Lista de Poemas

O sol e a lua

Com o escuro da noite
A paisagem enegrece,
Mas seus raios cristalinos
Aos poucos aparecem.

O manto negro se desmancha
O astro rei vem à tona,
Enche o dia de relíquia
Seus raios de ouro ele aplica.

A lua, rainha da noite,
Pelo rei sol se apaixonou,
Deste amor brilhante
Muita estrela resultou.

Neste casal liberal
Os dois têm seus direitos.
E para dividirem o trabalho
Não tinha outro jeito.

Combinaram de acordo
Que o sol iluminaria o dia.
E a noite, sem compromisso,
A lua apareceria.

352

Um minuto de angústia

Nestes dias em que a chuva teimosa umedece a rua, fico a observar as pessoas correndo, lamentando os pés e a roupa molhada, o atraso, a possível gripe.
O céu parece enraivecido, todo coberto e fantasiado de negro. Aqui debaixo o fitamos no desejo de ver o sol, todo poderoso, penetrar nele, rasgando a máscara e alegrando os seres terrenos.
Neste vago cotidiano, onde nós, frágeis humanos buscamos dia após dia, um lar, uma casa para morar, e ver na vidraça as gotas caindo e ficar ao redor do fogo aquecendo e alimentando a esperança, qualquer que seja, contida em nosso interior.
Mas quando a água é demasiada, chega até nós um medo, um pavor, uma insegurança e, em nossos assombros vimos muros caindo, casas desabando, pessoas fugindo de barco, outras morrendo afogadas.
É tempo de cheias, de barro bastante, mas até mesmo nestas épocas há muitas pessoas completamente vazias. É bom, mesmo assim, sentir a emoção de ver uma criança pisar descalça no atolador da estrada, ver o velho evitar a rua. É agradável fechar a porta quando a noite chega e adormecer, ouvindo o ruído lacrimoso das goteiras. Há os que nem dormem preferem acalentar noite á dentro, um sonho qualquer, mas que, necessariamente não se pode dormir. Seria ótimo ter certeza que, com chuva ou sol, o dia seguinte fosse de igualdade, de justiça e de realizações.
Neste dia chuvoso me deparo acidentalmente com uma cena angustiante.
Eu ia para casa, de certa forma, realizado, porque chovia. Na calçada, vi em minha frente, um corpo adormecido, exalando um cheiro forte de álcool. Pensei no conforto, na alimentação, naquela sensação gostosa que sentimos quando acordamos de madrugada com frio e reforçamos as cobertas. Pensei que ele era gente que vivia como bicho, lembrei-me dos muitos animais, por nós alimentados e cuidados com tanto zelo, enquanto nas calçadas fétida seres humanos são pisoteados e servem de alvos para gozações.
Naquele instante tive um ímpeto de pena, mas fui incapaz de fazer algo, me faltaram gestos e até as palavras.
À noite sonhei que junto à chuva havia uma suave melodia e todos compreendiam que os homens sobrevivem a tudo, exceto a solidão das noites e a consequente falta de afeto. No outro dia tudo continuou igual. Mas de sonhar ninguém por mais influente que seja, irá me proibir.

359

Você

Quando amanheceu dei-me sem rumo,
Desnudo de qualquer amor.
Meu grito poético sem prumo
Tomado por súplicas de dor.

Onde guardarei os versos que pra ti compus?
Que me deixaram rouco de te querer.
Pra que lado sopra o vento que me conduz?
Onde você foi de mim, se esconder?

372

O SEQUESTRO

Após o sequestro fui roubado.
Levaram-me a vontade de escrever.
As rimas.
Os versos.
O poema da poesia.

Dureza foi ver a inspiração
Sendo carregada sem dó.
Eu que a preservava tanto.
Mas eles, pra meu espanto.
Consumiram-lhe em uma vez só.

Meu último poema
Foi arrastado ainda inconcluso.
Puxaram-no pela perna.
Ainda estava tão frágil,
Tinha versos pela metade.

Sem título definitivo.
Não entendo tal maldade.
Um bebê em gestação.
Rodando pela cidade.
Que ato de crueldade!

Não existia motivo.
A maior atrocidade.
Nunca saberei a razão.
Despi-me de vaidades
Pra fazer o pedido de prisão.

Por favor, prendam estes bandidos.
Eles foram muito ousados.
Levaram um poema inacabado.
E mantiveram o poeta silenciado.

Pensando por outro lado,
Talvez nem sejam tão culpados.
Eu tenho sido descuidado,
Ando muito distraído
Melhor perdoar estes indivíduos.
285

Um minuto de loucura

Perdi a conta
De quantos sou.
Sem ter verdades
Os olhos cegam.
Carrego este tormento
Este esquecimento
Psique avançada.
Não sei das horas
Não sei das datas
Nem das tristezas
E das alegrias.
Perdi-me tudo.
Fiquei sem lar.
Caí no mar.
Naufraguei
Flutuando encontrei
O que nem sei
O que não sou.
Aviões dourados
Trens zunidores
Mosca atrevida
O sapo na lata
Pirâmide branca
Não vou tomar este comprimido.
311

Observante

Espio pela janela,
Coberta pela cortina telada
E vejo ao longe, pés enormes de figo.
Por entre eles desce uma
Pequena estrada em forma de meia lua.
À direita segue uma tira de mato
Como um satélite que se alonga.
Ah, antes que eu esqueça.
Acima. Muito acima.
Está o céu, parcialmente nublado.
289

Fim do mundo

Fim do mundo

De todos os fins de mundo que já participei, este é o mais comentado. Vai ser muito bom. Contudo, tenho certeza que o próximo será ainda melhor.

253

Mulher

Quero uma mulher
Linda ou não.
Que me ame de montão.
Que me receba
Enrolada de banho.
Que corra ou fique,
Tudo depende.
E que me entende
Quando a noite
Chego atrasado.
Que de manhã,
Cabelos molhados
Manda-me embora
E depois chora.
Que seja assim:
Metade dela
Metade de mim.
330

Suco de maça

Aquela noite não quis sair. Preferiu ficar no aconchego da casa.
Na rua só fatos rotineiros, nuvens pesadas escondiam a lua, pela qual tinha grande atração.
Nos bares em frente a sua casa, os amigos riam e bebiam em mesas colocadas sobre as calçadas. Cenas absolutamente rotineiras. Na sua solidão fitava a rua pela janela de vidro e mantinha-se atento ao telefone celular. Como não surgia a tão desejada ligação resolveu fazer um suco. De maça. Se sua amada estivesse ali diria que era da fruta proibida. Sempre era assim. Esta insignificante lembrança deu-lhe certo alívio e conforto.
Gargalhou da própria sorte. Fechou os olhos e deixou rodar na memória os mais belos momentos que junto passaram.
A rememoração do perfume dela enchia a casa de certo cheiro de saudade. Mas o telefone permanecia mudo e aquilo o angustiava. E aquela voz que o faria feliz não era ouvida.
Só uma ligação e bastava.
Contudo o dia amanheceu. O telefone não tocou. Ficou aquela lacuna sem ser preenchida.
Na noite seguinte quando ela chegou e perguntou se havia esperado muito pela ligação, orgulhoso, mentiu que tinha dormido cedo.
Assim teve uma noite perfeita.
Dessas que valem por uma vida.

346

Hemisférios

Meus hemisférios diferem entre si com muita clareza.
O norte é durão.
Odeia as convenções sociais, os bons modos e gentilezas.
Adora destruir o inimigo.
Golpeia com força para danificar o mais que pode.

O sul é doçura, é ingenuidade é amável em qualquer situação.
Tem bons modos é gentil. É prestativo, está sempre disponível.
É de uma ternura invejável.
O sul ama as pessoas.

O norte é possessivo, grosseiro.
É egocêntrico ao extremo.
É cheio de paranoias.
Estressado, violento e nublado.

O sul é humilde,
Relax, límpido e ensolarado.
Ah... O sul.
O sul é um amado.
332

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Moacir Luís Araldi é gaúcho, residente em Passo Fundo- RS. Tem participações em várias antologias poéticas nacionais.
Autor do livro Cabernet - 2013, Interlúdios - 2014, Horizontes -2019 e Charnecas floridas - 2021. Premiado no concurso Literário Cidade de Passo Fundo em 2017 e 2019 na categoria poesia. Publica em vários sites literários nacionais.
Membro correspondente da ACL- Academia Carazinhense de Letras.
Membro fundador da Academia de literatura música e artes (ALMA)