Metáforas do descaso
Opressoras palavras
que mal (ditas)
reverberam falácias:
- quanto vale uma corrompida
metáfora?
Opressora desigualdade
estampada nas crônicas
dos viadutos
nos cárceres das calçadas:
- quem acalentará os sonhos
ah, inevitável alvorada!
Opressora discriminação
pelo silencioso véu legalizada:
- mas, noite e dia não são adornos
de um único céu?
"Não sou alegre
nem sou triste..."
E no deserto da indiferença
entre opressores e oprimidos
a poesia, simplesmente,
resiste...
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O juramento de Odônio Tissé
Odônio jurou um dia
Olhos postos no poente
Que a morrer de saudade
Distante de amados entes
Preferia a poesia das águas
Da emoção que é dor presente.
Ah, se a aridez que aniquila
É o vazio que a alma pressente!
Jornadas
Se a morte é o
reinício de tudo
ao expiro final
preparem as minhas
malas
que não ficarei inerte
no pedaço de chão
que acomodará
as minhas vestes.
Celebrem com versos
de um desconhecido poeta
(os famosos já foram homenageados)
o momento único
em que se rompe, afinal,
o mistério entre os mundos.
E se vos fizer bem,
cantai
que as longas jornadas
ficam mais alegres
e amenas
com a música
que emana das almas.
O relógio
O relógio já não acompanha
os meus movimentos
antecipa-se, veloz,
e posta-se à frente
dos meus calculados propósitos.
Se girasse os seus ponteiros
no sentido anti-horário
(dezenas de vezes, centenas, milhares...)
convidá-lo-ia para uma
caminhada matinal
pelo parque.
À tarde
faríamos a sesta
no avarandado do sítio
com vista para o fazer
nada.
Conversaríamos sobre:
- o amor estampado no acasalamento dos pássaros
em festa pelos pomares
- a chuva que, eventualmente, caindo lavasse as nossas almas
- o odor de terra molhada, a indelével esperança, a renovação do afago
- meu cão amigo que, certamente, vigiaria
nossos olhares
- música leve, paixões ardentes, entregas desmedidas
versos inacabados...
Tê-lo-ia ia como amigo
primeiro
mesmo ciente de que , ele,
em sua missão inadiável
jamais pararia
e, ao meu descuido,
todos aqueles bons momentos
seriam, certamente, tragados.
Baú
A poesia foi quase tudo
em minha vida
e me basta para a eternidade.
Mas por precaução levarei
na inusitada viagem:
- a Antologia de Quintana
- teu sorriso inacabado
- meu baú de saudade.
Ausência
Abraça-me
como o brilho ao cristal
que guarda dos lábios
as marcas
a saliva ainda em ebulição.
Abraça-me
como órfão ao destino
o beco ao fugitivo
que desprovido de perspectivas
admite o precipício.
Compartilharemos
do barco à deriva as velas
qual andejo com o nada
observadores atentos
horas e sentinela.
Abraça-me infinda madrugada
como um pai que ao filho espera.
Espelhos do tempo
O rumor das ausências
visitando os espelhos do tempo
alimenta a sede do poema
embriaga o silêncio.
Estéreis acordes
já não convidam à dança
às festividades da alma
à emoção do acalanto,
e uma invasora saudade
arranha as entranhas das
possibilidades.
Melodia encerrada?
Não. A vida faz apenas
uma pausa
e crava nas folhagens dos fatos
as suas irretocáveis verdades.
do livro "Espelhos do Tempo"
1a edição - setembro/2010
Noturna paisagem
Na ânsia louca de
se banhar
a lua arrebenta no
penhasco
e num ponto distante
e insondável
o suicídio coletivo e
silencioso
de estrelas bebendo
o mar.
Abrigo
Nossa mãe
fazia bolinhos de chuva
e não entendíamos
por que nessas ocasiões,
geralmente, o sol irradiava
festivo...
Nossa mãe fazia
curau
com o milho colhido na hora
nas plantações ao lado da casa
no pacato sítio.
Nossa mãe
cosia roupas
em sua máquina antiga
estrategicamente posicionada
próxima à janela
com vista para prováveis peraltices.
Nem sequer imaginávamos
que entre um afazer e outro
em nós procurava abrigo.
À mesa (gran finale)
À mesa
reverberam os talheres
esgares de lassidão
ausência de palavras,
e através das frestas
do silêncio
desabam do sótão
maquiadas mágoas.
As virtudes
pela rotina sobrepujadas
agonizam
no cenário onde das emoções
restaram vestígios,
e os idílios
sobreviventes da devassa
perscrutam no relógio imaginário
um alvo indefinido.
Reverberam os talheres
e o silêncio fere mais
que quaisquer palavras.
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