Acordar
Se eu continuar dormindo,
Entenda da melhor maneira.
Talvez eu esteja sentindo
Ou pode ser só canseira.
Se os olhos eu não abrir
Pode ser por estar feliz.
Pode ser desejo de partir
Ou apenas porque não quis.
Da noite trago sonos esquisitos
Delírios. Insônias. Mosquitos.
E sonhos de amor fraternos.
Meus devaneios nem edito
Pois neles nem eu acredito.
Sou mortal, jamais serei eterno.
A vida
A vida é um jogo que gira
Ou você entende e joga,
Ou então pira.
Reticências
Um grafema bastava-me.
Pouca coisa eu queria.
Saber que ali eu estava
Enchia-me de alegria.
Uma palavra já seria até demais.
Uma frase eu nem sei se mereceria.
Ser estrofe? Nunca. Jamais.
Muito menos ser a tua poesia.
Uma página eu ganhei.
Antológico você me fez.
Ali para sempre estarei.
Muito mais do que sonhei.
Livro é o que hoje sou.
Capa dura preferida.
Um romance de amor.
Uma história para toda vida.
Silente
Faça silêncio no teu olhar,
Teus olhos gritados já me disseram tanto...
Emudeça o eficiente penetrar
Teu olhar falante me leva ao desencanto.
Olhar fixo e destemido
De cumplicidade assumida
Finalmente num visual resumido
Brilhou um olhar para a vida.
Meus olhos mergulham na verdade
Que pode não ser a mesma tua.
Ardem de cegueira e saudade
Em cada passo que dou nesta rua.
Pétalas
Se brincarmos que seja com nossos corpos.
Que jamais se maltrate os sentimentos.
Que a doçura do amor venha de dentro.
Que não esvoace com o sopro do vento.
Que o amor seja eternamente livre e irracional.
Sem prisão viverá feliz onde desejar.
Que pouse lentamente como brisa matinal.
Nas pétalas das rosas para se perfumar.
Sai de você meu verso mais autêntico e lírico.
Vem como ondas leves e suaves do mar.
Entra em mim quando fundamente inspiro.
Encontra um cantinho nobre pra se acomodar.
Dos teus olhos vem meu intenso brilho.
No teu sorriso encontro minha inabalável alegria.
Tua beleza tem a exuberância e o perfume do lírio.
Amor real coroando minha fantasia.
É você?
Ao longe já ouvi gritos.
Em meio à vegetação avistei a junta de bois puxando o arado que ele, como num desafio razoavelmente radical, tentava segurar sem ser atingido pelas pedras e tocos do caminho.
Olhei firme em sua direção. Tinha a pele dourada pelo sol mesmo estando protegido por um enorme chapéu de palha. Um homem bonito. Demonstrava alguma tristeza, mas ainda assim, lindo.
A calça remendada além de ser um indicativo de dificuldades financeiras era, acima de tudo, a informação que eu estava diante de uma pessoa simples e humilde.
Uma enorme sensação de ternura percorreu meu peito. Senti vontade de abraça-lo fortemente. Contive-me. Apenas o cumprimentei a distância.
Antes ouvi um ôôô. E os animais pararam. Secou o suor da face, ergueu a cabeça, meio desconfiado retribuiu com um baixíssimo “opa”.
Na fração de segundo em que esperei para me apresentar, ouvi o barulho de águas. Depois soube que logo abaixo em meio a mata corria um límpido riacho.
No final do dia mergulhei em suas águas cristalinas e meio frias. De dentro dele se tinha o privilégio de contemplar enormes árvores que avançavam seus galhos sobre o rio.
Onde tinha árvores frutíferas percebi que se formavam cardumes de peixes para esperar as frutas que caia e serviam de alimento.
Ali, o ar era muito puro, leve e agradável.
Percebi, nas margens, vestígios da presença humana, mas ainda assim tudo muito preservado. Moradores da região vinham a noite tentar pescar alguns distraídos jundias. Pelos pequenos detalhes percebe-se que havia sim a preocupação com a preservação ambiental.
Desculpem por fugir do assunto. Eu precisava distrair minha emoção. Só por isso antecipei estes detalhes lindos do rio Jacuí.
Diante daquele homem de traços de lutas e trabalhos estampados no rosto eu me senti um privilegiado por viver na cidade com outra família. Deveria ser muito penoso enfrentar o dia a dia desta forma.
Mas não vim até ele para voltar sem o objetivo estabelecido amplamente superado. Era preciso falar.
Olhei nos seus olhos claros cobertos por sobrancelhas enormes. Busquei em mim uma injeção de adrenalina e coragem. Olhei meus pés já marcados pela terra, respirei fundo e deixei o cheiro mágico da terra lavrada adentrar a alma.
Que esquina a vida me coloca... Pensei.
Senti que não conseguiria me pronunciar, meus olhos me denunciaram. Minha fragilidade inundou a lavoura. Ceguei por um momento.
Por sorte nada precisei dizer, Deus me poupou. Senti um abraço carinhoso enquanto escutava a frase que eu mais esperei até então:
- É você meu filho?
Pandorgas de Deus
Furou-se a bola do destino.
Calaram-se Luigi e Mário.
Aterrissou-se a pandorga em desatino.
Ficaram no quarto os monstros temerários.
O vidro ficou inteiro,
A porta não mais se abriu,
Dias tristes e sem travessuras
Depois que o menino partiu.
A grama dominou os caminhos.
Enferrujou a gaiola,
O vento soprou sozinho,
Sobrou uma mesa na escola.
O sabão não fez mais bolhas,
A tristeza fez a vida em pedaços.
Do coração caíram todas as folhas.
Faltam na alma os infantis beijos e abraços.
Fiz-te
Fiz-te em versos e poesias.
Livre, naturalmente nua.
Em delírios e fantasias
Toquei a pele tua.
Em mim deixei nascer
Sabia que seria grande.
Vinha pra não mais morrer.
Amor desejado sempre se expande.
Sonhei noites tardes e folias.
Senti dores, temores e alegrias.
Dancei valsas e tangos num chalé.
Fiz-te real como eu queria.
Cada curva que eu sentia.
Sem adeus, só um breve até.
Água doce
Da vida quero a certeza que tentei.
Que fiz o melhor que pude.
Nada mágico nesta existência.
Não busco o extraordinário.
Tenho o âmago da coerência.
O eterno está na efemeridade de um momento.
Absorvo as dores suportando calado, meus sofrimentos.
A saudade sempre superar os amores.
Se não correspondo, do mundo, os anseios,
Não trarei na minha essência qualquer lamento.
Recebo imóvel a negativa,
O não jamais será definitivo.
Conquisto um minuto de uma vida
Basta um olhar profundo e afirmativo.
No fundo do poço tem um mínimo de ar,
Com imaginação se tem praia longe do litoral.
Há sempre um dia, certamente,
Que a água doce chega ao mar.
Meu amor mora em meu ser
Num lugar que Deus abençoa.
Tenho por tudo um amor a oferecer,
Amo, acima de tudo, as pessoas.
Arranjos de algodão
Hoje quero um buquê de estrelas,
Com arranjos de algodão,
Com duas luas gigantes
E fiapos de vida em cordão.
Quero meu sonho entregar.
Falar apenas palavras breves,
Acordando sonolento escutar
A voz do amor meiga suave e leve.
Quero a luz penumbra da lua.
A brisa noturna motivadora.
Refletir a linda imagem tua,
Linda, leve e sedutora.
Minha alma na tua se espelha
Sempre meiga e formosa.
Mesmo que sejam vermelhas
Pétalas sempre serão de rosas.