E para formar o rio O sereno se consumiu Em suas margens fez brotam árvores poéticas Impregnando cheiro de poesia no ar Que acorda, desperta e aguça, em nós, o poeta.
E o sabor da poesia É saudável Palatável Colorido Incomparável.
Moacir Luís Araldi é gaúcho, residente em Passo Fundo- RS. Tem participações em várias antologias poéticas nacionais. Autor do livro Cabernet - 2013, Interlúdios - 2014, Horizontes -2019 e Charnecas floridas - 2021. Premiado no concurso Literário Cidade de Passo Fundo em 2017 e 2019 na categoria poesia. Publica em vários sites literários nacionais. Membro correspondente da ACL- Academia Carazinhense de Letras. Membro fundador da Academia de literatura música e artes (ALMA)
Uma Gota De azul No amarelo Esverdeou. No vermelho Roxeou.
De vermelho No amarelo Alaranjou.
Multicolorida O arco íris Pintou.
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Boate azul
Romantismo nunca foi seu forte. Sempre preferiu a África selvagem a Paris romântica e bela. A beleza física é que a tornava atraente. Um corpo escultural. Equilibrado em salto agulha provocava suspiros. Uma mulher extremamente sensual e sexy. O cabelo longo não passava sem ser notado, ladeava um rosto perfeito e sorridente. As palavras lhe saiam desbotadas, quase sem efeitos. Trocou o estudo pelas aventuras adolescentes de menina rebelde. Ainda muito jovem já desfrutava de elogios e apreços generosamente sedutores. O primeiro namorado pouco significou. Não correspondia aos seus impulsos. Mas tarde ao reencontrá-lo protagonizaram um beijo tão eloquente que lembrou o casal apaixonado de Casablanca. Contudo o romance não progrediu. Assustado com o comportamento da moça o menino pego um voo e foi visto desembarcando no Charles de Gaulle. Jovem, sentia-se invencível, despreocupada e muito acima de certos valores morais da sociedade. Era linda. Sonho de consumo de muitos marmanjos. Sabia como poucas usar isso a seu favor. Assim havia quem lhe pagasse as despesas da balada, dos almoços, de pequenos luxos ostentados com orgulho. Entre romances e aventuras contabilizou lucros e perdas e considerou positivo. Amou alguns, foi amada por outros. Via isso como uma vida ótima e intensa. Mergulhada em minissaias e shortinhos extravagantemente pequenos não se preocupava com nada. Por certo sempre encontraria alguém disposto a trocar prazer por certos benefícios. Aos vinte e cinco sentiu que já não tinha mais a mesma influência junto ao seu fã clube. Teve, pela primeira vez, certo medo e uma queda na autoestima. Num sábado de outono, já quase sem amigos por perto, sentiu-se depressiva e triste. Fez sua primeira viagem de ida. Voltaram-lhe, em fantasias, as boas sensações, a alegria e a vida sonhada. A esta altura, servia seu público na conhecida boate azul. Entre risos, fumo, bebida e luzes já não mostrava o mesmo ânimo para viver. Não demorou muito para encarar o último tango da vida. Sua passagem não foi como em Ghost. Não teve beijo de despedida. Apenas partiu. A passagem tinha comprado alguns anos antes.
390
Reticências
Um grafema bastava-me. Pouca coisa eu queria. Saber que ali eu estava Enchia-me de alegria.
Uma palavra já seria até demais. Uma frase eu nem sei se mereceria. Ser estrofe? Nunca. Jamais. Muito menos ser a tua poesia.
Uma página eu ganhei. Antológico você me fez. Ali para sempre estarei. Muito mais do que sonhei.
Livro é o que hoje sou. Capa dura preferida. Um romance de amor. Uma história para toda vida.
390
Tinta
No íntimo as cores desbotando. O olhar ofuscado no labirinto. Tinta do teto no chão pingando. Pigmentando um pensamento limpo.
Sem brilho viver não é sorrir. Se não esta no olhar onde estará? Umedecida a dor começa a cair. Peito destituído ao corpo voltará?
Liberdade sem amor é prisão. É provar um veneno letal. É parada fora da estação. Alma esculpida na lápide em metal.
Desamor é placa de contramão. Entrada na via infernal. Rua sem retorno ou conversão. Ruela escura do bosque lateral.
380
Não vem
Chega, desisto de ficar esperando. Nunca mais voltarei aqui. Neste tempo que ainda tenho, Deste lugar me abstenho.
Aqui, um dia, Prometemos amor eterno, Faz tempo, eu sei, Mas isso aqui virou um inferno.
A data eu não lembro. Acho que era primavera, De flores cheirosas. De lindos botões de rosa.
Eu voltei. Você não veio. Quebrou a promessa ao meio. Não terei mais devaneios, Só eu voltei. Você não veio.
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Eu sei, mas não gostaria
Sei que quando nos afastarmos Voltarei ao ostracismo malfadado. A ele serei relegado. Não tem como ser presente Se o alimento é só do passado.
Eu sei que etapas terminam. Que gelo derrete-se em água, Que as flores efêmeras duram só um dia. Que amores mal acabados viram agonias.
Eu sei que se for falso não brilha. Que azurita nem sempre trará alegria. Que nenhum ser humano é uma ilha. Que o sonho é irmão da fantasia.
Ao começar eu não queria Que fosse finito um dia. Contudo prevalece o que é real E não o que eu gostaria.
330
Ternura
Aos poucos vou percebendo que o mundo, a cada dia, distancia-se de mim. Eu que sou meio a moda antiga. Não badalo adereços. Abro mão de usar brincos. Não acho graça nenhuma em piercing. Não penso em fazer nenhuma tatuagem. Não falo: “tipo assim,” e nem uso outras gírias da moda. Não mostro as cuecas ao me vestir. Não dirijo bêbado, não brigo em festas ou baladas, pra quem prefere assim. Eu que beijo o rosto dos meus filhos homens, que abraço meus amigos. Que ainda cumprimento as pessoas na rua, me preocupo e gosto delas. Eu que valorizo mais o ser humano em detrimento de outros valores. Escrevo louco com “uc” e não com “k”. Costumo pedir licença para entrar e dizer obrigado pelas gentilezas e favores. Ouço músicas antigas pra por a saudade em dia. Vejo fotos três por quatro de pessoas que, de alguma forma, passaram pela minha vida. Na memória e em meus álbuns, já amarelados, guardo vastas lembranças. Eu que brigo com esta máquina chamada computador. Estranho falar com este interlocutor sem reações, sem rosto, sem gestos, sem sorriso, sem cara fechada. Todas as fotos de redes sociais são de pessoas sorridentes. Sinto uma ânsia de mostrar ternura, de olhar nos olhos, de ver o semblante das pessoas, de ficar mais doce e agradável com a conversação. De demonstrar simpatia. Mas me adapto e gosto de novidades. Eu que tenho esta alma dominada e doentia em devaneios. Que romantizo as relações. Vejo presságios de amor em todas as direções. Eu que costumo pedir perdão quando erro. Admito sentir saudades, pergunto se queres contar seus problemas. Eu que quero saber onde está seu sorriso e, se preciso, faço palhaçada para que ele volte ao seu rosto. Vou à igreja, creio em Deus. Amo a natureza e convivo bem com animais. Mesmo assim, relaciono-me bem com diferentes gerações, com iguais e com desiguais, pois não é isso que uso como parâmetro para gostar de alguém. Não furo filas. Não quero vantagens pessoais. Fico fascinado com um sorriso sincero de uma criança. Emociono-me com aquele “abracinho” infantil tão terno e verdadeiro. Adoro escutar pessoas mais velhas e aprender com suas experiências de vida. Eu que envelheci junto com este mundo que, hoje parece não ser o mesmo. Quanta pressa. Quanta falta de educação no trânsito. Quanto desamor. Em fim, quanta dureza nos corações humanos. No fundo, no fundo acho que se manteve o mundo eu é que amoleci.
392
Horas paradas
Não é falta de vontade Se as horas estão paradas. Isso se chama saudade De cenas na mente conservadas.
Esta música que te põe em agonia, Não foi feita pra te fazer sofrer. É pra trazer alegria E irrigar um bem querer.
Vista de vez a vontade de ficar, Umedeça este jardim em flor. Teu corpo pede pra deitar. Permaneça morando neste amor.
332
Sonho II
Do sonho que acordo Desperto um desejo. Vontade de morrer Ou de ganhar um beijo.
341
NEM SEI
Construí imaginários sobrados, Os mesmos antigos. Enormes abrigos. E fiz jardim Ao fundo. O mundo de branco, Pintei. E te encontrei Entre cervejas Que foram abraços. Foram beijos e desejos. E te paguei. Quanto? Nem sei. E agora, Estou envergonhado. Por ter comprado O que não dei.