Nilza_Azzi

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Eu me lembro todo dia de um amor de salvação, mas esqueço o que queria e as lembranças lá se vão... Nilza Azzi

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Elegia


Canto I
Essa que chora ante o caixão aberto,
Por quem dizias ter amor, eu sei,
Sofre por ti, um pouco, mas decerto
Seu coração lavrou a própria lei,
Na solidão sem tempo do deserto,
Sem abrir mão da liberdade ao rei.
– Sob esse véu que cobre a tal tristeza,
Resiste a alma límpida e coesa.

Canto II
Bem vês agora que escapou inteira
Da servidão que lhe quiseste impor
E na conversa muda e derradeira,
Em teu respeito, um mínimo de dor
Expressa agora, à sua maneira,
Ainda presa ao súbito estupor.
– E nessa lágrima tímida que verte,
Reverencia o teu corpo inerte.

Canto III
Caminha sempre adiante com firmeza,
Embora saiba dar um passo atrás,
Para ajustar-se às leis da natureza
E avançar de forma mais vivaz...
Mantém, consigo, a esperança acesa,
E não espera pelos outros, mais...
– A vida é roda e pelo tempo gira;
O que é verdade, nunca foi mentira.

Nilza Azzi 

 
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Poemas

5

Astúcia


A força de um felino na mulher
escapa pelo olhar que chora arguto.
Controle e persuasão, a voz requer,
pois nela a intensidade do minuto
reboa no silêncio que é mister...
 
O negro da pupila é apenas luto;
espanto pelas grades, sem qualquer
sentido menos claro  –,  resoluto! ­
É mágico, o futuro que ela quer...
 
A fera, confinada numa cela
jamais, de seu saber, algo revela
e a luz só faz brilhar negra pelagem.
 
De fato, o coração palpita rubro
e se consegue a paz, não sei. Descubro
 
que os olhos de pantera não reagem.

Nilza Azzi

N

 

1 396

Às margens do Paraíba do Sul


Nas tardes sem tempero, descansava,
enquanto um livro lhe tomava as mãos.
Na sombra, a negra debulhava as favas,
dormia ao lado, um gato comilão.
 
A samambaia, os ramos despencava.
Era de metro, a alcançar o chão.
A um canto do terraço, havia a clava,
jogada lá, inútil era, então.
 
Há muito a plantação já se esgotara
e os tempos do café, pelas encostas,
não eram mais do que lembranças vagas.
 
Sem meios de fugir à sua saga,
seguia presa à terra descomposta,
Senhora do sertão e piraquara.


Nilza Azzi

1 406

Fuga


Já não ponho meus pés nesta rua
Numa aguda tristeza resvalo
O meu leito de painas é ralo
Na cortina uma estrela flutua
 
No meu pé, atormenta este calo
E no mar minha lágrima estua
O cavalo que arrasta a charrua
Abre o sulco e só resta fechá-lo
 
Não bifurca uma encruzilhada
Mas amplia essa estrada tão vasta
Deixa em cruz uma escolha difícil
 
Subo ao céu na rabeira de um míssil
A fumaça é um sinal que se arrasta
Vejo ao longe outra lágrima alada.


Nilza Azzi
1 811

Sede


Que tentação esse teu corpo varonil,
delineado por firmezas musculares.
O torso nu e a atração do teu quadril,
o cheiro certo que me deixas pelos ares;
 
cheiro de  vida, que a mãe Terra conferiu
e que me atiça, sem cessar, sem que repares...
A natureza feminina, mais sutil,
nota detalhes, mesmo os mais irregulares,
 
não deixa claro o interesse pelo macho.
Mas o princípio não difere muito (eu acho!)
assaz idêntico, o caminho do desejo.
 
Limita, a pele, superfície e precipício
e tudo arde, quando o fogo é mais propício,
na secreção que se prepara para o beijo.
 
Nilza Azzi
1 598

Veleidade


Nada me importa na aparência de um mancebo,
quer seja belo, seja calvo ou tenha encantos;
que seus trabalhos sejam doze ou outros tantos...
Não me cativa o vate pelo que recebo,
se enxerga luz numa palavra meio torta;
faz ressoar seus ecos sem nenhum arrego
e deixa flores sem bilhete à minha porta;
destila essências de uma fonte que não bebo!
Porém não sei se tal razão é meu direito...
Se falta verve à maioria — o tempo é cedo —
se não se arrisca, segue as linhas meio a medo,
pois meu soneto não difere, contrafeito:
 
— Tem versos fortes;  guarda um ar de bom menino,
mas não fascina, pois não é um alexandrino...
 
 Nilza Azzi
1 341

Comentários (4)

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yuri petrilli

Belos sonetos!

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

Filipe Malaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!