Último poema
O meu último poema
será breve
derradeiro suspiro do suicida...
ou alguém altercará o fato
de que o poeta se mata
e renasce em cada esquina...
A visita
A visita interroga
Os labirintos
Do meu olhar vazio.
Habitualmente permanece
Quieta
Há anos têm sido assim...
E sempre parte
Quando adormeço
Deixando suspenso
Nos vendavais das indagações
Um tênue fio...
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Clube da esquina
("entidade imaginária, lúdica, composta
por pessoas que tiveram como amálgama
a música.
Murilo Antunes")
I
Em outras eras
caminhei pelas ruas
das cidades mineiras
aspirei o ar das montanhas
e a poesia que fluía
da garganta de suas
águas ternas.
Em outras vidas
dinamitei pedreiras
vasculhei garimpos
na busca incansável
de recônditos tesouros
que encontraria no riso
acolhedor da sua gente.
Em outros tempos
frequentei hipotética esquina
onde ensaiavam-se
os primeiros acordes
de uma música
bela e divina.
II
Nunca mais o encontro
de duas ruas trouxe
a inefável emoção
costurada no meio-fio
com letras e notas
em profusão.
Lô Borges, Márcio Borges, Beto Guedes, Fernando Brant,
Flávio Venturini, Milton Nascimento...
Imaginariam vocês
que no Trem Azul
fariam a travessia
ao ponto extremo
de imortalizadas canções?
Seguistes caminhos diversos
difundindo a ideia
de que a sensibilidade
ao mundo nos ensina
que ele, pequenino,
repousa em remota esquina.
À mesa (gran finale)
À mesa
reverberam os talheres
esgares de lassidão
ausência de palavras,
e através das frestas
do silêncio
desabam do sótão
maquiadas mágoas.
As virtudes
pela rotina sobrepujadas
agonizam
no cenário onde das emoções
restaram vestígios,
e os idílios
sobreviventes da devassa
perscrutam no relógio imaginário
um alvo indefinido.
Reverberam os talheres
e o silêncio fere mais
que quaisquer palavras.
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Recolhimento
Muitas coisas cabem
no silêncio
até mesmo o recolhimento
dos ventos
nos batentes da memória
reinventando alentos,
e o trêmulo fio de voz
que se abriga
nos frágeis andaimes de um lamento!
Noturna paisagem
Na ânsia louca de
se banhar
a lua arrebenta no
penhasco
e num ponto distante
e insondável
o suicídio coletivo e
silencioso
de estrelas bebendo
o mar.
O relógio
O relógio já não acompanha
os meus movimentos
antecipa-se, veloz,
e posta-se à frente
dos meus calculados propósitos.
Se girasse os seus ponteiros
no sentido anti-horário
(dezenas de vezes, centenas, milhares...)
convidá-lo-ia para uma
caminhada matinal
pelo parque.
À tarde
faríamos a sesta
no avarandado do sítio
com vista para o fazer
nada.
Conversaríamos sobre:
- o amor estampado no acasalamento dos pássaros
em festa pelos pomares
- a chuva que, eventualmente, caindo lavasse as nossas almas
- o odor de terra molhada, a indelével esperança, a renovação do afago
- meu cão amigo que, certamente, vigiaria
nossos olhares
- música leve, paixões ardentes, entregas desmedidas
versos inacabados...
Tê-lo-ia ia como amigo
primeiro
mesmo ciente de que , ele,
em sua missão inadiável
jamais pararia
e, ao meu descuido,
todos aqueles bons momentos
seriam, certamente, tragados.
O juramento de Odônio Tissé
Odônio jurou um dia
Olhos postos no poente
Que a morrer de saudade
Distante de amados entes
Preferia a poesia das águas
Da emoção que é dor presente.
Ah, se a aridez que aniquila
É o vazio que a alma pressente!
Dar-te-ei todo o amor que tenho
Dar-te-ei
todo o amor que tenho
e se for pouco
(como penso)
posso resgatar todas
as noites de inverno
em que aportado
em uma aldeia qualquer
no tempo
sonhava o amor eterno.
Dar-te-ei
todo o amor que tenho
e se for pouco
(como penso)
multiplicá-lo-ei em versos
que tecerei madrugadas afora
degustando vinho ao relento.
Dar-te-ei
todo o amor que tenho
e se for pouco
(como penso)
talvez me reste cantar
com a voz desafinada, mas espontânea
dos apaixonados que esbanjam talento.
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Quando a lua caiu sobre a minha casa
I
Quando a lua caiu sobre a
minha casa
(num sítio entre o lá e o aqui)
as estruturas de tijolos e
barro
pareceram ruir.
Mas como poderiam
se do barro me fiz
de tijolo em tijolo
me edifiquei
e de luares sobrevivi...
II
Quando o sol afoito
deitou-se sobre os telhados
a lua havia partido
mas na pressa do recolhimento
esquecera sobre o leito ardente
pequenos fios prateados...