Nilza_Azzi

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Eu me lembro todo dia de um amor de salvação, mas esqueço o que queria e as lembranças lá se vão... Nilza Azzi

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Elegia


Canto I
Essa que chora ante o caixão aberto,
Por quem dizias ter amor, eu sei,
Sofre por ti, um pouco, mas decerto
Seu coração lavrou a própria lei,
Na solidão sem tempo do deserto,
Sem abrir mão da liberdade ao rei.
– Sob esse véu que cobre a tal tristeza,
Resiste a alma límpida e coesa.

Canto II
Bem vês agora que escapou inteira
Da servidão que lhe quiseste impor
E na conversa muda e derradeira,
Em teu respeito, um mínimo de dor
Expressa agora, à sua maneira,
Ainda presa ao súbito estupor.
– E nessa lágrima tímida que verte,
Reverencia o teu corpo inerte.

Canto III
Caminha sempre adiante com firmeza,
Embora saiba dar um passo atrás,
Para ajustar-se às leis da natureza
E avançar de forma mais vivaz...
Mantém, consigo, a esperança acesa,
E não espera pelos outros, mais...
– A vida é roda e pelo tempo gira;
O que é verdade, nunca foi mentira.

Nilza Azzi 

 
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Poemas

64

Rastros de espanto


Manhã fria e enevoada.
O vento é um chicote a fustigar a pele...
Hoje não houve canto de passarinhos ao despertar.
Um silêncio vasto de feriado e inércia
deixa no ar o vazio da tristeza e da saudade!
A natureza silenciou o canto ritual...
Meu olhar alcança um pequeno templo no horizonte,
irregular contra os contornos da colina.
Os primeiros raios do sol varam a névoa invasora,
incidem sobre o metal de algum telhado
e reverberam horizonte além...

Nilza Azzi
192

Rastros de espanto


Manhã fria e enevoada.
O vento é um chicote a fustigar a pele...
Hoje não houve canto de passarinhos ao despertar.
Um silêncio vasto de feriado e inércia
deixa no ar o vazio da tristeza e da saudade!
A natureza silenciou o canto ritual...
Meu olhar alcança um pequeno templo no horizonte,
irregular contra os contornos da colina.
Os primeiros raios do sol varam a névoa invasora,
incidem sobre o metal de algum telhado
e reverberam horizonte além...

Nilza Azzi
125

Como antes


Vagar pela orla, catando conchinhas,
pensando somente nos sonhos que tenho;
sentir que essa aragem suaviza o meu cenho,
feliz, pois ao lado também tu caminhas.
São sempre bem vindas, as brisas marinhas
que envolvem meu corpo, perfumam o ar.
Fragrância salina convida a sonhar!
Os pássaros voam, cortando em rasantes
a espuma das ondas e assim como antes,
avisto um galope na beira do mar.

Nilza Azzi

154

Na solidão...


Na solidão dos seres e das almas,
moram fantasmas tristes, sem desejos,
meros zumbis assustam minha calma −
vê-los bem longe é tudo que eu almejo...

Nilza Azzi
150

Em foco


Ela
era descarada
nada temia
tudo enfrentava
e ousadia
era seu lema

Quando era sua vez
subia ao palco
e brilhava
sempre audaz
no mundo vogava

Mas ela era também tímida
receosa e tão pequena
por vezes vibrava num tom tão baixo
quase cinza de um poema

nilza azzi
16

Insistência


de um vazio perpétuo
aflora essa alegria
sempre inevitável
intersticial

estranhamente inútil
relógio ineficiente

a indicar um tempo
nunca passado
nunca presente
um espaço ausente

retalho de vida
que me sobra
um pedaço do céu

nilza azzi
167

Amor de mãe


um teto e alimento
sem qualquer discriminação
e o filhote sabe que pode estar
protegido (de certa forma)

as 'mães' estão por toda parte
tentando exercitar engenho e arte...

nilza azzi
69

Destas e de outras


Destas e de outras sombras desespero:

quero ter comigo a dor que menos doa.
Quem vai perceber que a vida vai-se embora?
                   Vem! Comigo chora
                            e que não seja à toa.

Destas e de outras lágrimas não falo!
Corre o longo inverno... Súbita garoa.
Foi-se a ilusão e nada é mais, sincero;
       mesmo assim espero
                 um som que não ressoa...

Destas e de outras lembro as despedidas;
da dor que existe em mim, nada mais destoa.
Na máscara a impressão de algo a resguardar-se
                         – e o rubor da face
                                     diz que não sou boa.

                                                Nilza Azzi
39

Corpo de mulher


                  Em teu corpo, ó mulher,
                      há um segredo guardado.
                      É segredo e quem quiser
                      desvendá-lo sai logrado.
                      Não existe corpo feio,
                      sempre há algo a realçar,
                      o colo, a curva do seio,
                      cabelos, boca e olhar.

                      Aquela que assim se entende
                      sabe bem o que lhe vale,
                      se é o modo como prende
                      o cabelo, ou como fale,
                      sorria, vista, caminhe,
                      deixe os pés em evidência,
                      as mãos sobre o peito aninhe,
                      ou olhe com displicência
                      as unhas, enquanto alisa
                      uma mecha do cabelo
                      e de forma bem precisa
                      realça seu tornozelo.

                      Cada mulher é um mistério
                      único, doce, indiviso.
                      Conhecê-la é assunto sério,
                      mas arriscar-se é preciso.

                      Um mistério desvendado
                      perde a graça e o encanto,
                      então mantenha o cuidado;
                      haja o esforço, mas não tanto...
           
                      Nilza Azzi

                          

 
78

Espanto


Havia luz, havia o céu – antes o Caos...
Era silêncio e o Verbo estava bem ali,
pelo poder que só detém o Todo em Si,
havia os anjos bons, havia os anjos maus.

Havia cor, nas mãos de Deus, e foi dali
que o verde mar Ele criou e fez o sal,
e fez azul o globo inteiro, imemorial,
em água e ar, a clara nuvem de organdi.

Era o momento além do espaço, antes da Terra
achar a Lua, achar o Sol, girar no espaço;
antes de haver o mal no mundo e a solidão...

Era bem mais além da espera, quando então,
de uma explosão, voou por tudo, um estilhaço,
fazendo crer que a dor do caos nunca se encerra.

Nilza Azzi
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Comentários (4)

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yuri petrilli

Belos sonetos!

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

Filipe Malaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!