Releituras
Fiz cuidadosa releitura
Em refúgios de alvoradas
E descobri na partitura do
Tempo
O que me agonizava:
Um sustenido improvisado
Na pausa que a melodia buscava.
Abstrações 2
No sótão da igreja
Habitava tranquilo pássaro.
Dia desses
Incapaz de resistir
Às inquietações
Que atitude lhe cobravam
Transformou-se
em ausente traço.
Mandaria flores
Mandaria flores
para Adalgisa -
"fosse ela a mulher
da minha vida".
Recitaria para Lina,
Pessoa -
"aprecisasse ela quem voa".
Faria uma canção para Cristina,
singela -
"qual Chico para Florbela".
Mas envio flores
para Anelise
funcionária da loja
de discos
com poemas de
Quintana -
"Ah, aqueles olhos doidivanas...".
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Sedução
Minha paixão que ora se revela
Na vastidão do abraço sereno
É o amor na postura mais bela
É se entregar de corpo e alma, pleno.
Por ti esqueço infames mazelas
Espera, medo, solidão, tormento...
Numa clareira ou à luz de velas
Tu és o fruto do qual me alimento.
E sigo avante, tento desvendar
Tua essência, volúpia de mar.
Se me provocas por que afinal
Não te possuo, beleza imortal?
"A poesia, caro, qual a lua
Só te inspira, jamais será tua".
Telhados de vidro 2
I
Ardiloso é o tempo
Nas tramas do coração
Na dor é esquecimento
Do eterno a negação...
II
O silêncio é santuário
Guardado pelo bom senso
Atributo necessário
Pois se falo, logo penso.
III
Não há dor que se compare
Àquela do ente ausente
Que a Virgem Mãe nos ampare
Que Deus esteja presente!
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Através do olho mágico
Através do olho
Mágico
Que instalei no portal
Dos meus temores
Seleciono as visitas
Que dividem comigo
Alegrias e dores.
São poucas:
um amigo cronista
(idealista)
Os familliares que não
Entram nas estatísticas
E festivas borboletas
Desprendendo cores.
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Beirais II
Sob rútilo amanhecer
Sobeja vivacidade
E as certezas são vagas
No redil dos incautos.
De onde esse voo
Displicente e inefável
Que prefere a turbulência
A beiral seguro e calmo?
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Elementos
Finjo-me água
e transbordo noite em fora
invadindo sonhos alheios
no destempero das horas.
Finjo-me fogo
e na promiscuidade das intenções
revogo paradigmas
e seduzo inconsciente
o meu próprio destino.
Encontro-me ar
(não caibo em mim)
preencherei o universo
ou balões de festim?
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Quando a lua caiu sobre a minha casa
I
Quando a lua caiu sobre a
minha casa
(num sítio entre o lá e o aqui)
as estruturas de tijolos e
barro
pareceram ruir.
Mas como poderiam
se do barro me fiz
de tijolo em tijolo
me edifiquei
e de luares sobrevivi...
II
Quando o sol afoito
deitou-se sobre os telhados
a lua havia partido
mas na pressa do recolhimento
esquecera sobre o leito ardente
pequenos fios prateados...
O lado côncavo do espelho
Sobre tênue fio
o equilibrista se
concentra
e já em terra firme
da queda se alimenta.
Sob o estigma
envolvente
de alterar padrões de
comportamento
impotente sente-se o domador
ante a sua intrínseca dor.
O desenhista se
esmera
em concluir seu
melhor traço:
da sua concreta solidão
construir poema abstrato.
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