bem estar que me leva ao orgasmo..
quando escrevo, há sonhos
que se concretizam,
desejos que se amenizam
e minha esperança é a janela
de onde avisto a saudade passada
e futura
é o tudo e o nada
e as palavras recaem sobre ela
com formas de ternura
e a voz duma vida inteira
quando escrevo dói-me a alma
e ao fim duma tarde de canseira
volto atrás, procuro no entardecer
a calma
faço-me gaivota de novo em vôo
ah...se pudesse voltar além!
se pudesse ir mais aquém!
da criatura que fui e sou...
mas é tarde e a escuridão
apaga em mim os passos
abafa o soluço vindo do coração
tolhe-me as mãos e os braços.
quando escrevo há segredos
nos meus dedos,
iniciam a escrever em liberdade
letras de fogo de fé e saudade
tombam porém em chuvas de loucura
escrevem e dançam
uma dança de amargura
a tudo alheios
à hora, ao instante, menos às lembranças
que estão presentes em abastança
agora e sempre plenas de esperança
quando escrevo, sou como a rosa rubra
que exala o odor,
aguardo a palavra que espero
livre
autêntica, que vibre
com paixão e amor...
quando escrevo o passado
surge iluminado
e o céu, o meu céu aqui...
mesmo ao lado
e ainda que me perca no futuro
e veja tudo em mim escuro
não me amarguro
porque me sinto maior
que o tamanho dum sonho
quando escrevo há um mundo
de felicidade
um bem estar que m' leva ao orgasmo,
me põe um brilho no olhar,
um sabor doce na boca
logo tristeza é coisa pouca!
e as lembranças são viagem
na praia do meu pensamento
num vai vem surgem agora
pra logo irem embora,
estendo o meu lençol de luar
e escrevo até cansar...
breve tomarei o meu lugar
para lá da curva
onde a vida me irá entregar
a mim, águia nascida para voar.
natalia nuno
bálsamo do tempo...
a saudade traz o bálsamo do tempo
antigo, mergulho nela sem rumo
às vezes recua delicadamente
e a vida esvai-se em fumo.
em cada poeira varrida do nosso olhar
agitam-se as flores a cada momento,
sem nenhuma murchar,
esperança mágica, que nos afaga
o pensamento.
vazia de palavras, meu corpo já se rende
vergada ao fim do dia,
a luz fluindo na memória ascende
o sol é meu confidente
tudo é a meu favor
a beleza da tarde envolvente
e o vento ainda volteia no ar,
a memória de acordes a transbordar
e mais um dia a deixar saudade
e o sonho que eu amava?
será só ingenuidade?!
nada tão doce como o primeiro ardor,
estremeço, só de pensar
- nesse tempo d'amor.
natalia nuno
sei o que quero dizer...
palavras hesitantes
versos mal feitos
mãos sem entusiasmo
sempre a piorar,
agonia nestes instantes
o coração a querer tudo
impedindo-me de rir ou de chorar,
tudo acha justo e injusto,
o pensamento parado
e o tempo, sem parar...
além rio vejo a colina
e um carvalho centenário
relembro o tempo de menina
e viro a página ao calendário
o tempo é escasso
não quero acelerar o passo,
sei o que quero dizer,
mas não digo
para não enlouquecer,
pela tarde houve sol
agora surgiu o vento,
acalmei meu pensamento
e a desordem do coração,
trago na mão
o peso da hora...
a terra que amolece,
a noite que enlanguesce,
meus sonhos em fiapos e,
as esperanças em farrapos,
a um verão curto
um outono prolongado,
um mar agitado,
estrada escorregadia,
ah!...mas aguardo com ânsia
por um novo dia.
os pássaros entoam hinos de vida
e eu sou de novo riso e canto
extasiada olhando as águas
embevecida
com o encanto
embriagador
desta manhã de seda pura
onde o tempo me faz promessa
de amor,
neste dia que começa...
natalia nuno
tudo se me escapou...
já o sol partiu do jardim,
não encontro em mim
aquela vontade... o pensamento
se esquiva, meu voo é curto e fatigado
a esperança é o fio a que me atenho
e para que viva...
a saudade de onde venho.
voam os pardais de asas empapadas
trago no rosto o final de Agosto
o destempero do tempo
e as marcas pesadas,
já me apresso
antes que o tempo me consuma
à vontade já nada peço
o fogo é extinto, nem passado
nem presente, nem coisa alguma
tudo se me escapou
nada volta ao meu peito, nem o vigor!
resta-me a paz e o rôr de horas
em pensamentos vãos
até que as palavras me voltem às mãos...
natalia nuno
As paredes de minha casa...
Agora sei do meu lugar
depois de tanta recordação amontoada
dos sonhos que trago do alvorar,
da palavra espantada, exaltada,
do fio do meu pranto
sei do meu lugar.
Este lugar de vã canseira
onde as mãos não param de se agitar
onde surge a palavra desesperada
e os primeiros esquecimentos,
aqui é o meu lugar...
antes que tarde seja
aqui deixo meus pensamentos.
Este é o meu lugar
onde ressuscito memórias
e conto meus dias no mundo
nada, nada depois que a vida acabar
eu posso como agora procurar,
no meu eu mais profundo
aqui, agora é meu lugar
Esta mão que escreve sabe,
que este é o seu tempo e seu lugar
até os olhos terem vida
e enquanto a morte apenas farejar.
Este é o meu lugar
onde me deixarei adormecida.
natalia nuno
perdida de mim...
perdi-me de mim não sei
só a saudade vem dizer-me
que perdida d'amor me deixei
dia a dia a esvanecer-me.
para mim não existe o hoje
sem tua boca por perto,
o amor traiçoeiro me foge
ergo o sonho, mesmo q´ incerto,
assim ora cantando, ora chorando
tal como dia e noite chora a fonte
pobre louca...
o pensamento delirando
p'lo amor que anda a monte,
sonhando, sonhando,
com beijos da tua boca.
falo com sinceridade
acredito a toda a hora
vem dizer-me esta saudade,
dos suspiros que em minha alma aflora
trago o meu sono sem sonhos
e o rosto sem alegria
os pensamentos medonhos
vagueiam, numa nuvem alva e fria
chegam a mim nostalgias
difíceis de apagar,
passam noites passam dias
sem sono
- olho a estrela polar...
quero escrever um verso mais perfeito
para lembrar o tempo atrás
ao encostar-me ao teu peito
que tão saudosa me traz.
morrer d'amor pouco importa
desfalecer nos teus braços
antes querer-me assim morta
que não ter os teus abraços.
natália nuno
pensamento....
quebraram-se as nuvens, o chão ficou molhado de giestas, imóveis os pássaros no vidro quebrado dos meus olhos permanecem ainda na memória d'outras primaveras...
natalia nuno
http://pensador.uol.com.br/colecao/nataliarosafogo1943/
tempos de engano...
continua o vento...
dá gosto ouvi-lo forte nos pinheiros
agora mais lento sobre os cardos roxos,
piam os mochos...
o tempo a fugir e o vento a rugir,
a água dos olhos a verter
e a esperança a querer morrer,
vai o pássaro voando do seu jeito
vai a vida fugindo-me do peito.
é tal o movimento da ave no ramo
que seu canto parece pedir piedade
pedindo paz ao vento,
também eu clamo
mente solta... quero liberdade!
já não há vento que me atormente
nem pássaro desolado a fazer-se ouvir
nem mal que em mim assente...
o vento está de partida,
esquecida de mim, pensamento vazio
olvido a vida, que a vejo a levar-me,
nada, ninguém pode ajudar-me
só não me priva a doce esperança
e o doce amargo da lembrança
natalia nuno
o poema...
poema dirige-se a toda a gente
não traz com ele estranheza
dialoga com o passado docemente
e afirma estar vivo de certeza
por vezes conta uma história
e alarga-se até ao infinito
a partir do vivido a memória
molda, o poema q'nasce aflito
as palavras o vão polindo
cresce o poema com precisão
e como flor se abrindo
-nele o Poeta põe alma e coração!
natalia nuno
neste mar embalador...
não sei das ondas que hão-de vir
nem sei para onde me levarão
mas se o coração partir
nem mais um ai me ouvirão,
ando neste mar infinito
ondas vêm outras vão.
em vão contra a tempestade
com o coração aflito
a morrer de saudade
ondas vão e outras vêm
trazem saudosas vozes de outrora
presa ao passado me têm
no sonho e na saudade agora
deixo-me ao sabor da corrente
outras vezes em mim me abrigo
e o passado se faz presente
e no sonho estou contigo
neste mar embalador
onde não somos indiferentes
na corrente vamos ao sabor
do amor, que sinto e tu sentes
brilha a chama no meu olhar
na minha boca há desejos
deixa as bocas de inveja falar
e enche a minha de beijos
trago o coração satisfeito
de ouvir somente o que dizes
quase não cabe no peito
por sermos assim felizes
ficam os olhos marejados
será a vida uma ilusão?!
os pensamentos fatigados
onde está a ventura então?
grito por amor em vão
daquele amor que me ofertaste
onde está a ventura então?
se ao sonho te negaste!
natalia nuno
2001/3
Caraca, muito bom mesmo. Alma poeta.
Contundente, muito bom mesmo. Parabéns.
Obrigada :)
Fernando Pessoa Entre o sono e o sonho, Entre mim e o que em mim É o quem eu me suponho, Corre um rio sem fim.
Parabéns pela beleza da escrita!