No lixo, o luxo
A franzina menina interrompeu,
bruscamente, a tarefa a qual,
atenciosamente executava, ao
deparar-se com um belo par de
brincos.
Demasiadamente grandes para o seu
tamanho, mas belos.
Colocou-os e verificou, num pedaço
de espelho, o resultado.
Sorriu satisfeita e por instantes foi
diva na fétida madrugada já que, subitamente.
como se lhe espetassem agulhas na consciência,
voltou à realidade.
O lixo, com seus restos de víveres e objetos
que vendidos permitiam a sobrevivência da
família era mais importante do que seu estúpido arroubo de vaidade.
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Haikai
Delírios de neve
Embriagados de vinho
A lareira acesa.
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Repouso
Quando o lusco-fusco
envolve os portais
dos casarões adormecidos
caída de algum cometa
a paz ausculta os meninos,
imersos em brandos sonhos
guardados pelo destino.
Oh, silêncio que inebria
ouçamos a canção do ir e vir
que o vento ao longe anuncia,
despencando pelas encostas
em vendavais de calmaria.
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Valores
O meu pai foi meeiro
metade labuta, metade fé...
Amendoim, algodão
arroz...
de tudo ele plantou
e dividiu também
(estava no contrato verbal)
tempo de valores.
O meu pai foi meeiro
e nas partilhas de uma vida
simples
preservou-se íntegro
com suas alegrias e dores.
Espelhos do tempo
O rumor das ausências
visitando os espelhos do tempo
alimenta a sede do poema
embriaga o silêncio.
Estéreis acordes
já não convidam à dança
às festividades da alma
à emoção do acalanto,
e uma invasora saudade
arranha as entranhas das
possibilidades.
Melodia encerrada?
Não. A vida faz apenas
uma pausa
e crava nas folhagens dos fatos
as suas irretocáveis verdades.
do livro "Espelhos do Tempo"
1a edição - setembro/2010
Jornadas
Se a morte é o
reinício de tudo
ao expiro final
preparem as minhas
malas
que não ficarei inerte
no pedaço de chão
que acomodará
as minhas vestes.
Celebrem com versos
de um desconhecido poeta
(os famosos já foram homenageados)
o momento único
em que se rompe, afinal,
o mistério entre os mundos.
E se vos fizer bem,
cantai
que as longas jornadas
ficam mais alegres
e amenas
com a música
que emana das almas.
Poema mal (dito)
Já que o poema foi mal
Interpretado
Que fique o dito
Pelo não dito
E assim selamos um acordo
Sem máculas:
Bem dito, pois, fica desde já
Tudo o que outrora foi mal dito.
Gota
Transcende a gota
à queda
e repousa calma
na folha que, solícita,
a recebe.
O solo há tempos espera
mas reluta a gota,
ante a acolhida da folha
a abandonar carícias certas.
Gota folha solo
triângulo inevitável
da chuva que é promessa.
Abrigo
Nossa mãe
fazia bolinhos de chuva
e não entendíamos
por que nessas ocasiões,
geralmente, o sol irradiava
festivo...
Nossa mãe fazia
curau
com o milho colhido na hora
nas plantações ao lado da casa
no pacato sítio.
Nossa mãe
cosia roupas
em sua máquina antiga
estrategicamente posicionada
próxima à janela
com vista para prováveis peraltices.
Nem sequer imaginávamos
que entre um afazer e outro
em nós procurava abrigo.
Metáforas do descaso
Opressoras palavras
que mal (ditas)
reverberam falácias:
- quanto vale uma corrompida
metáfora?
Opressora desigualdade
estampada nas crônicas
dos viadutos
nos cárceres das calçadas:
- quem acalentará os sonhos
ah, inevitável alvorada!
Opressora discriminação
pelo silencioso véu legalizada:
- mas, noite e dia não são adornos
de um único céu?
"Não sou alegre
nem sou triste..."
E no deserto da indiferença
entre opressores e oprimidos
a poesia, simplesmente,
resiste...
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