Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Raio e trovão, a chuva cai bem forte; lá fora é frio e dentro é quase morte. É feito pausa extremamente longa que mora n’alma e nela se prolonga.
E a chuva sempre modifica o ar, ora mais leve de tanto chorar ora mais claro, pois que foi lavado, depois que a chuva foi para outro lado.
Porém sem chuva, sem a tempestade que, de repente, a nossa vida invade, não sobra graça, brilho à luz do sol,
fazendo o arco em cores no arrebol, nem a candura que se experimenta, quando afinal acaba-se a tormenta.
Nilza Azzi
242
Sensações de Inverno
No inverno desolado, a cada dia, o tempo escoa lento e rigoroso, entanto, se a coberta é bem macia, encontro na estação, deleite e gozo.
Se acordo cedo, a névoa delicia confere graça ao campo, inda brumoso, e o chocolate quente é uma alegria; reconfortante, além de delicioso...
E quando à tarde, espio da janela o fim que mais e mais, já não se arreda, nenhuma sensação é como aquela;
no azul do esquecimento a dor se hospeda, o dia chega ao termo e nos revela gentil, no firmamento, um sol em queda.
Nilza Azzi
71
Azul ausente
“Verificar o azul nem sempre é puro.”
(Do azul, num soneto_Alphonsus de Guimaraens Filho)
E não havia azul, mais, no meu mundo. Nenhum azul na noite sem estrelas e nem no mar, nos rios e nem pelas pequenas poças d’água... De azul fundo
não eram mais as flores e querê-las azuis não me traria o tom rotundo, o azul sempre tão caro, pois, segundo um deus qualquer, dá bom fado às camelas.
E sem o azul, perdeu-se a luz mais bela; tudo ganhou a cor da tempestade, os cinzas derrubando o horizonte.
E a cor mais triste vista bem defronte, tinge-me os olhos, quando o pranto invade, falto de azul... Que grande ausência, aquela!
Nilza Azzi
223
Acaso
Quisera acreditar em mim, a poetisa! É um nome tão formoso e creio que cai bem, mas sou mulher que, hoje, o chão das Letras, pisa e imprime à sua arte, a força que não tem.
Mas para tal mister, há que ser mais precisa e confiar em si – vencer todo desdém – fazer do seu labor a última divisa. Na busca do mais belo, espaço de ir além!
E bem quando a tristeza espalha mais raízes, e quando qualquer fé escapa e vai embora, mais forte é o seu verso, os ditos mais felizes
registra em seu poema e quase é a senhora da dor e da alegria... E as raras cicatrizes cura n'água salgada – as lágrimas que chora.
Nilza Azzi
85
Arranjos cósmicos
Quase notei, o vento no meu rosto, uma emoção guardada só pra mim, embora fosse um mimo já suposto. Recordação de um tempo sem ter fim invade a alma com grande doçura, deixando um leve cheiro de jasmim. Onde, no tempo, tua essência pura passou por mim para falar de amor? A imensidão testemunhou a jura, unindo o céu completo em luz e cor. Lendas distantes, calor envolvente; o imemorial jorra avassalador, fazendo a estrada sempre diferente, embora brilhe nessa mesma luz. Rolam as águas vindas das vertentes, nascem segredos, bardo que seduz... A nova aurora guarda o seu segredo; nunca abandona a quem lhe faça jus. Depois da esquina, da dobra do medo, o coração só quer saber de amar como sinal que ―seja tarde ou cedo, o mundo vai se desacelerar. Sonhar enfim com encontrar guarida, ter no universo, um único lugar, na fonte certa, a água preferida.
Nilza Azzi #terzarima
58
Queimada
Pus fogo na floresta dos meus sonhos e nem salvei as aves, borboletas; deixei que os dias fossem mais tristonhos.
Joguei meus velhos trastes na sarjeta e, num mergulho fundo no meu luto, comprei pra mim um traje violeta
e fui viver no fundo de um reduto, na parte mais escura do meu eu, nas neves de um inverno absoluto.
Um dia, entanto, o novo aconteceu: notei alguns pontinhos bem brilhantes, constantes nessa abóbada de breu.
Os pontos pareciam mil diamantes, não eram uniformes, mas variados, em tons como jamais eu vira antes,
e foram preenchendo vários lados, daquilo que sonhara ser eu mesma, até chegar aos núcleos mais velados.
Em folhas, empilhadas feito resma, nas faces, nas camadas superpostas , a vida, dividida – a alma – fez-ma...
Então lembrei do mundo às minhas costas, perfeito, nos meus sonhos mais antigos, queimei por fim ideias decompostas
e consenti que amar tem seus perigos...
Nilza Azzi #terzarima
63
Príncipe do amor
Sem lembrar que a vida é plena de amor, morri sem querer, me esqueci de tudo. Deslizei no limbo... Era furta-cor
toda a sensação desse espaço mudo − minha alma oca estava confusa − uma concha seca era seu escudo.
Uma sugestão, quase uma recusa, um desequilíbrio, o dia desperta. Uma nova linha... Uma ideia cruza
a estranha dormência, sinal de alerta. Era o meu herói num cavalo branco? Só o coração, a verdade, acerta:
– Mas que reação... Mas que solavanco! Sinais da paixão, quase a perecer, era a exaltação em estado franco.
Príncipe do Amor, sonho do meu ser, acenas ao longe, de ti preciso... Não sei o que fiz por te merecer,
por entrar contigo no paraíso, no mundo perfeito das terras altas, de horizontes vastos, que além diviso.
Se meu corpo avisa que tu me faltas e minh’alma busca o amor distante, entre nós se ajusta uma nova pauta:
– Sei que vou te amar... Que seja o bastante!
Nilza Azzi #terzarima
86
Moto contínuo
Vive em mim o mesmo amor; mesma saudade vem seguir-me nesses tempos de tristeza e não cabe ao coração, não, com certeza, rechaçar a solidão que ora lhe invade.
Dessas horas quase mortas, arrecade, a minh’alma os bons bocados que aprecia de ventura dolorida, de piedade, não por si, mas pelo mal de todo dia.
E não deixe de viver, embora grude, nas cortinas de seu rosto a imagem tola, aparência de quem não sabe o que quer.
Entre os fardos de viver e ser mulher, entre as lutas a que a vida ousou expô-la, seja fria ante a verdade eterna e rude.
Nilza Azzi
37
Narração
Caminhando para o sul Percebem-se margaridas Num dia de céu azul
Giovanni, ali na descida E o cão de pelo amarelo Contente, feliz da vida.
Era um dia tão singelo Tudo estava em seu lugar A lua era quase um elo
Mas a bola quis rolar E desceu ladeira afora O gato pôs-se a miar
A pipa seguiu a aurora Mas o balão foi chegando O caminhão tinha escora
E aguentou ‘té não sei quando... Quem se assustou foi a rosa! Mas a cena examinando
A vida vibra formosa.
Nilza Azzi #terzarima
31
Pobre palavra
La vai a palavra solteira, na feira fazer seu sucesso. Procura parceiro e, faceira, esquece na bolsa o ingresso...
A pobre, por mais que se queira, não tem condições, eu confesso, de achar casamento e se esgueira, correndo pra mim, mas impeço.
Se a veste que usa é tão bela, o seu conteúdo é banal, e todos perguntam por ela,
por seu denotar principal, embora desmaie, amarela, parece, em essência, normal...