Barganha
Eu sempre desejei que os abraços fossem apertados.
Que os sorrisos fossem sinceros.
Que as despedidas fossem exterminadas.
Que o tempo não fosse contado.
Que a corrida não fosse só para a vitória.
Que não se fizesse só pela história.
Que coisas ruins saíssem da memória.
Que todos merecessem a glória.
Tudo o que eu mais quis.
Que toda pessoa pudesse ser feliz.
Que só existissem balas de anis.
Que a fé não precisasse remover montanhas.
Que as medalhas não fossem apenas para quem ganha.
Que todos, na vida tivessem o poder de barganha.
Na próxima página
Manuseio com o cuidado de quem ama.
Folha por folha. Uma por vez.
A formiguinha do Quintana.
Encontrarei logo ali, talvez.
A próxima página tem um grito.
Um risco. Um rabisco. Gerúndios.
Olhos espiando, café esfriando.
Um poeta aflito gestando.
Tem a ilha querendo sair.
O rio que entra no mar.
A lua começando a surgir.
E um beija-flor no pomar.
Vinícius compondo sonetos.
Olavo ouvindo uma estrela.
Carlos e seus anjos tortos.
Em Pasárgada, amando, Bandeira.
Dias escutando o sabiá.
Drummond consolando José,
Nos versos íntimos Augusto.
Na bola! Adivinha que é?
Romeu acariciando Julieta,
Titanic começando a afundar.
A baderna do boi da cara preta.
E um sofá pra Beethoven sentar.
Mona Lisa sempre sorridente.
Letras de poetas expoentes.
Comédia divina de Dante.
O Quixote Miguel de Cervantes.
Não sei o lado certo onde esta.
Com a mania que até hoje tenho,
De traz pra frente venho
Folhando de lá pra cá.
INCÊNDIO EM SANTA MARIA
O Rio Grande morreu hoje.
Não liguem pra cá.
Não tente encontrar ninguém.
O Rio Grande parou de respirar.
O estado inteiro sucumbiu.
Estamos todos no chão.
Morremos com nossos irmãos
No peito dos gaúchos não bate mais coração.
Que bom seria
Que bom seria se as segundas chances fossem reais.
Se os amores fossem imortais.
Se os pecados não se tornassem imorais.
Se os reencontros não fossem banais.
Que bom seria se a vida fosse de paz.
Se não quiséssemos deixar os outros pra trás.
Se de perdoar todos fossem capaz.
Se a fraternidade prosperasse cada vez mais.
Que bom seria se só tivéssemos alegrias.
Se o sofrer fosse abortado em cirurgias.
Se a felicidade viesse numa magia.
Que bom seria se o mundo fosse de igualdade.
Se o respeito existisse em qualquer idade.
Se o ser humano se despisse de falsidades.
Rabo de tatú
Vindo de onde venho,
Na peleia me garanto.
Medo é coisa que não tenho.
A chinoca soluçava em prantos.
Pendurei o meu chapéu
O peão parecia um réu,
Pressentiu minha embretada.
Já estava na minha mira
E a camisa esbranquiçada,
Tecida de caxemira
De sangue ia ser manchada.
Pra não fazer muito escarcéu
Olhei pra cara do réu
E disse num verso só
De malandro não tenho dó,
Se te levo pros cafundós
Nunca mais verás o sol.
Não que eu tenha grande valentia,
Mas nem olhe pra esta guria.
Se quiser ter outra chance,
Antes que eu te desmanche
Dá no pé desaparece.
Só deixe pra traz a poeira
Vá pulando a porteira,
Pois pra metidos como tu
Que não me cai em simpatia
Que fica azarando as gurias
Dou de rabo de tatú.
Sou de coração grande
Mas avesso a desaforo.
Já distante, vi que me ofendia,
Juntei na rédea o meu moro
Que só de me olhar arrepia
Seguido por dois cachorros,
Quanto mais ele corria
Mas corria meu matungo.
Soltei de vez os caninos
Só escutei o estouro
Quando no rio molhou o couro.
Os meus cães não recuaram.
Nadando também se foram.
Deixei o pingo beber água
Se refrescar um pouco.
Só fiquei esperando
Cada cão trazer um osso,
Desse índio tosco
Que entrou onde não devia.
Voltei num trote pra onde estava
Com a certeza da coisa certa.
Pra esta gente que se acha esperta
Isso serve de alerta
Não tente puxar a coberta
De gaudérios como eu.
Vou encurtar, pois não minto.
Vivi feliz com a guria
Que aquele loco queria
Pra ser sua companhia.
Os cachorros já se foram
O moro também partiu
Mas quando dou uns assobios
Escuto latidos e um relinchar de cavalo,
A lembrança da chinoca,
Da memória não sai
Ela esta junto do Pai,
Mantendo as porteiras abertas
Pois lá chegarei... Na certa.
E digo, com toda a franqueza,
Sem isso tudo que eu tinha
Às vezes sinto até pena
Do peão que estraçalhei.
Não sei quando partirei
Mas pressinto que esta perto.
Não quero levar tristezas.
Vou perdoar o xirú
Pendurar o rabo de tatú,
E os ossos que guardei,
Num gesto de nobreza
Vou enterrar na natureza
E até uma oração farei.
Olhos machucados
Vi que olhos arregalados me fitavam.
Deles demandava uma frieza nunca vista.
Fixei meu olhar por um instante,
Vi que estavam distantes.
Olhavam-me ao léu.
Olhar triste de partida.
Portas opacas do inferno.
Em nada lembravam o céu.
Olhos malvados.
Machucados.
Desesperados.
Olhos apaixonados?
Olhos d’água.
Com olhar de águia.
Olhos com água.
Com olhar de mágoa.
Um olhar de tantos olhos,
De histórias não contadas.
Tristes olhos sem brilho
Na despedida brotaram em lágrimas.
O pequeno criador
Quando a fêmea ficou sozinha devido à morte do macho, passou a esconder-se na mata perto de um pequeno rio de águas mansas.
Todo final de tarde chegava ela.
Com gestos desconfiados comia seu trato e ia lentamente desaparecendo pelo costado da cerca.
O menino que lhe servia comida, muitas vezes a seguia. No entanto, nunca descobrirá onde era seu esconderijo. Tinha medo de adentrar a mata fechada e ser notado por algum animal selvagem, que segundo ouvia, seria perigoso.
De manhã ninguém via a ave. O menino despertava e corria. Percorria o caminho da casa até o rio na esperança de encontrar, ao menos alguns ovos, num ninho, que pensava ele, seria bem ornamentado com folhas e palhas.
Um dia a ave não apareceu para a alimentação habitual. O menino ficou preocupado. Acreditou que ela deveria ter ficado no mato devido ao cansaço que era subir a ladeira que levava à casa da família. Porém, no segundo dia ele pensou que estivesse acontecido algo de grave.
Mal amanheceu o dia se pôs a procurar. Jurou que não voltaria sem descobrir o que estava acontecendo.
Ouviu um barulho. Em seus olhos brilhou a esperança. Parou. Baixou a cabeça e viu por entre a mata pequenas aves. Aproximou-se. Sentiu-se muito feliz. Tentou apanhar uma, mas foi barrado pela mãe ave. Deixou todos ali e saiu em disparada. Entrando em casa abraçou a mãe. Entusiasmado pediu comida. A mãe disse que o café estava servido.
-Não, comida para os patinhos.
Já com o alimento para seus pequenos amiguinhos, sumiu na mata cantando e pulando.
Pura felicidade.
Quando chegou às margens do rio, mal pode ver aquela unida família que descia pelas águas lentas. Chorando largou a comida na água e abanou para os nadadores.
Cafeteria
Percebo, a esta altura, que devo dar novo foco a minha vida.
O tempo me fez ter outra visão do mundo.
Não quero aquilo que não sou. Não me interessa viver de aparências.
Busco, neste momento, ser eu mesmo. Simplesmente eu.
Vou olhar a vida por todos os lados. Não só de frente.
Viver cada dia como único sem culpas internas e sem espaço para o pessimismo.
Minha força interior vai me erguer quando for preciso e, a paz que tenho comigo vai me conduzir sem sustos.
Saberei lidar com pessoas negativas de energia baixa e,P manterei minha mente distante das maldades deste planeta, pois, só assim, serei feliz com minha consciência.
Meu coração, clinicamente, sofre, mas vou controlar as emoções que lhe repasso para que suporte só o fundamental.
Até hoje busquei a excelência em tudo. Isso, como não opcional.
Agora chegou o momento de mandar pros ares manuais, cartilhas, regras, metas e objetivos que não servem pra nada.
Não vou mais chegar na hora.
Propositalmente sairei sem explicar só para ir até à cafeteria.
Quero cantar parabéns. Abraçar os chatos. Beijar os feios. Almoçar com mendigos. Comprar de ciganos.
Dormir em hotéis baratos.
Rodar em estradas de chão.
Quero banho de riachos, fogo de chão, camisa suada, fogueira de São João, restaurante e motel beira de estrada.
Quero os amigos de fé, baladas em cabarés e, com sorte, carinho de mulher.
Dizer que gosto só para quem, de fato, gosto.
Degustar muito lentamente cada fração do amor e da sobremesa.
Andar a pé em meio à natureza.
Curtir a alegria e conviver com as tristezas.
Na memória manterei só as fases boas da vida.
A lembrança dos bons amigos e amores. Estes nem o tempo nem à distância apagará. Emoções inigualáveis, registradas as demais não são essenciais.
Quero brindar, não aos melhores nem aos piores. Todos, neste mundo, somos bons e ruins. Brindar sem motivo, sem data especial sem nenhuma razão.
Brindar o reencontro. As chegadas. As partidas.
Brindar apenas por brindar. Brindar aquilo que de mais importante temos: Um brinde à vida. Um brinde, MINHA VIDA.
Beija-me
'Da vez primeira em que me assassinaram
perdi um jeito de sorrir que eu tinha...'
Mario Quintana
Debruço nos joelhos a dor da perda.
Na pedra fria faço orações.
Beijei-te no último adeus.
Chorei a perda
Do colo amigo, do meu abrigo.
Da proteção.
Mãe,
Deus te levou.
Fiquei aqui
Pensando em ti,
Reunindo forças para seguir.
O segundo domingo de maio,
É o mais triste do calendário.
À noite,
Vou adormecer pra
Sonhar com você.
Quem sabe assim,
Encontrarei de novo,
O sentido de viver.
Talvez eu ganhe teu beijo
Como na vida,
Que era inteira
De qualquer maneira,
EU AMO VOCÊ.
Porta-malas
Primeiro eu bebia minhas tristezas.
Hoje sou abstêmio.
Depois eu as fumava.
Sou ex-fumante.
Então passei a comê-las.
Fui pra dieta.
Jogava.
Parei.
Agora as absorvo.
Não tenho mais fuga.
Coloco-as no porta-malas da memória
Em pequenos pacotes assim
Atrapalham menos e
Fica mais fácil levá-las comigo
Sem que sejam notadas.