Nilson Lattari

Nilson Lattari

n. 1952 BR BR

Sou graduado em Literatura, com especialização em Estudos Literários, sou escritor e alguns textos foram premiados em concursos de literatura, no Brasil. Meu maior prazer é escrever crônicas e artigos sobre comportamento político e social.

n. 1952-03-14, Rio de Janeiro

Perfil
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A PROCURA DA POESIA

Não. Não te esgotes em parir a poesia
Deixe que ela venha como um espírito pedinte
O barco partido por longo tempo à espera do porto
Ou mesmo os passos solitários no bater da porta
Não te esgotes em querer a poesia
Deixe-a só, isolada e pensativa
Um dia, ela, votiva, alça o voo e vem
Te buscar.
Ela é a Julieta que te espera no alpendre
Aguardando o som da cotovia
Ela tem seu meio de anunciar-se
Está na solidão que te assalta
É o conflito, o desabafo da alma
É a própria maneira de pensar
É a lágrima que vem te enxugar

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Biografia
Sou graduado em Literatura, com especialização em Estudos Literários, sou escritor e alguns textos foram premiados em concursos de literatura, no Brasil. Meu maior prazer é escrever crônicas e artigos sobre comportamento político e social. Meu primeiro romance "Maíto" está disponível em ebook na Amazon.com.br

Poemas

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Simplesmente, amor



Márcia, depois de pensar bastante, resolveu entrar em um site de relacionamentos. Quando abriu a tela, um formulário imenso pedia várias informações sobre sua vida pessoal, incluindo sonhos, fantasias, cor da pele, religião, vida profissional, ambições. Eram tantas as informações que Márcia começou a se desiludir: ela somente queria encontrar alguém que a amasse, alguém que dissesse em seu ouvido as três palavras mágicas que nunca ouvira.
Diante de tantos espaços em branco pra preencher, ela decidiu escrever somente "Quero ser amada". E os únicos espaços que preencheu corretamente foram seu nome, o estado civil e o sexo.
Por um sistema de segurança do site, o seu formulário era sempre rejeitado e ela precisava começar novamente a preenchê-lo. Não desistiu e de tanto forçar o envio, em um determinado momento, sua mensagem fora enviada com sucesso.
A seguir, algumas instruções foram mandadas e pediram que ela aguardasse o retorno de algum pretendente.
Dias se passaram e não recebia nenhuma resposta.
Pensou consigo mesma se não havia ninguém no mundo que se importasse em querer amar alguém. Caminhava pelas ruas e observava os casais passando abraçados e, na troca de sorrisos, imaginava uns para os outros dizendo palavras de amor.
O site ficava aberto no seu computador diariamente, atualizava o e-mail, renovava as suas fotos no site, na esperança de receber alguma resposta. Lia as notícias de sucesso envolvendo os participantes, que contavam suas histórias, as maneiras como se encontraram, postavam suas fotos sorridentes, abraçados, alguns já com filhos nos braços, e se perguntava se havia entre eles um amor tão grande assim, do tamanho da alegria que seus rostos estampavam?
Chegou a julgar que o seu perfil não havia sido publicado, apesar de a mensagem ter sido enviada com sucesso. Mas ele estava lá, atualizando suas fotos, e na sua leitura de dados pessoas, a expressão "Quero ser amada" permanecia inalterada.
Com certeza, a teriam tomado por louca, por que afinal alguém insistiria tanto em ser amada? Sentiu-se uma pessoa diferente na sua busca por algo tão simples assim.
Ao contrário de perfis bem comportados, em que pessoas colocavam sonhos, fantasias, deixavam qualidades que, com certeza, não eram factíveis ou não existiam, ela estava determinada a procurar alguém que somente tornasse realizável o óbvio entre dois seres.
Após meses, finalmente, no alto do site, apareceu um pequeno envelope que ficava piscando, como se fosse uma câmera, um olho eletrônico alertando-a que alguém resolvera responder sua chamada.
Com os dedos trêmulos acionou a caixa postal e uma longa carta se expôs. Esse alguém dizia para ela primeiro a curiosidade enorme que seu formulário causou; não falava de fantasias, desejos, vida profissional a ser atingida, ambições, nada, somente falava da curiosidade em saber mais sobre uma pessoa que queria ser amada. Márcia se entusiasmou, imaginando quem seria aquele que entendera o seu recado.
Ao final da carta, surpreendentemente, o perfil do seu correspondente era de uma outra mulher. Ela entendia tudo que falava, sentia, tinha os mesmos desejos, de ser amada incondicionalmente.
Resolveram se encontrar, cumprimentaram-se e Márcia encontrou em Juliana uma conversa igual, igual de pensamentos e de desilusão com o mundo.
Com o tempo, resolveram morar juntas e repartir os seus dia a dia, frequentarem os mesmos lugares e começaram a descobrir muita coisa em comum. Não se preocuparam em repartir no site a experiência que tiveram. Até porque ela até hoje não terminou com ela, e também ninguém entenderia o que é ser amada de verdade, um amor entre dois seres, simplesmente.

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Enquanto caminha uma mulher


Mulherengo é aquele homem, dizem as mulheres, que anda atrás de todo rabo de saia. E se uma mulher lhe sorri na rua, não lhe passa pela cabeça que ela pode não estar sorrindo para ele, muito provavelmente, mas porque naquele dia saiu de casa contente consigo mesma, absorta em suas vitórias, feliz porque seu cabelo está como sempre quis, encontrou a roupa que mais a agradou, se descobriu mais bonita no espelho do que sempre, ou, simplesmente, se livrou de um traste que lhe pegava no pé, e não em outros lugares desejados, e a última coisa que passa em sua cabeça é encontrar um outro traste com traços piores ou desajeitados.
É difícil imaginar um ser que tenha dentro de si tantas funções; amante de outros homens e mulheres ... difícil? Nem tanto. Qual a mulher que sai de casa? A amante, a namorada, a mãe (de pequenos homens e mulheres ainda em formação), a aventureira, a solitária, aquela que busca uma companhia, seja feminina ou masculina, que venha se encontrar com seus dilemas, um ouvido à disposição, ou simplesmente um rabo de saia à procura de suas soluções e à flor da pele as emoções ou a ilusão?
E quando se dispõe a ser presa fácil, enchendo de brios aquele que se diz conquistador de conquistas disponíveis, ditas em alto e bom som em roda de amigos, na contação das habilidades, não sabe ele que quem define o fácil e o difícil é o outro lado, tido como cheio de fragilidades.
Para aqueles que se insinuam como conquistadores e sabem que a batalha não é coisa que esteja no papo, e que seus galanteios, graças depois de olhares de soslaio são apenas conhecedores de caminhos, atalhos de fácil acesso que proporcionou a suposta presa prenhe de carinhos.
Quando se cruzam, homens e mulheres, quando se olham, se olham de formas diferentes. O do homem, apesar da pretensa superioridade, é de angústia, o da mulher de falsa inferioridade, é de escolha.
E, pensando bem, é muito melhor ser o escolhido entre tantos, do que se achar aquele que dá o bote, e o ganho. É muito melhor ser fisgado pela boca, pelo olhar, pelo encanto, e desfrutar como poucos de um corpo desconhecido e intrigante.

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A história de um ateu




Era um ateu, assim considerado porque não via nenhuma espécie de conserto em alguma coisa. Coisas como fraternidade universal, bem estar da comunidade ou mesmo amor ao próximo. Dizia essas coisas aos quatro ventos. Muitas vezes saía dali e vinha pela madrugada levando cobertores para os moradores de rua, que ficavam à mercê do frio. Ela distribuía os cobertores ou mesmo fazia serviços colaborando com uma sopa, enquanto praguejava dentro de si mesmo, se afastando até mesmo quando algum grupo se juntava para rezar. Ele se afastava, e saía pelas ruas se compadecendo de algum cão que perambulava pelas ruas, ficando na eterna dúvida se deveria levar somente mais aquele para sua casa, e vê-lo se reunir a outros que o aguardavam cheios de mimos, latidos e agrados.
Festejava, quando lhe diziam, que o seu comportamento de ofender a Deus o levaria ao Inferno, e ele respondia que ainda bem que não se misturaria com quem não concordava. E não via nenhum problema em blasfemar, até porque não blasfemava, porque até mesmo se fizesse isso aceitaria a existência de Deus. Logo não perderia tempo com isto.
As lágrimas corriam de seus olhos, silenciosamente, quando via negros e pobres, crianças serem afugentadas por seguranças e policiais dos locais mais nobres, e quando se sentiu mal, resolveu morar perto deles, para que de alguma maneira pudesse ajudá-los. E não aceitava um agradecimento em nome Dele. Achava absurdo, porque ele o fazia porque queria, movido por alguma coisa que desconhecia.
Retribuía dizendo que se Deus existisse não teria permitido as injustiças no mundo. E que as ações de cada um é que poderiam mudar o mundo, e fazia todas elas dando o exemplo de como seria possível.
Se dizia infeliz consigo mesmo, quando olhava no espelho, apesar de, escondido, um sorriso chegar à sua boca, vendo que uma ação que fizera antes com alguém, com algum animal havia surtido algum efeito benéfico. Era o seu momento de alegria, se sentia o melhor dos homens, mesmo que quando olhasse para os lados não houvesse ninguém para festejá-lo. Para os outros era apenas um ateu incorrigível, mas, para ele, e somente para ele, era o melhor de si que poderia fazer. E enquanto as lamentações de outros era não ter conseguido algum bem material, para ele a lamentação era não ser possível fazer mais.
Outras vezes conseguia algum benefício para alguém, e atribuía à sorte ou ao destino, afinal de algum jeito a vida tenderia a mudar. Era alguma coisa inexplicável, como se viesse do nada. A sua explicação era de que o mundo era como é, sem nada a acrescentar e nada que se pudesse fazer para alterá-lo. Simplesmente, ninguém poderia fazer a diferença.
Ninguém acreditava nas suas boas ações, diziam que quem não acreditava em Deus, com certeza, nenhuma boa intenção poderia existir.
E ele seguia seguindo seus próprios passos e o que o seu coração mandava, ações, para ele, era o que importava, e em Deus, simplesmente, não acreditava. Mesmo que Deus continuasse a procurá-lo, porque acreditava nele.

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