo cronista
(idealista)
Os familliares que não
Entram nas estatísticas
E festivas borboletas
Desprendendo cores.
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