Lista de Poemas

A PROCURA DA POESIA

Não. Não te esgotes em parir a poesia
Deixe que ela venha como um espírito pedinte
O barco partido por longo tempo à espera do porto
Ou mesmo os passos solitários no bater da porta
Não te esgotes em querer a poesia
Deixe-a só, isolada e pensativa
Um dia, ela, votiva, alça o voo e vem
Te buscar.
Ela é a Julieta que te espera no alpendre
Aguardando o som da cotovia
Ela tem seu meio de anunciar-se
Está na solidão que te assalta
É o conflito, o desabafo da alma
É a própria maneira de pensar
É a lágrima que vem te enxugar

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ESCREVER

ESCREVER

Menção honrosa Prêmio UFF 2012

Num canto qualquer do Oriente,

em uma rua populosa e congestionada,

um homem sentado na calçada

manipula com destreza uma serpente.

Com movimento sinuoso e perfeito,

sob o suave som do instrumento,

o réptil atento e ardiloso

eleva-se do fundo da escuridão do cesto.

Mantendo a plateia em suspense,

tentando adivinhar o movimento seguinte,

manobrando com alto grau de requinte,

o salto que a cobra porventura tivesse.

-0-0-0-0-0-0-

Em uma esquina do tempo se encontram,

de um livro pego ao acaso

retirado de uma prateleira, leitor e personagem,

juntando encantador e encantado.

Brandindo o lápis com maestria,

vai o narrador discorrendo maravilhado,

em riscos e letras desenhadas,

o prazer que a plateia única saboreia.

O movimento mais importante,

movido pela força atrativa,

escondido na folha seguinte,

que se vira ao sopro da narrativa.

Haveria algo mais que aos dois faltasse

e, ao mesmo tempo, os aproximasse?

Ao primeiro, faltou dizer o tapete,

onde se exibe para o público extasiado,

ocupando no espaço reservado,

o controle do imponderável.

Mas, ao segundo, o que lhe falta?

O objeto que lhe completa o quadro!

Não está no traço das letras ou no lápis.

Nem no pequeno espaço do livro em questão.


Com certeza, aquele que, escrevendo,

os leva todos juntos, compenetrados,

nesse suposto tapete encantado,

à terra da imaginação.

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Quando se faz poesia



Quando a gente faz poesia, a gente inventa. Inventa histórias, romances e lugares aonde nunca iremos. Às vezes até inventamos uma coisa triste só para poder falar de tristezas, quando, logo depois, vamos para um lugar alegre, deixando a tristeza para quem lê. Às vezes até inventamos alegrias só para esconder nossas tristezas, e as gentes acreditam que estamos alegres, só que não estamos não.
Às vezes inventamos que alguém nos ouve, a bailar com as palavras doces, buscando rimas, formando versos, esperando a hora de dizer nos ouvidos certos, o improviso que a gente já fez antes.
Às vezes a gente só está querendo desabafos, desses que parecem gritar pelas janelas, mas, falta coragem. Outras vezes a gente só vai escrevendo versos e palavras, que no fundo não querem dizer nada, só um poema que vai desenrolando como se fosse um novelo pelo chão a distrair um gato. O duro é quando a gente cisma que isso é poesia, quando, no fundo, é só versalhada.
Outras vezes parece que é uma coisa ritmada, que vai numa cadência, parece que numa batucada, e vai ficando pra lá de animada, essa coisa lúdica, brincada, e descobrimos que estamos fazendo letra de música, e de poesia não tem nada.
E a papelada vai se acumulando, com um monte de versos a subir na mesa, que a gente esquece que é poeta e no fundo somos apenas escribas a enganar a gente mesmo.
Tem tudo nesta vida, todo mundo, de repente, sabe de tudo, é receita de médico que cura tudo, essas coisas de doença, é solução dos problemas do mundo, economia, antropologia, sociologia, todo mundo tem o caminho certo, para que o mundo melhore. Tem gente que até a vontade de Deus sabe, e cabe direitinho no que a pessoa pensa.
Mas, poeta, gente, é diferente. Não acha pelos cantos, ou sai da faculdade, pronto. O poeta não nasce, ele é nascido, já vem de berço, quando a menina ou o menino parecem enxergar diferente o que o mundo acha o mesmo.
O poeta é um tipo de fênix que se deixa queimar por dentro, e começa a brotar palavras, como brotoeja que se alastra, uma alergia que não cabe dentro de si. O poeta é um mágico que tira da cartola, da manga, sei lá de onde, uma maneira de falar que não esconde, um espírito que lhe adentra, se assenta e deita a falar de mundos distantes.
Fala de amantes que teve e que nunca tocou, e parece que deu beijos longos e deixou saudades que não houve. Poeta aparece assim, de repente, nem ele sabe que é. E sai inventando histórias de amor que não teve, fala em três palavras tanta coisa, que parece aquela pílula que a gente toma, danada de pequena, mas que quando entra dá um alívio estranho e se espalha no corpo da gente.
É um médico, o poeta, só que ele fabrica o remédio, e nem sabe quem toma. Somente quando se abre o livro, é que o paciente percebe que uma doença que não sabe existir, lhe toma.

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Declaração de amor


Não te amo porque você é bonita. Mas, te amo porque você é linda, não dessas belezas que fascinam, nos deixam boquiabertos, olhos perdidos. A tua beleza me impressionou não sei se por causa dos olhos, dos cabelos, da voz, ela me deixou impressionado pela indiferença tua, pelos meus olhos que não paravam de te olhar.
Amor à primeira vista? Foi amor por eu ter te visto, te encontrado, de repente, quando nada de diferente parecia que ia me acontecer. Foi por causa das noites mal dormidas, sonhos interrompidos, olhares fundos, vontade de construir poesias, enxergar vida e sentimentos onde já existiam, e que passavam ao largo: passei de egoísta a perdulário.
Foi pela vontade de chorar, só de imaginar que você poderia desaparecer, simplesmente acordar e me convencer de que o que eu sentia não era amor, era paixão, e paixão é efêmera, e essa confusa mistura de sentimentos não ser longa o suficiente para sobreviver.
Permita que o teu príncipe não se ponha de joelhos, ele vai te olhar de frente, e seguir adiante, desde que você esteja ao seu lado.
Não quero que você seja o meu passado, não quero que você seja uma história para contar no futuro, quero que você seja o presente que eternamente eu leve sempre dentro de mim, em lugar seguro.
Comecei a te amar não sei por quê. E foi por tentar descobrir que não consigo deixar de te querer.

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A busca da verdade


Foi dito que a procura da verdade é a nossa libertação. A verdade pode estar em muitos lugares ou em lugar nenhum. Afinal, o que seria a Verdade, e qual Verdade está no contexto da primeira afirmação? Aquela que nos libertará!
A árvore do conhecimento que está na história bíblica do Paraíso tinha uma maçã como o fruto principal. A ela foi proibido o acesso, por ordem de Deus. Mas, e a dúvida está aí. Por que alertar o ser humano para não acessar a árvore do conhecimento, se a própria curiosidade é um dos traços dados ao Homem, é o principal motivador para a busca dele, o conhecimento? Um paradoxo celeste?
Eva, a culpada pela humanidade, e que tornou todas as mulheres as responsáveis por nossas mazelas, que tanto vemos nas culturas, as formas como as mulheres são mantidas, enclausuradas de forma física ou não, sob a forma de janelas e portas fechadas ou restritas aos olhares machistas, finalmente resolve ter acesso a ela. Será que por esse motivo a sociedade patriarcal mantém as mulheres afastadas, por que podem trazer o conhecimento? Talvez não haja um paradoxo celeste, mas uma forma velada de Deus mostrar como o homem é frágil. Quieto, calado, obedecendo, enquanto a mulher resolve ver o que está acontecendo.
Porém, aquela que dá a maçã para que Eva prove é uma serpente, mais uma no rol da culpa. Mas, também, podemos fazer uma pergunta sutil: afinal, o mal está no conhecimento que traz na maçã, ou o mal está naquele ou naquela que usa o conhecimento para seu desfrute individual. Em suma, a culpa está na maçã ou no seu portador?
A verdade, com certeza, liberta, mas que preço se cobra por essa liberdade. A diferença está no portador, sem dúvida. O conhecimento transmitido por cérebros, digamos, um pouco afastados de uma ética e respeito, é mais uma arma contra o receptor do que uma liberdade.
A procura da Verdade é uma arma poderosa contra nossos medos e receios. A curiosidade é um recurso importante, sempre se atualizar, reler, ponderar e criticar, colocar nossos valores e crenças em xeque. A verdade, trazida pelo conhecimento, é uma busca constante, e ter conhecimento é conhecer de verdade o portador, a fonte que vem até nós, muitas vezes travestida de serpente.
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Enquanto eu penso em você


O que você faz, enquanto eu penso em você? Você vai ao shopping e começa a olhar as vitrines, será que me imagina dentro de algumas dessas roupas, ou então imagina a roupa que poderia usar para poder me encontrar?
Enquanto eu penso em você, o que você imagina quando senta em um café e pede uma bebida que poderíamos curtir juntos, quem sabe colocando uma pitada daquele condimento desconhecido e que poderia me surpreender com um sabor inesperado, que me deixasse com o olhar perdido enquanto você riria com as minhas adivinhações absurdas?
Enquanto eu penso em você, você olha a sua carteira buscando as chaves do carro, apoiando a bolsa no seu joelho levemente levantado, com as minhas mãos lhe oferecendo apoio para que não caia, e o seu fingimento prolongando a procura, as minhas mãos firmes a te proporcionar um porto seguro?
Enquanto eu penso em você, você poderia estar na sua casa ouvindo uma música, aprendendo uma receita nova, procurando no jornal um lugar para viver a noite, uma peça de teatro, um novo filme, um show com um artista desconhecido, despontando em um barzinho perdido, mas badalado e famoso?
Enquanto eu penso em você, você abre a janela e olha a multidão passar abaixo do seu apartamento, apertada entre as luzes dos carros e das lojas, entre os barulhos de buzinas e conversas animadas, ou simplesmente em silêncio na sua casa vazia, ou então cercada de parentes, amigos, alguém que te interesse, algum vizinho, uma reunião de condomínio chata, preparando uma discussão ou um barraco com o dono do gato que importuna o passarinho que você mantém na varanda?
Enquanto eu penso em você, você estaria deitada no sofá da sua sala, ouvindo uma música, baixinho, se lamentando por que eu não disse o que você gostaria de ouvir, frustrada, chorando de raiva ou se consolando no ombro de alguém querido?
Enquanto eu penso em você, o que você gostaria que eu estivesse fazendo? Saindo da minha casa na direção da sua, pegando no telefone que você olha desolada, mudo, calado, sem sinal de vida?
Enquanto eu penso em você, você estaria pensando em mim? Enquanto eu penso em você, você imagina que eu existo?

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A ideia, o amor e o 2018 dos próximos dias


Já perguntou o poeta Augusto dos Anjos, de onde vem a ideia. A mesma pergunta fazemos sobre o amor. Ninguém sabe de onde eles vêm. Mas, é na imaginação nossa que eles progridem, crescem, ganham corpo e asas. Ideias e amores nascem não sabemos onde, mas eles têm um destino a cumprir que é de nos fazer tomar decisões, de nos fazer humanos e participar da comunidade em que vivemos. Nenhum solitário sobrevive, senão tendo ideias e amores escondidos. E se eles estão escondidos eles ainda não existem, porque não foram colocados à prova no embate da existência humana.
Nos próximos dias, novo número passará a contar e a fazer parte dos nossos dias. Alguns chamam de Ano Novo, e festejam, mas é apenas um novo número a requentar os mesmos dias.
Desejos de um novo ano são apenas desejos, assim como as ideias e os amores que não vicejam se são solitários, não vicejam como flores nos jardins de nossos contatos, aos ventos e dissabores dos nossos dias.
Nassin Taleb, em seu livro A Lógica do Cisne Negro, disse que nossos dias e nossos destinos são determinados pela sorte e pelo azar, nada está escrito, nem nas bolas de cristal e mãos humanas, e nem nas estrelas. Tudo se resume à sorte e ao azar.
Para que a sorte ou o azar se manifeste, antes de tudo devemos participar da festa: ninguém dança com alguém se não participar de uma festa. Ao mesmo tempo, participar da grande festa da humanidade, a solidão não tem vez; o motivo para o mundo nos descobrir é vir à luz dos salões do grande festejo humano.
Nossas ideias, nossos amores existem como participantes da festa, submetidos a todo tipo de sortes e azares, celebrações e aprendizados. Enfim, se deixar ver para ser visto.
O novo número que se aproxima, e que passará a ditar nossas futuras datas, é, antes de tudo, um convite para a festa. Repetir as mesmas fórmulas, esperando que o suposto novo ano se modifique, é achar que a humanidade vai se comportar como os nossos desejos, e isso é uma afronta para quem deseja ter suas ideias celebradas e a se preparar para novos amores.
Repetir as mesmas fórmulas é faltar à aula na grande escola da vida. E aqueles que faltam perdem um dia ou dias de aprendizado, e não podem delegar ao azar o fato de permanecerem sozinhos. Quando nossas ideias ficam guardadas na gaveta, quando nossos amores permanecem dentro de nós, com o medo da rejeição, o novo ano será apenas mais um número a contar os dias faltosos nas aulas.
Permita-se entrar na festa e a participar do grande salão iluminado, confronte-se, prontifique-se a mudar, encare o azar como acidente de percurso, porque existe uma ideia pulando por aí, existe um amor andando por aí, loucos de alegria para te encontrar.

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Uma história sem fim



No fundo sempre esperamos um final feliz para qualquer história: seja do menino pobre que vence na vida; do herói que, finalmente, salva o dia; do empregado que consegue alcançar o maior posto de comando em uma empresa e, por que não, do final feliz entre dois amantes, dois apaixonados que juram por todas as juras que o seu amor será eterno, enquanto durar.
De todas as histórias, mesmo o menino pobre que não vence na vida, acaba aprendendo uma lição, do herói que, apesar de não salvar o dia, mostra a coragem na luta e do empregado que, mesmo não alcançando o posto de supremo mandatário da empresa, coleciona as amizades e a admiração de seus pares. De uma certa forma eles têm um final feliz.
Ah! E os amantes?
Quando o final feliz adiado sine die, finalmente, encontra um final, a lição que se aprende é transformadora. Uma história de amor ao seu término invariavelmente deixa, para um dos lados, a dor da perda. O que se ganha em experiência, por mais que se transforme em lição, na verdade, fere o ser naquilo que a razão não se sobrepõe: A razão não se sobrepõe às razões do coração.
Para esse ser que sobra da relação, resta a dor da perda. Levar por um longo período da vida, mesmo que outras relações se estabeleçam, uma história sem fim. Uma história que nunca acaba dentro de si mesma. Uma história que a mente traz à tona no cheiro do perfume, no tom da voz, e nas fotografias que são deixadas de lado, mas que o manuseio traz a maciez da pele, do toque fino dos cabelos e no macio adocicado da boca.
Uma história sem fim é uma história que ultrapassa o final feliz. É a história interminável que sempre cai na conversa com os amigos, na visão distante do ser que se foi, do ser que não quis fazer mais parte da história.
Para os outros, a matéria da perda é sempre recuperada adiante, trazida pela experiência vivida. Para o amor não. Para o amor, um amor verdadeiro não consegue ser substituído. Ele é sempre cobrado, comparado, e pune mesmo aqueles amores que venham a habitar o coração abandonado.
Uma história sem fim de abandono é uma história que nunca vai terminar. Os atalhos, os caminhos que se trilham mais adiante são mais uma busca pelo amor perdido do que propriamente o encontro de um novo amor.
O novo amor vem mais maduro, não tão emotivo, mais preparado para a decepção, mais pronto para o soerguimento, vem com a sensação da perda já embutida nos beijos e nas promessas.
Paixões são vividas ad eternum, buscadas e conquistadas. Mas, são sempre calcadas na prudência, na preparação da perda. Ou são tratadas com desprezo, como se uma vingança interna estivesse sempre de tocaia.
A primeira paixão marca, é profunda, penetrante em um coração desavisado, aberto ao mundo, sem um colete para a flecha perdida lançada por um Cupido inconsequente.
A primeira paixão, essa sim, é uma história sem fim.

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Meu tálamo


MEU TÁLAMO

Meus braços desenham um abraço
e envolvem teu gemido doce
E tua respiração ouço,
enquanto minha boca
roça em seu ouvido,
e bem devagar desço ao teu pescoço

Absorvo teu cheiro, teu gosto
Minha mão percorre teu labirinto
lendo as imperfeições, os sinais,
as pistas que me guiam por instinto
pelos caminhos curvos do teu corpo

Meus dedos seguem essa pista
São os bailarinos no meio de uma dança
Querendo guardar na lembrança
Todos os segundos que passo contigo
Blog do Nilson Lattari
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Simplesmente, amor



Márcia, depois de pensar bastante, resolveu entrar em um site de relacionamentos. Quando abriu a tela, um formulário imenso pedia várias informações sobre sua vida pessoal, incluindo sonhos, fantasias, cor da pele, religião, vida profissional, ambições. Eram tantas as informações que Márcia começou a se desiludir: ela somente queria encontrar alguém que a amasse, alguém que dissesse em seu ouvido as três palavras mágicas que nunca ouvira.
Diante de tantos espaços em branco pra preencher, ela decidiu escrever somente "Quero ser amada". E os únicos espaços que preencheu corretamente foram seu nome, o estado civil e o sexo.
Por um sistema de segurança do site, o seu formulário era sempre rejeitado e ela precisava começar novamente a preenchê-lo. Não desistiu e de tanto forçar o envio, em um determinado momento, sua mensagem fora enviada com sucesso.
A seguir, algumas instruções foram mandadas e pediram que ela aguardasse o retorno de algum pretendente.
Dias se passaram e não recebia nenhuma resposta.
Pensou consigo mesma se não havia ninguém no mundo que se importasse em querer amar alguém. Caminhava pelas ruas e observava os casais passando abraçados e, na troca de sorrisos, imaginava uns para os outros dizendo palavras de amor.
O site ficava aberto no seu computador diariamente, atualizava o e-mail, renovava as suas fotos no site, na esperança de receber alguma resposta. Lia as notícias de sucesso envolvendo os participantes, que contavam suas histórias, as maneiras como se encontraram, postavam suas fotos sorridentes, abraçados, alguns já com filhos nos braços, e se perguntava se havia entre eles um amor tão grande assim, do tamanho da alegria que seus rostos estampavam?
Chegou a julgar que o seu perfil não havia sido publicado, apesar de a mensagem ter sido enviada com sucesso. Mas ele estava lá, atualizando suas fotos, e na sua leitura de dados pessoas, a expressão "Quero ser amada" permanecia inalterada.
Com certeza, a teriam tomado por louca, por que afinal alguém insistiria tanto em ser amada? Sentiu-se uma pessoa diferente na sua busca por algo tão simples assim.
Ao contrário de perfis bem comportados, em que pessoas colocavam sonhos, fantasias, deixavam qualidades que, com certeza, não eram factíveis ou não existiam, ela estava determinada a procurar alguém que somente tornasse realizável o óbvio entre dois seres.
Após meses, finalmente, no alto do site, apareceu um pequeno envelope que ficava piscando, como se fosse uma câmera, um olho eletrônico alertando-a que alguém resolvera responder sua chamada.
Com os dedos trêmulos acionou a caixa postal e uma longa carta se expôs. Esse alguém dizia para ela primeiro a curiosidade enorme que seu formulário causou; não falava de fantasias, desejos, vida profissional a ser atingida, ambições, nada, somente falava da curiosidade em saber mais sobre uma pessoa que queria ser amada. Márcia se entusiasmou, imaginando quem seria aquele que entendera o seu recado.
Ao final da carta, surpreendentemente, o perfil do seu correspondente era de uma outra mulher. Ela entendia tudo que falava, sentia, tinha os mesmos desejos, de ser amada incondicionalmente.
Resolveram se encontrar, cumprimentaram-se e Márcia encontrou em Juliana uma conversa igual, igual de pensamentos e de desilusão com o mundo.
Com o tempo, resolveram morar juntas e repartir os seus dia a dia, frequentarem os mesmos lugares e começaram a descobrir muita coisa em comum. Não se preocuparam em repartir no site a experiência que tiveram. Até porque ela até hoje não terminou com ela, e também ninguém entenderia o que é ser amada de verdade, um amor entre dois seres, simplesmente.

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Sou graduado em Literatura, com especialização em Estudos Literários, sou escritor e alguns textos foram premiados em concursos de literatura, no Brasil. Meu maior prazer é escrever crônicas e artigos sobre comportamento político e social. Meu primeiro romance "Maíto" está disponível em ebook na Amazon.com.br