E para formar o rio O sereno se consumiu Em suas margens fez brotam árvores poéticas Impregnando cheiro de poesia no ar Que acorda, desperta e aguça, em nós, o poeta.
E o sabor da poesia É saudável Palatável Colorido Incomparável.
Moacir Luís Araldi é gaúcho, residente em Passo Fundo- RS. Tem participações em várias antologias poéticas nacionais. Autor do livro Cabernet - 2013, Interlúdios - 2014, Horizontes -2019 e Charnecas floridas - 2021. Premiado no concurso Literário Cidade de Passo Fundo em 2017 e 2019 na categoria poesia. Publica em vários sites literários nacionais. Membro correspondente da ACL- Academia Carazinhense de Letras. Membro fundador da Academia de literatura música e artes (ALMA)
A casa caiu! Era o grito que mais temia ouvir. Contudo, agora era real. Ali estava. Algemado e com o rosto colado ao chão. Perto das humilhações que enfrentaria dali pra frente, capitão Nascimento se tornara humilde e doce em sua imaginação. Na cela 35 do presídio central viu-se em Dois Rios escrevendo “Memórias de um Cárcere”. Via alguns companheiros tomados por moléstias graves morrendo dolorosamente numa cela nojenta e fedorentamente úmida. A sorte estava definida. Antes tivesse conseguido se exilar em outro país da América bela e generosa. Febril e dolorido passava horas detido, literalmente, em pensamentos amenos que lhe aliviavam os dias. Dos tempos da roça trouxera tão somente cicatrizes de tocos, vara de pesca e uma antiga dívida do financiamento do primeiro e único utensilio agrícola que comprou. Com o nome registrado em órgãos de proteção ao crédito e uma vontade louca de vencer tentou de todas as formas emprego digno. Com o passar dos dias via estreitar os caminhos que julgava seriam largos naquela cidade. Escola não frequentou. Mal conheceu o MOBRAL cuja única lembrança era da professora linda e delicadamente perfumada. Por dias a fio teve a mais honesta das vontades de buscar um trabalho condizente com a sua capacidade e formação. Que formação? Dura realidade. Meses depois a bebedeira passou a ser sua segunda casa e as amizades o mais influente dos mandamentos seguidos. Pouco tempo e o grupo se formou. Queria ser Al Capone no mundo criminoso. Haveria de, junto com os companheiros, criar um plano espetacular de ações geniais, lucrativas e bem sucedidas. Contudo a panela ficou sem tampa. Agora ali preso e recrutado pelo comando vermelho, garimpava um caminho de volta a liberdade. Sonhava. Contudo não foi assim. Condenado cumpriu a pena até ser liberado para a condicional. Ao sair durante o dia entendeu que as portas que antes estavam fechadas agora passaram, também a serem vigiadas por guardas armados. A liberdade virou castigo. Nada comparada a um prêmio. Trêmulo, embriagado assassinou a história. Hoje não busca mais nada. A estrada chamada vida se tornou rua sem saída.
423
Psicóticos e insanos
Viver é lacônico, ainda assim cansa. Proliferam-se as más experiências. Infindáveis dias de constantes esperas. Justificáveis se ao final o amor prevalece.
Viver é enfrentar chuvas e tempestades. É reverenciar até quem não tem majestade. É fingir loucura na mais sóbria demência. Preencher espaço, lacunas e carências.
Viver carece de pele bronzeada. Sempre ao perdedor compete recomeçar. Fazer a história mesmo na estrada do medo. Gerir e velar versos vivendo segredos.
Felicidade é quando o amor domina sonhos. Quando mesmo distraída aceita minha flor. Divago em canções que componho. Cenários psicóticos e insanos de amor.
387
Roupa amarrotada
Atrás de mim ficou aquela porta pesada, Saindo assim até o destino me ignora. A roupa completamente amarrotada. Cabelo estabanado de quem vai embora.
Faltou o adeus, Mas evitando não se chora. Seria a despedida o pior momento Pra quem vai mundo a fora?
É permitido sentir saudade Independe se a alma chora. É possível que eu pense em você Ao menos em algumas horas.
Levo comigo a escova dental, Não quero voltar jamais. Jogue minhas juras no quintal. Vou atracar em outro cais.
302
Pensamento soprado II
Como quem sopra um balão Soprei meu pensamento ao vento. Fiquei vibrante aqui no chão Ao subir deu-me um alento.
Vai pensamento Corta os ares da cidade Siga firme em silêncio Vá, como eu, sem maldade.
Vá dizer aos sofredores De todos os cantos do mundo, Que ainda existem amores Buscando-te a cada segundo.
Vá levar a esperança, Onde impera a tristeza Leve alívio às crianças Torne farta sua mesa.
Leve uma mensagem de fé Aos descrentes e abandonados. Lembre que na baixa da maré Também podem ser abençoados.
Leve cura aos enfermos, Conforto a todos os seus. Lembre a eles que nenhum termo Supera a vontade expressa de Deus.
Leve água aos nordestes do mundo Pra colheita incrementar Umidade bem no fundo Pra vertentes brotar.
Como última missão, te peço, Leve motivo a todos os povos Pra superar os tropeços E acreditar em tudo de novo.
362
O poeta
O poeta chega à tardinha sem dizer nada. Traz nos olhos uma panaceia em elixir. Fica comigo pela madrugada. Ao amanhecer tem que partir.
Em outdoors na minha mente Espalha ideias e vontades. Consegue entender o que meu amar sente. Sabe como ninguém aguçar minha saudade.
Com ele vem só a folha em branco. Quer sorver minha inspiração. Sentamos eu e ele em algum banco. E viajamos na nossa imaginação.
O poeta é meu leal confidente. Por vezes soluçamos abraçados. Sabe o que sinto e se cala sabiamente Sofremos juntos, vivemos entrelaçados.
409
Lado de fora.
Sentei-me do lado de fora de mim. Ao relento. Ali, pensativo... Olhei-me. Olhei nos olhos da minha vida. Nos seus cabelos brancos. Como ela está envelhecida. Também refleti nela. Nada mais da criança que vi crescer. Nada mais do menino com sorriso encantador. Um restinho de sonho esquecido num cantinho. Por uma fresta pude ver morto, Um poema outrora tão lindo. Que dó! A antiga canção agora tinha uma nota só. Não vi garotas nas paredes internas. Não vi paisagens emolduradas. No vaso, flores sem vida. Um amarelado retrato partido. Poeira densa sobre os vidros. Pedaços de vida espalhados pelo chão. Sem cordas, na mesa descansa o violão. Mas algo ainda se movia, O amor alegremente respirava. Não morre o homem Enquanto viver a ilusão.
366
Pétalas
Se brincarmos que seja com nossos corpos. Que jamais se maltrate os sentimentos. Que a doçura do amor venha de dentro. Que não esvoace com o sopro do vento.
Que o amor seja eternamente livre e irracional. Sem prisão viverá feliz onde desejar. Que pouse lentamente como brisa matinal. Nas pétalas das rosas para se perfumar.
Sai de você meu verso mais autêntico e lírico. Vem como ondas leves e suaves do mar. Entra em mim quando fundamente inspiro. Encontra um cantinho nobre pra se acomodar.
Dos teus olhos vem meu intenso brilho. No teu sorriso encontro minha inabalável alegria. Tua beleza tem a exuberância e o perfume do lírio. Amor real coroando minha fantasia.
502
Sonhos
Que a certeza da morte Não sirva de pretexto. Que se morra pelos sonhos E não com eles.
Ainda que ao acordar Finde o devaneio num segundo. Que não se deixe de ancorar, A utopia de um justo mundo.
Fantasias e vida se misturam. Feito pedras e concreto. A vida tem anseios que não duram. Mesmo efêmeros, sonhar é sempre correto.
402
O pequeno criador
Quando a fêmea ficou sozinha devido à morte do macho, passou a esconder-se na mata perto de um pequeno rio de águas mansas. Todo final de tarde chegava ela. Com gestos desconfiados comia seu trato e ia lentamente desaparecendo pelo costado da cerca. O menino que lhe servia comida, muitas vezes a seguia. No entanto, nunca descobrirá onde era seu esconderijo. Tinha medo de adentrar a mata fechada e ser notado por algum animal selvagem, que segundo ouvia, seria perigoso. De manhã ninguém via a ave. O menino despertava e corria. Percorria o caminho da casa até o rio na esperança de encontrar, ao menos alguns ovos, num ninho, que pensava ele, seria bem ornamentado com folhas e palhas. Um dia a ave não apareceu para a alimentação habitual. O menino ficou preocupado. Acreditou que ela deveria ter ficado no mato devido ao cansaço que era subir a ladeira que levava à casa da família. Porém, no segundo dia ele pensou que estivesse acontecido algo de grave. Mal amanheceu o dia se pôs a procurar. Jurou que não voltaria sem descobrir o que estava acontecendo. Ouviu um barulho. Em seus olhos brilhou a esperança. Parou. Baixou a cabeça e viu por entre a mata pequenas aves. Aproximou-se. Sentiu-se muito feliz. Tentou apanhar uma, mas foi barrado pela mãe ave. Deixou todos ali e saiu em disparada. Entrando em casa abraçou a mãe. Entusiasmado pediu comida. A mãe disse que o café estava servido. -Não, comida para os patinhos. Já com o alimento para seus pequenos amiguinhos, sumiu na mata cantando e pulando. Pura felicidade. Quando chegou às margens do rio, mal pode ver aquela unida família que descia pelas águas lentas. Chorando largou a comida na água e abanou para os nadadores.