Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Debrucei-me sobre as minhas incertezas todas presas por um fio, meio suspensas como contas de um colar, as minhas crenças a vacilar labaredas mal acesas...
Depois me ergui, enfrentando indiferenças, sem entender bem o vão das sutilezas... Guardei num susto as palavras todas presas e desdenhei de aventuras mais intensas.
Enfim parti à procura de outros ares, para enfrentar a pressão que cresce farta, além da dor, sem sinais particulares...
Atrás de mim não imprimo qualquer marca... Jamais espero que um dia tu me ampares, nessa esperança, minh’alma não embarca.
Nilza Azzi
46
Ocupação
Há sempre um embate entre o traço e o espaço cada movimento sobre o papel, a tela requer o direito da apropriação.
nilza azzi
45
Mistura apreciável
A Lua que passeia pela estrada qual fada com varinha de condão no chão deixa pegadas luminosas e a rosas ganham cores momentâneas.
O Sol que ferve a areia do deserto decerto faz viver as criaturas promove uma mistura apreciável a vida ainda mantém o seu recado.
Ao lado o mar recua e ainda avança a dança das certezas mais quiméricas acesas vão estrelas pelo cosmos.
A foz nos diz que o rio um dia acaba a taba ainda existe alegórica em triste fragmento de incertezas.
Nilza Azzi
30
Descompasso
Na Via-Láctea, ela é apenas um pontinho entre os zilhões de corpos no vazio do Espaço. Ao contemplá-la, deste modo, eu adivinho: o ser humano que ali vive é tolo e lasso.
Não foi capaz de conservá-la, em bom compasso, e do ambiente, só retira, comezinho, por egoísmo e interesse, um erro crasso, na exploração, sempre quer mais um bocadinho.
Entre os segredos que carrega inda consigo, ela revela pouco a pouco do perigo, das atitudes predatórias, tão marcantes.
Um dia, a calma do planeta irá cessar e as aflições, pelo calor que está no ar,
farão lembrar da inconsequência que houve antes.
Nilza Azzi
21
Intervalo
Na cozinha escura contra o vidro picotado dançam as folhas da schefflera ao sabor do vento noturno.
Um jogo de contrastes entre as cores da luz de rua chegando quase ao sépia e a iluminação doméstica de um branco azulado alterna-se no cintilar do cristal.
O quadro vivo e mutante convida o olhar ausente a beber da poesia.
Nilza Azzi
30
Desenhos do vapor
Era dessas sextas-feiras meio frias, meio mortas em que se fecham as portas para as nossas alegrias em que as ruas nos parecem mais vazias e a alma inteira se resfria
Era um dia desses de chegar em casa e fazer escalda-pés de tomar um chocolate quente e distrair a mente nos desenhos do vapor
Daqueles em que nenhum cobertor aquece a carcaça dolorida ou te faz esquecer de quem és
Nilza Azzi
37
Havia...
havia naquela rua uma criança perdida vivia a olhar pra lua sem nunca viver a vida
nilza azzi
197
Cena
A visão alada sempre vale a pena pois o toque da pluma (um quase nada) diz do desejo de possuir a leveza a natureza da ave
Pele e pena demoram-se juntas transpõem os limites entre o ser e o lá fora.
Nilza Azzi
46
Recursos
Se contemplo um jardim silvestre, vejo que a natureza escolhe, entre todas as variedades, aquelas que crescem melhor,
no microclima, em certo espaço, sem que seja mister regá-las;
no mundo da tecnologia, tudo pode ser adaptado, segundo a vontade agilize,
até a muda mais pixilinga, co'adubo certo cresce, vinga.
Nilza Azzi
34
Cada estação...
Cada estação é uma tela surpreendente e natural; cada qual por si é bela, faz brotar novo ideal.