Cenário
Escrevo como quem ama
por isso os meus versos
preparam a cama
Alvos lençóis
protegem nossos corpos
(versos exangues)
e os cobertores
(no frio)
são sonetos infames
que complementam o terceto
eu - tu - acalanto.
Escrevo como quem ama
e amando se descobre tantos
para uma única alma
revisitada com encanto.
Amo como quem escreve
as mesmas estórias
tantas vezes...
o cenário causando espanto.
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Telhados de vidro 1
I
Em terrível bombardeio
inquiriu-se o soldado:
- que valia tem o meio
se a dor já é prévio saldo?
II
Jovens: pueris sois vós
(retruca "o experiente")
não é prudente "ter voz"
(nem se apercebe que mente).
III
A velhice é coisa bela
que deve ser respeitada
pois revela sapiência
na calmaria da estrada.
Dar-te-ei todo o amor que tenho
Dar-te-ei
todo o amor que tenho
e se for pouco
(como penso)
posso resgatar todas
as noites de inverno
em que aportado
em uma aldeia qualquer
no tempo
sonhava o amor eterno.
Dar-te-ei
todo o amor que tenho
e se for pouco
(como penso)
multiplicá-lo-ei em versos
que tecerei madrugadas afora
degustando vinho ao relento.
Dar-te-ei
todo o amor que tenho
e se for pouco
(como penso)
talvez me reste cantar
com a voz desafinada, mas espontânea
dos apaixonados que esbanjam talento.
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Valores
O meu pai foi meeiro
metade labuta, metade fé...
Amendoim, algodão
arroz...
de tudo ele plantou
e dividiu também
(estava no contrato verbal)
tempo de valores.
O meu pai foi meeiro
e nas partilhas de uma vida
simples
preservou-se íntegro
com suas alegrias e dores.
Abrigo
Nossa mãe
fazia bolinhos de chuva
e não entendíamos
por que nessas ocasiões,
geralmente, o sol irradiava
festivo...
Nossa mãe fazia
curau
com o milho colhido na hora
nas plantações ao lado da casa
no pacato sítio.
Nossa mãe
cosia roupas
em sua máquina antiga
estrategicamente posicionada
próxima à janela
com vista para prováveis peraltices.
Nem sequer imaginávamos
que entre um afazer e outro
em nós procurava abrigo.
Último poema
O meu último poema
será breve
derradeiro suspiro do suicida...
ou alguém altercará o fato
de que o poeta se mata
e renasce em cada esquina...
A visita
A visita interroga
Os labirintos
Do meu olhar vazio.
Habitualmente permanece
Quieta
Há anos têm sido assim...
E sempre parte
Quando adormeço
Deixando suspenso
Nos vendavais das indagações
Um tênue fio...
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Metáforas do descaso
Opressoras palavras
que mal (ditas)
reverberam falácias:
- quanto vale uma corrompida
metáfora?
Opressora desigualdade
estampada nas crônicas
dos viadutos
nos cárceres das calçadas:
- quem acalentará os sonhos
ah, inevitável alvorada!
Opressora discriminação
pelo silencioso véu legalizada:
- mas, noite e dia não são adornos
de um único céu?
"Não sou alegre
nem sou triste..."
E no deserto da indiferença
entre opressores e oprimidos
a poesia, simplesmente,
resiste...
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Jornadas
Se a morte é o
reinício de tudo
ao expiro final
preparem as minhas
malas
que não ficarei inerte
no pedaço de chão
que acomodará
as minhas vestes.
Celebrem com versos
de um desconhecido poeta
(os famosos já foram homenageados)
o momento único
em que se rompe, afinal,
o mistério entre os mundos.
E se vos fizer bem,
cantai
que as longas jornadas
ficam mais alegres
e amenas
com a música
que emana das almas.
O juramento de Odônio Tissé
Odônio jurou um dia
Olhos postos no poente
Que a morrer de saudade
Distante de amados entes
Preferia a poesia das águas
Da emoção que é dor presente.
Ah, se a aridez que aniquila
É o vazio que a alma pressente!