As ausências geram sons
As ausências geram
Sons
Que atravessam a linha
Do tempo.
As ausências geram
Sons
Acordes involuntários
Alheios ao diapasão.
As ausências geram
Sons
E perpetuam suas presenças
Sem alarde.
Oh, aromas da saudade
Visitando remota canção!
www.acadsertanezdeletras.no.comunidades.net
No lixo, o luxo
A franzina menina interrompeu,
bruscamente, a tarefa a qual,
atenciosamente executava, ao
deparar-se com um belo par de
brincos.
Demasiadamente grandes para o seu
tamanho, mas belos.
Colocou-os e verificou, num pedaço
de espelho, o resultado.
Sorriu satisfeita e por instantes foi
diva na fétida madrugada já que, subitamente.
como se lhe espetassem agulhas na consciência,
voltou à realidade.
O lixo, com seus restos de víveres e objetos
que vendidos permitiam a sobrevivência da
família era mais importante do que seu estúpido arroubo de vaidade.
www.acadsertanezdeletras.no.comunidades.net
Cenário
Escrevo como quem ama
por isso os meus versos
preparam a cama
Alvos lençóis
protegem nossos corpos
(versos exangues)
e os cobertores
(no frio)
são sonetos infames
que complementam o terceto
eu - tu - acalanto.
Escrevo como quem ama
e amando se descobre tantos
para uma única alma
revisitada com encanto.
Amo como quem escreve
as mesmas estórias
tantas vezes...
o cenário causando espanto.
www.mariomassari.no.comunidades.net
www.acadsertanezdeletras.no.comunidades.net
Poema mal (dito)
Já que o poema foi mal
Interpretado
Que fique o dito
Pelo não dito
E assim selamos um acordo
Sem máculas:
Bem dito, pois, fica desde já
Tudo o que outrora foi mal dito.
Dar-te-ei todo o amor que tenho
Dar-te-ei
todo o amor que tenho
e se for pouco
(como penso)
posso resgatar todas
as noites de inverno
em que aportado
em uma aldeia qualquer
no tempo
sonhava o amor eterno.
Dar-te-ei
todo o amor que tenho
e se for pouco
(como penso)
multiplicá-lo-ei em versos
que tecerei madrugadas afora
degustando vinho ao relento.
Dar-te-ei
todo o amor que tenho
e se for pouco
(como penso)
talvez me reste cantar
com a voz desafinada, mas espontânea
dos apaixonados que esbanjam talento.
www.acadsertanezdeletras.no.comunidades.net
O juramento de Odônio Tissé
Odônio jurou um dia
Olhos postos no poente
Que a morrer de saudade
Distante de amados entes
Preferia a poesia das águas
Da emoção que é dor presente.
Ah, se a aridez que aniquila
É o vazio que a alma pressente!
Recolhimento
Muitas coisas cabem
no silêncio
até mesmo o recolhimento
dos ventos
nos batentes da memória
reinventando alentos,
e o trêmulo fio de voz
que se abriga
nos frágeis andaimes de um lamento!
Último poema
O meu último poema
será breve
derradeiro suspiro do suicida...
ou alguém altercará o fato
de que o poeta se mata
e renasce em cada esquina...
Noturna paisagem
Na ânsia louca de
se banhar
a lua arrebenta no
penhasco
e num ponto distante
e insondável
o suicídio coletivo e
silencioso
de estrelas bebendo
o mar.
Jornadas
Se a morte é o
reinício de tudo
ao expiro final
preparem as minhas
malas
que não ficarei inerte
no pedaço de chão
que acomodará
as minhas vestes.
Celebrem com versos
de um desconhecido poeta
(os famosos já foram homenageados)
o momento único
em que se rompe, afinal,
o mistério entre os mundos.
E se vos fizer bem,
cantai
que as longas jornadas
ficam mais alegres
e amenas
com a música
que emana das almas.