À mesa (gran finale)
À mesa
reverberam os talheres
esgares de lassidão
ausência de palavras,
e através das frestas
do silêncio
desabam do sótão
maquiadas mágoas.
As virtudes
pela rotina sobrepujadas
agonizam
no cenário onde das emoções
restaram vestígios,
e os idílios
sobreviventes da devassa
perscrutam no relógio imaginário
um alvo indefinido.
Reverberam os talheres
e o silêncio fere mais
que quaisquer palavras.
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Recolhimento
Muitas coisas cabem
no silêncio
até mesmo o recolhimento
dos ventos
nos batentes da memória
reinventando alentos,
e o trêmulo fio de voz
que se abriga
nos frágeis andaimes de um lamento!
Jornadas
Se a morte é o
reinício de tudo
ao expiro final
preparem as minhas
malas
que não ficarei inerte
no pedaço de chão
que acomodará
as minhas vestes.
Celebrem com versos
de um desconhecido poeta
(os famosos já foram homenageados)
o momento único
em que se rompe, afinal,
o mistério entre os mundos.
E se vos fizer bem,
cantai
que as longas jornadas
ficam mais alegres
e amenas
com a música
que emana das almas.
Último poema
O meu último poema
será breve
derradeiro suspiro do suicida...
ou alguém altercará o fato
de que o poeta se mata
e renasce em cada esquina...
Repouso
Quando o lusco-fusco
envolve os portais
dos casarões adormecidos
caída de algum cometa
a paz ausculta os meninos,
imersos em brandos sonhos
guardados pelo destino.
Oh, silêncio que inebria
ouçamos a canção do ir e vir
que o vento ao longe anuncia,
despencando pelas encostas
em vendavais de calmaria.
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O relógio
O relógio já não acompanha
os meus movimentos
antecipa-se, veloz,
e posta-se à frente
dos meus calculados propósitos.
Se girasse os seus ponteiros
no sentido anti-horário
(dezenas de vezes, centenas, milhares...)
convidá-lo-ia para uma
caminhada matinal
pelo parque.
À tarde
faríamos a sesta
no avarandado do sítio
com vista para o fazer
nada.
Conversaríamos sobre:
- o amor estampado no acasalamento dos pássaros
em festa pelos pomares
- a chuva que, eventualmente, caindo lavasse as nossas almas
- o odor de terra molhada, a indelével esperança, a renovação do afago
- meu cão amigo que, certamente, vigiaria
nossos olhares
- música leve, paixões ardentes, entregas desmedidas
versos inacabados...
Tê-lo-ia ia como amigo
primeiro
mesmo ciente de que , ele,
em sua missão inadiável
jamais pararia
e, ao meu descuido,
todos aqueles bons momentos
seriam, certamente, tragados.
O juramento de Odônio Tissé
Odônio jurou um dia
Olhos postos no poente
Que a morrer de saudade
Distante de amados entes
Preferia a poesia das águas
Da emoção que é dor presente.
Ah, se a aridez que aniquila
É o vazio que a alma pressente!
O lado obscuro do poema
O lado obscuro da vida
não é a morte
- de todas as partidas
a mais importante,
tampouco a lua
a todos revela o seu encanto.
O lado obscuro do poema
é luz
que aos cegos empresta seu canto.
Gota
Transcende a gota
à queda
e repousa calma
na folha que, solícita,
a recebe.
O solo há tempos espera
mas reluta a gota,
ante a acolhida da folha
a abandonar carícias certas.
Gota folha solo
triângulo inevitável
da chuva que é promessa.
Ausência
Abraça-me
como o brilho ao cristal
que guarda dos lábios
as marcas
a saliva ainda em ebulição.
Abraça-me
como órfão ao destino
o beco ao fugitivo
que desprovido de perspectivas
admite o precipício.
Compartilharemos
do barco à deriva as velas
qual andejo com o nada
observadores atentos
horas e sentinela.
Abraça-me infinda madrugada
como um pai que ao filho espera.