Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Escreverás poemas sobre mim, quando passar por ti qualquer lembrança, presente de um amor, quiçá, que avança desde os começos, sempre rumo ao fim...
Acordarás feliz a cada dia a perseguir o tempo – ele não para. Evocarás a flor que te foi cara e a ânsia de viver – que consumia.
Quando cair o sol, junto ao poente, e aquela angústia súplice da tarde mostrar-te, nas entranhas, quanto arde,
fingindo ser-te um fato indiferente, com as imagens soltas das quimeras, sonharás esse amor que não quiseras.
Nilza Azzi
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Busca
A palavra que procuro e vive a fugir de mim é feita do som mais puro; tem perfumes de jardim.
Cintila, às vezes, no escuro das noites longas, sem fim, mas se apaga quando juro que não és nada pra mim.
Nilza Azzi
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Ia a Lua
Ia a lua, num passeio com seus raios, ria solta e leve além da noite azul; altaneira pelo céu, nos seus ensaios, enviava doce luz... No extremo sul,
já dormia o velho sol, além de outeiros... Se na veste branca usava uma estrelinha, ao reinar, a soberana dos celeiros, era o sonho do poeta, que detinha.
Se as estrelas lhe serviam de transporte, do cetim azul das vestes, belas fadas escolhiam, entre as luzes, quais dispor.
E, no céu, a coalizão tornava forte, na unidade das matérias coaguladas, a existência deste mundo multicor...
Nilza Azzi
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Tristeza II
Alegre-se, Tristeza! Não reclame. Não é que um mar de fatos é confuso? Decerto cada terra tem seu uso, e às vezes ele pode ser infame.
Há falsos ideais! Fuja do abuso. Quem sabe pode haver algum liame e a vida de outro modo se amalgame, e o riso surja, mesmo que difuso...
Verdade é que, Tristeza, chega o dia que a casa vai ficando mais vazia, porque ninguém se importa e as coisas tristes
afastam o melhor que a vida traz... Abafe a sua dor, não chore mais; descubra o picaresco e faça chistes!
Nilza Azzi
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Campos e florestas
É tanto verde, e tão junto, num espaço até pequeno, que ficamos sem assunto, na verdura do terreno.
Nilza Azzi
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Tristeza
Encontrei a tristeza numa esquina; não lhe dei confiança e, mesmo assim, com seu jeito sem fé, sorriu pra mim; essa tristeza é coisa das mais finas!
Muito quis evitá-la, mas por fim, quando enfrentei a lida matutina e tive que cuidar da minha sina, achei por bem trazê-la junto a mim.
Hoje não erro em lhe pedir ajuda e, embora a minha fala seja muda, ela mantém comigo um compromisso!
E, se me afunda em longa nostalgia, logo, já se arrepende e se esvazia... – Será que nunca mais vai fazer isso?