Nabelle

Nabelle

Ainda é cedo, amor.

n. 0000-02-20

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Ternura ilusionista.

Jogada aos cantos do meu quarto que parece preencher todo o abismo de meus pensamentos, sem ter ideia de onde está à parte frágil do meu eu. Sinto-me tão sozinha. Sinto-me tão desnecessária. Apego-me apenas no sereno das noites que cai perante meus olhos e me traz um minuto de tranquilidade. Se ao menos pudesse ter um manto de imunidade em que sugasse aos poucos as tristezas que em lágrimas se acumulam em mim. Busco incansavelmente um lugar seguro em olhos que me rodeiam, mas o que fazer quando o refúgio que há em mim clama pela tua imensidão? A incerteza de um futuro junto a ti me enforca aos poucos e o medo da perca acaba sendo meu suspiro final. Desacostumei com sua ausência. Não quero acostumar-me novamente. Quero acalentar teus ferimentos e embalar-me em teu riso. Quero um nós tão musical que em linhas e estrofes confundem o mundo exterior e nos faz caber em um só peito. Desejo apenas participar do sonho em que encontro meu tão esperado chamego.

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Poemas

21

Jogo das palavras.

Cavalo - Marieta - Mesquinho - Carrasco.


Do cavalo, guardo os passos severos e precisos. Do olhar de Marieta, levo o brilho da lanterna que me assegura e me livra do escuro. Não me iludo. Pessoas e seus caracteres mesquinhos lavam as almas aprisionadas nas núpcias da solidão. Dos sentimentos faltosos do carrasco, carrego apenas a frieza. E do meu eu? Ah, retiro a leveza das folhas a cair no outono frio de meus dias.

451

Lembranças de um anoitecer.

Aquele delírio irreprimível, rogando pelos teus segredos. O encostar de teu lábio, sucumbindo o menor do espaço que ficou entre nossos corpos. Fazendo-me revirar os olhos a cada suspiro. Teu corpo dentro do meu, criando melodias nos movimentos de meu quadril. Desprezando todo o vazio e importando-se apenas com o teu entrelaçar. Vira, sobe, deita. Teus atos desarmando minha prudência com o perigo que me deixa cada vez mais excitada. Molhada com teu suor, lavando a alma em teus braços. Largando de vez a razão e me arriscando no oceano de teu prazer.
535

Abstrato ébrio.

Abstratos de nós mesmos

Desenhos dos caos da cidade

Sentimentos ignorados

Olhares desprezados

Arrepios disfarçados

As linhas do andar que carrego

Desnorteando os caminhos que penso em seguir

O além, autor de minha história

Alinhando os sentidos

De meu proibir

O contorno dos cabelos ao enrolar minhas palavras

Desorganizando o organizado sopro

Que me afoga em dias

Onde nem o paradoxo me livra

A lua

Que procuro em galáxias de olhares

Que nem ao menos mostram

As estrelas que escondem

Os sorrisos de cada face

Sereno das noites amáveis

Que formo o maior dos rios

Secados com o branco das fronhas

Apartando-me dos males

Descartando meu lado mais sombrio


Serei eu, dono dos meus sentidos

Ou apenas

Um personagem qualquer

Nas linhas tortas que um escritor embriagado

Ousou rabiscar.

573

Delírios vermelhos.

Sangue do sangue, mas meus olhos teimam ao contrário. Errado pelos olhos de qualquer um, menos pelos meus. O desejo pelo incorreto.

Quero sentir teus dedos como uma tatuagem a contornar minha pele marcando o meu incontrolável tentar por um simples ato do querer. Olhos nos olhos, apenas isso. Em um momento de fuga, me entreguei em teus braços embriagados.Pra ti, só mais uma. Pra mim, um pouco mais que isso.

Uma paixão guardada que desperta toda vez que te vejo. Como abrir mão dessa fissura na qual o que mais quero é fugir? Esqueça o preconceito pelo sangue.

Se te quero homem,faça-me mulher.

430

Indeterminado.

Indeterminado momento esse em que te faço protagonista de minhas cenas de paixão e drama. Momentos que me desvio do real, olhando as linhas que contornam teu ser e tua personalidade. Bonito és, figura marcada em meus sonhos. Carência não suprida. Deito-me no passar de tuas histórias,fazendo-me figurante mal comido. Masturbo minhas ideias obrigando-as a te seguir. Mastigo meu rumo indeterminando o prosseguir.

487

A tal Aurora de meus poemas.

Os fios de teus cabelos negros que são os únicos com o poder de acalmar minha sede pela ira das manhãs chuvosas e sem sentimento. O batom vermelho que sisma em desenhar tua boca carnuda desejando apenas um café e meio amor. Meio amor? Te preencho aos poucos com o pouco de amor que encontro em cada objeto que encosto. Minhas palavras se tornam poesia quando digeridas por tua audição aguçada. O maior amor do mundo transformado em pessoa, ou melhor, em uma única pessoa. A menina que transforma os minutos em que me perco em melodia.

Observando cada ato que te faz a Aurora de meus passos, me perco e me encontro numa passagem de segundos em que não aprendi a dominar. Nem o mais escamado dos felinos tem a audácia de fugir dos teus abraços que transmitem a áurea de tamanha luz que te faz meu portal para o além. Minha respiração sendo apenas sua.

Não me leve a mal, amo até a cinza desprezada dos cigarros que se suicidam no calor de tua saliva. Amar-te não é uma opção, sina conhecida como proteção que me guarda e diz 'apenas ela é capaz de te fazer feliz'.

467

Sobreaviso.

Vou remar sem receio de perder o juízo

E mergulhar aos poucos em teu paraíso.

Não se apavore, dona

O assombro é impreciso

E o destino imprevisível.

597

Querido, ão.

Me anular não é uma opção

Sentir a acabrunha de um novo perdão

Não cabe mais a mim, me envolver nessa imensidão

Sem que a solidão

Não triture aos poucos o que resta de um coração

532

Seis horas.

Que sua voz seja mantida em mim para sempre.

Me pego tendo pensamentos insanos e involuntários que me rasgam por dentro, pensamentos esses que te escolheram como protagonista de suas histórias. Se hoje posso nomear minhas lágrimas e senti-las como um doce veneno que me indispõe de toda sensatez e lucidez, posso agarrar-me em sonhos que um dia me sucumbiram e me rechearam da única esperança que sobrava nesse universo confuso que posso chamar de vida. Neste labirinto, onde o único objetivo é encontrar apenas uma sombra desse teu corpo que me tira por instantes da racionalidade e não me obriga a voltar. Se ao menos pudesse sentir o teu suspiro por só um segundo,sentir o desejo tomar conta de cada centímetro de meu corpo que já não sinto mais.

Os dias passam vazios, sem objetivo algum. Apenas me lembrando das horas que já não posso mais controlar, os quilômetros que não posso percorrer e o instante que não posso pausar. Ainda lembro-me do toque de sua mão gelada em meu rosto e do calor dos teus lábios vermelhos ao beijar minha boca que ansiava por um pouco mais de atenção. O leve abrir de teu sorriso que me diluía por dentro, me fazendo submissa de teus anseios. Envolvendo-me nesse laço que nem o tempo consegue desfazer.

Um alguém, outro alguém, cujo nome me fere como a dor de uma faca entrando lentamente no pouco de corpo que ainda me resta, tem o privilégio de receber todos os afetos e sentimentos que me pertencem. A palavra a se usar seria egoísta? Ego de mim mesmo, apenas querendo pra mim quem é meu por direito. O loiro dos cabelos que deitam em sua cama todos os dias e tentam te convencer sobre o verdadeiro sentido do amor. Como se amar fosse simplesmente sentir. A dependência por outro alguém que não está em suas mãos.

Meus sentidos protestam pelos teus.

Faça de meu amor tua morada, entra a hora que quiseres e preserve tuas paredes para que todos os dias você possa chegar e derramar teus prantos sem receio algum. Envolva-me nesse teu amor que me faz refém todos os dias e me guarde em teu peito.

E aí, será que você volta?

Espero-te.

Para sempre sua, Isabela.

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Íntima aversão.

Tuas promessas escorreram ralo a baixo e minhas expectativas já estão em uma boca de esgoto qualquer. Perdoa-me as palavras, meu desgosto clama mais alto e despreza a ampla ignorância de que és dono e sua admirável capacidade de conseguir se acomodar nesse teu mundo que te engole e te faz o humano mais mesquinho em que já ousei mencionar o nome. Pra mim, só resta à inexistência. Textos,versos e prosas derramados nos boieiros que escondem tudo o que há de mais sujo.Vejo-te como uma puta vencida que nem ao menos tem coragem de implorar por um sexo sórdido qualquer. Servia-me a você como um banquete e hoje, não resta nem a migalha do pão velho que esqueci no fundo do armário. Não vejo mais um cisco das cinzas que restaram da nossa grande chama que muito fiz pra manter acesa. Dor e cansaço foram o que senti numa manhã em que despertei aflita, vencida. Com grandes náuseas me calei. Pra sempre. A idolatria pela lubricidade e pelo vulgar faz de você indigerível e vomitável. E nem uma estrofe banal te salvaria desse grande mar de desventura que ao menos anseia pela abolição de tua tão adorável história.

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