Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Manhã fria e enevoada. O vento é um chicote a fustigar a pele... Hoje não houve canto de passarinhos ao despertar. Um silêncio vasto de feriado e inércia deixa no ar o vazio da tristeza e da saudade! A natureza silenciou o canto ritual... Meu olhar alcança um pequeno templo no horizonte, irregular contra os contornos da colina. Os primeiros raios do sol varam a névoa invasora, incidem sobre o metal de algum telhado e reverberam horizonte além...
Nilza Azzi
192
Rastros de espanto
Manhã fria e enevoada. O vento é um chicote a fustigar a pele... Hoje não houve canto de passarinhos ao despertar. Um silêncio vasto de feriado e inércia deixa no ar o vazio da tristeza e da saudade! A natureza silenciou o canto ritual... Meu olhar alcança um pequeno templo no horizonte, irregular contra os contornos da colina. Os primeiros raios do sol varam a névoa invasora, incidem sobre o metal de algum telhado e reverberam horizonte além...
Nilza Azzi
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Como antes
Vagar pela orla, catando conchinhas, pensando somente nos sonhos que tenho; sentir que essa aragem suaviza o meu cenho, feliz, pois ao lado também tu caminhas. São sempre bem vindas, as brisas marinhas que envolvem meu corpo, perfumam o ar. Fragrância salina convida a sonhar! Os pássaros voam, cortando em rasantes a espuma das ondas e assim como antes, avisto um galope na beira do mar.
Nilza Azzi
154
Na solidão...
Na solidão dos seres e das almas, moram fantasmas tristes, sem desejos, meros zumbis assustam minha calma − vê-los bem longe é tudo que eu almejo...
Nilza Azzi
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Em foco
Ela era descarada nada temia tudo enfrentava e ousadia era seu lema
Quando era sua vez subia ao palco e brilhava sempre audaz no mundo vogava
Mas ela era também tímida receosa e tão pequena por vezes vibrava num tom tão baixo quase cinza de um poema
nilza azzi
16
Insistência
de um vazio perpétuo aflora essa alegria sempre inevitável intersticial
estranhamente inútil relógio ineficiente
a indicar um tempo nunca passado nunca presente um espaço ausente
retalho de vida que me sobra um pedaço do céu
nilza azzi
167
Amor de mãe
um teto e alimento sem qualquer discriminação e o filhote sabe que pode estar protegido (de certa forma)
as 'mães' estão por toda parte tentando exercitar engenho e arte...
nilza azzi
69
Destas e de outras
Destas e de outras sombras desespero: quero ter comigo a dor que menos doa. Quem vai perceber que a vida vai-se embora? Vem! Comigo chora e que não seja à toa.
Destas e de outras lágrimas não falo! Corre o longo inverno... Súbita garoa. Foi-se a ilusão e nada é mais, sincero; mesmo assim espero um som que não ressoa...
Destas e de outras lembro as despedidas; da dor que existe em mim, nada mais destoa. Na máscara a impressão de algo a resguardar-se – e o rubor da face diz que não sou boa.
Nilza Azzi
39
Corpo de mulher
Em teu corpo, ó mulher, há um segredo guardado. É segredo e quem quiser desvendá-lo sai logrado. Não existe corpo feio, sempre há algo a realçar, o colo, a curva do seio, cabelos, boca e olhar.
Aquela que assim se entende sabe bem o que lhe vale, se é o modo como prende o cabelo, ou como fale, sorria, vista, caminhe, deixe os pés em evidência, as mãos sobre o peito aninhe, ou olhe com displicência as unhas, enquanto alisa uma mecha do cabelo e de forma bem precisa realça seu tornozelo.
Cada mulher é um mistério único, doce, indiviso. Conhecê-la é assunto sério, mas arriscar-se é preciso.
Um mistério desvendado perde a graça e o encanto, então mantenha o cuidado; haja o esforço, mas não tanto...
Nilza Azzi
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Espanto
Havia luz, havia o céu – antes o Caos... Era silêncio e o Verbo estava bem ali, pelo poder que só detém o Todo em Si, havia os anjos bons, havia os anjos maus.
Havia cor, nas mãos de Deus, e foi dali que o verde mar Ele criou e fez o sal, e fez azul o globo inteiro, imemorial, em água e ar, a clara nuvem de organdi.
Era o momento além do espaço, antes da Terra achar a Lua, achar o Sol, girar no espaço; antes de haver o mal no mundo e a solidão...
Era bem mais além da espera, quando então, de uma explosão, voou por tudo, um estilhaço, fazendo crer que a dor do caos nunca se encerra.