Nilza_Azzi

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Eu me lembro todo dia de um amor de salvação, mas esqueço o que queria e as lembranças lá se vão... Nilza Azzi

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Elegia


Canto I
Essa que chora ante o caixão aberto,
Por quem dizias ter amor, eu sei,
Sofre por ti, um pouco, mas decerto
Seu coração lavrou a própria lei,
Na solidão sem tempo do deserto,
Sem abrir mão da liberdade ao rei.
– Sob esse véu que cobre a tal tristeza,
Resiste a alma límpida e coesa.

Canto II
Bem vês agora que escapou inteira
Da servidão que lhe quiseste impor
E na conversa muda e derradeira,
Em teu respeito, um mínimo de dor
Expressa agora, à sua maneira,
Ainda presa ao súbito estupor.
– E nessa lágrima tímida que verte,
Reverencia o teu corpo inerte.

Canto III
Caminha sempre adiante com firmeza,
Embora saiba dar um passo atrás,
Para ajustar-se às leis da natureza
E avançar de forma mais vivaz...
Mantém, consigo, a esperança acesa,
E não espera pelos outros, mais...
– A vida é roda e pelo tempo gira;
O que é verdade, nunca foi mentira.

Nilza Azzi 

 
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Poemas

543

Guerra secreta


Feroz, esse gelar que sinto agora,
pensando no passado, o tempo ausente,
perdeu-se a vibração e a dor devora;
adiante a solidão já se pressente.

Só finjo que não sinto nada, embora
me custe constatar o quanto é breve
a paz da criatura, enquanto chora.
Entendo que chorar não mais se deve.

Inferno que nos traz a despedida,
o tom da desolada paisagem,
perturba a minha alma combalida

e os meus parcos neurônios não reagem,
nem mesmo se a esperança me convida
a ser mais otimista... Que bobagem!

Nilza Azzi
45

Bem-entendido


Quero fazer amor, mas ele se recusa,
Não quer saber de mim e fico a ver navios,
Se vira pr’outro lado e sinto-me obtusa.
Não sou tão atraente e os beijos vêm tardios!

Se existe indiferença, é dela que ele abusa,
repele o meu desejo e sobram-me vazios...
Sou pobre e sem valor e já não sou a musa
E não há mais fervor, naqueles olhos frios.

Não sei que vou fazer! Não sei de outra saída!
Cada vez mais estou tristonha e retraída;
sou toda devoção, mas perco minha vez.

Deixou-me o tal amanta em busca da palavra,
mas nada eu encontrei, no campo em que se lavra,
um divinal soneto, entendam-me vocês...

Nilza Azzi
42

Dia ensolarado


Dia ensolarado ao redor dos mares...
perfumando as ondas, cheias de olor;
quando as espumas deságuam nos ares,
gotinhas deslumbrantes regam a flor.

Nilza Azzi
139

Madrigal de primavera


Chegou a primavera e tudo refloresce,
espalha pelo ar um gosto quente e doce.
O azul está brilhante; a cor do céu impôs-se!

A natureza vibra e a alma fica em prece:
há movimento e ardor, até quando anoitece.
Em tudo há pulsação, assim como se fosse

o início, a Criação, a forma que em si trouxe
estados de prazer, certezas e esperança...
Sempre a renovação − a vida não descansa!

A luz viés que incide e brilha onde alcança,
revela em variação matizes pelos prados.

Há flores em ciranda, há aves em seus ninhos,
é tempo para o amor, é tempo de bonança.

Nilza Azzi
62

Regata


A água mais pura despenca da altura,
descendo em cascata, no meio da mata.
Foi grande a bravura (ninguém a mensura)
de quem faz regata, é melhor, desempata.

Ao longe a figura, que os remos segura,
veloz acrobata que a equipe contrata,
retoma a postura, espreita a ventura;
tal aristocrata, descobre a bravata.

Envolto na luta, com garra disputa
com adversários os meios contrários
das águas barrentas e bem turbulentas.

A visão arguta, atento ele escuta
ruídos tão vários, lembrando estuários
e ondas violentas atingem-lhe as ventas.

Nilza Azzi
35

Lírios


O luar ilumina os lindos lírios,
pelos campos pálidos espalhados.
Só a lua sabe sobre os meus martíros
e os lírios levam longe os meros fados.

Um azul, profundo anil, no céu cintila...
O verso lido, lembro ainda era famoso
e lembrava a lucidez que se destila,
superando o sentimento animoso.

Nilza Azzi
46

Sobre o amor


O amor é uma certeza pelo avesso,
pois rouba ao coração senso e cautela.
Recobre a lucidez com véu espesso
e o ser humano, frágil, nos desvela.

O amor é um infindável recomeço,
renasce de si mesmo, em aquarelas,
e até zomba de nós, meio travesso,
exato, mas por vias paralelas.

Ao largo de nós mesmos, coisa estranha,
a nossa descautela, ele acompanha
e alcança as nossas falhas, torna claro

o quanto o nosso orgulho nos faz tolos.
Valor grande demais pra ser consolo,
o amor é sempre belo, incerto e raro.

Nilza Azzi
156

Lição


Seguir na vida em busca da verdade
e acreditar que o esforço vale a pena.
Manter o orgulho longe, quando invade,
mostrar a face límpida e serena.

Mandar bem longe as formas de maldade,
não aceitar a farsa, quando em cena,
a enredar, sem ter quem desagrade,
pois é mais fácil a mentira amena.

Amealhar o amor e a amizade,
para levar a vida, assim, mais plena,
essa é a força que decerto há de

servir de impulso, aliviar a pena.
O bem viver jamais foi coisa fácil −
conserve a fé e ainda assim, abrace-o.

Nilza Azzi
43

Estranha...


Estranha ao meu meio, a gravitação
atrai impulsos de saciedade
e sei de ti, em textura e sabor.

nilza azzi
108

No azul...


No azul do firmamento,
os teus olhos desenhei,
então, ao céu acrescento
mais azul: Tenho azul-rei!

Nilza Azzi
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Comentários (4)

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yuri petrilli

Belos sonetos!

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

Filipe Malaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!