Nilza_Azzi

Nilza_Azzi

Eu me lembro todo dia de um amor de salvação, mas esqueço o que queria e as lembranças lá se vão... Nilza Azzi

n. 0000-00-00

Perfil
85 011 Visualizações

Elegia


Canto I
Essa que chora ante o caixão aberto,
Por quem dizias ter amor, eu sei,
Sofre por ti, um pouco, mas decerto
Seu coração lavrou a própria lei,
Na solidão sem tempo do deserto,
Sem abrir mão da liberdade ao rei.
– Sob esse véu que cobre a tal tristeza,
Resiste a alma límpida e coesa.

Canto II
Bem vês agora que escapou inteira
Da servidão que lhe quiseste impor
E na conversa muda e derradeira,
Em teu respeito, um mínimo de dor
Expressa agora, à sua maneira,
Ainda presa ao súbito estupor.
– E nessa lágrima tímida que verte,
Reverencia o teu corpo inerte.

Canto III
Caminha sempre adiante com firmeza,
Embora saiba dar um passo atrás,
Para ajustar-se às leis da natureza
E avançar de forma mais vivaz...
Mantém, consigo, a esperança acesa,
E não espera pelos outros, mais...
– A vida é roda e pelo tempo gira;
O que é verdade, nunca foi mentira.

Nilza Azzi 

 
Ler poema completo

Poemas

53

Águas de julho


Raio e trovão, a chuva cai bem forte;
lá fora é frio e dentro é quase morte.
É feito pausa extremamente longa
que mora n’alma e nela se prolonga.

E a chuva sempre modifica o ar,
ora mais leve de tanto chorar
ora mais claro, pois que foi lavado,
depois que a chuva foi para outro lado.

Porém sem chuva, sem a tempestade
que, de repente, a nossa vida invade,
não sobra  graça, brilho à luz do sol,

fazendo o arco em cores no arrebol,
nem a candura que se experimenta,
quando afinal acaba-se a tormenta.

Nilza Azzi
242

Sensações de Inverno


No inverno desolado, a cada dia,
o tempo escoa lento e rigoroso,
entanto, se a coberta é bem macia,
encontro na estação, deleite e gozo.

Se acordo cedo, a névoa delicia
confere graça ao campo, inda brumoso,
e o chocolate quente é uma alegria; 
reconfortante, além de delicioso...  

E quando à tarde, espio da janela 
o fim que mais e mais, já não se arreda,
nenhuma sensação é como aquela;             

no azul do esquecimento a dor se hospeda,
o dia chega ao termo e nos revela
gentil, no firmamento, um sol em queda.

Nilza Azzi
71

Azul ausente

“Verificar o azul nem sempre é puro.”
(Do azul, num soneto_Alphonsus de Guimaraens Filho)
E não havia azul, mais, no meu mundo.
Nenhum azul na noite sem estrelas
e nem no mar, nos rios e nem pelas
pequenas poças d’água... De azul fundo

não eram mais as flores e querê-las
azuis não me traria o tom rotundo,
o azul sempre tão caro, pois, segundo
um deus qualquer, dá bom fado às camelas.

E sem o azul, perdeu-se a luz mais bela;
tudo ganhou a cor da tempestade,
os cinzas derrubando o horizonte.

E  a cor mais triste vista bem defronte,
tinge-me os olhos, quando o pranto invade,
falto de azul...  Que grande ausência, aquela!

Nilza Azzi

 
223

Acaso

Quisera acreditar em mim, a poetisa!
É um nome tão formoso e creio que cai bem,
mas sou mulher que, hoje, o chão das Letras, pisa
e imprime à sua arte, a força que não tem.

Mas para tal mister, há que ser mais precisa
e confiar em si – vencer todo desdém –
fazer do seu labor a última divisa.
Na busca do mais belo, espaço de ir além!

E bem quando a tristeza espalha mais raízes,
e quando qualquer fé escapa e vai embora,
mais forte é o seu verso, os ditos mais felizes

registra em seu poema e quase é a senhora
da dor e da alegria... E as raras cicatrizes
cura n'água salgada – as lágrimas que chora.

Nilza Azzi
85

Arranjos cósmicos


Quase notei, o vento no meu rosto,
uma emoção guardada só pra mim,
embora fosse um mimo já suposto.
 
Recordação de um tempo sem ter fim
invade a alma com grande doçura,
deixando um leve cheiro de jasmim.
 
Onde, no tempo, tua essência pura
passou por mim para falar de amor?
A imensidão testemunhou a jura,
 
unindo o céu completo em luz e cor.
Lendas distantes, calor envolvente;
o imemorial jorra avassalador,
 
fazendo a estrada sempre diferente,
embora brilhe nessa mesma luz.
Rolam as águas vindas das vertentes,
 
nascem segredos, bardo que seduz...
A nova aurora guarda o seu segredo;
nunca abandona a quem lhe faça jus.
 
Depois da esquina, da dobra do medo,
o coração só quer saber de amar
como sinal que ―seja tarde ou cedo,
 
o mundo vai se desacelerar.
Sonhar enfim com encontrar guarida,
ter no universo, um único lugar,
 
na fonte certa, a água preferida.

Nilza Azzi #terzarima
58

Queimada

Pus fogo na floresta dos meus sonhos
e nem salvei  as aves, borboletas;
deixei que os dias fossem mais tristonhos.

Joguei meus velhos trastes na sarjeta
e, num mergulho fundo no meu luto,
comprei pra mim um traje violeta

e fui  viver no fundo de um reduto,
na parte mais escura do meu eu,
nas neves de um inverno absoluto.

Um dia, entanto, o novo aconteceu:
notei alguns pontinhos bem brilhantes,
constantes nessa abóbada de breu.

Os pontos pareciam mil diamantes,
não eram uniformes, mas variados,
em tons como jamais eu vira antes,

e foram preenchendo vários lados,
daquilo que sonhara ser eu mesma,
até chegar aos núcleos mais velados.

Em folhas, empilhadas feito resma,
nas faces, nas camadas superpostas ,
a vida, dividida – a  alma – fez-ma...

Então lembrei do mundo às minhas costas,
perfeito, nos meus sonhos mais antigos,
queimei por fim ideias decompostas

e consenti que amar tem seus perigos...

Nilza Azzi  #terzarima

 
63

Príncipe do amor

Sem lembrar que a vida é plena de amor,
morri sem querer, me  esqueci de tudo.
Deslizei no limbo... Era furta-cor

toda a sensação desse espaço mudo
− minha alma oca estava confusa −
uma concha seca era seu escudo.

Uma sugestão, quase uma recusa,
um desequilíbrio, o dia desperta.
Uma nova linha... Uma ideia cruza

a estranha dormência, sinal de alerta.
Era o meu herói num cavalo branco?
Só o coração, a verdade, acerta:

– Mas que reação... Mas que solavanco!
Sinais da paixão, quase a perecer,
era a exaltação em estado franco.

Príncipe do Amor, sonho do meu ser,
acenas ao longe, de ti preciso...
Não sei o que fiz por te merecer,

por entrar contigo no paraíso,
no mundo perfeito das terras altas,
de horizontes vastos, que além diviso.

Se meu corpo avisa que tu me faltas
e minh’alma busca o amor distante,
entre nós se ajusta uma nova pauta:

– Sei que vou te amar... Que seja o bastante!

Nilza Azzi #terzarima

 
86

Moto contínuo

Vive em mim o mesmo amor; mesma saudade
vem seguir-me nesses tempos de tristeza
e não cabe ao coração, não, com certeza,
rechaçar a solidão que ora lhe invade.

Dessas horas quase mortas, arrecade,
a minh’alma os bons bocados que aprecia
de ventura dolorida, de piedade,
não por si, mas pelo mal de todo dia.

E não deixe de viver, embora grude,
nas cortinas de seu rosto a imagem tola,
aparência de quem não sabe o que quer.

Entre os fardos de viver e ser mulher,
entre as lutas a que a vida ousou expô-la,
seja fria ante a verdade eterna e rude.

Nilza Azzi
37

Narração

Caminhando para o sul
Percebem-se margaridas
Num dia de céu azul

Giovanni, ali na descida
E o cão de pelo amarelo
Contente, feliz da vida.

Era um dia tão singelo
Tudo estava em seu lugar
A lua era quase um elo

Mas a bola quis rolar
E desceu ladeira afora
O gato pôs-se a miar

A pipa seguiu a aurora
Mas o balão foi chegando
O caminhão tinha escora

E aguentou ‘té não sei quando...
Quem se assustou foi a rosa!
Mas a cena examinando

A vida vibra formosa.

Nilza Azzi  #terzarima
31

Pobre palavra

La vai a palavra solteira,
na feira fazer seu sucesso.
Procura parceiro e, faceira,
esquece na bolsa o ingresso...

A pobre, por mais que se queira,
não tem condições, eu confesso,
de achar casamento e se esgueira,
correndo pra mim, mas impeço.

Se a veste que usa é tão bela,
o seu conteúdo é banal,
e todos perguntam por ela,

por seu denotar principal,
embora desmaie, amarela,
parece, em essência, normal...

Nilza Azzi
40

Comentários (4)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
yuri petrilli

Belos sonetos!

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

Filipe Malaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!