Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
O luar do sertão deixa bem claro que a cidade é um mundo muito escuro e a verdade do fato, lhe asseguro, põe certeza na frase que declaro.
No longínquo sertão, o ar é puro; na cidade, a pureza é algo raro... Lá na mata, o animal usa seu faro, mas não tem garantias de futuro.
Mergulhados vivemos no elemento, – entre as fases que o globo atravessa – nos diversos problemas desta esfera.
No sertão, o processo se acelera, os sintomas aumentam bem depressa, e o luar vive estranho, macilento.
Nilza Azzi
49
Achado brilhante
Achei uma estrelinha, à noite, em meu quintal; piscava ainda aturdida, atrás do limoeiro. Caíra sem querer do céu universal; ninguém havia ali, fui eu que a vi primeiro.
Seria um meteorito, ou algo mais normal? Não há como fazer um astro prisioneiro... Contatos imediatos de terceiro grau; estava bem ali, tão perto e por inteiro.
E então, em um segundo, a peça cintilou – as cores que explodiu! – foi uma coisa louca... Faíscas a dançar encheram meu espaço.
Achei-me pequenina e, em meu tamanho escasso, não conseguia achar a voz em minha boca e, antes que eu falasse, a luz se evaporou.
Nilza Azzi
283
Lava-me
lava-me e me enxuga com teus véus água que ainda não conhece o sal mansa, límpida, e então hidrata-me
escorre sobre mim e leva peso e sal para os mares donde eu vim um dia em teu caminho certo, desce à praia
lava-me, água doce das nascentes e deixa nos meus olhos o frescor e os respingos da pródiga inocência
nilza azzi
49
Excessos
Adiante o imenso vão vazio, o facho, de tão forte, cega, teu beijo, em mim, é apenas falta do teu calor e a alma apela,
ante a cruel certeza infame, de um coração que ainda ama,
contar de mim, contei estrelas, o meu penar jamais acaba; caminho rente das sarjetas,
meio inclinadas, traiçoeiras, amontoado de poeiras.
Nilza Azzi
#retranca
46
noite
que coisa triste é quando a noite perde seu brilho
deixa vazios nos vãos dos braços e cai silente
é morte e corta os véus da alma é vão silêncio
nilza azzi
72
Passeio
A caminhar na praça ao fim da tarde, a alimentar os pássaros com milho, eu sinto e sensação de ser covarde, porque naquele espaço, só, eu brilho
junto à pequena fonte onde eles bebem. Eu brilho à luz do sol, manhã ao meio, num canto do jardim, revivo um éden, nas alegrias simples de um passeio,
colhendo aqui e ali verbos gentis, alguns substantivos, bem precisos, e afago interjeições que dizem ai!
No lago ainda resiste a flor de lis, junto ao perfume forte dos narcisos e a flor de magnólia que ali cai.
Nilza Azzi (in: Tempo-Será)
33
Ciranda
Uma casa com varanda bem grande, no comprimento, protegida contra o vento, onde o sossego comanda; onde a faina é sempre branda. Debaixo desse frescor, a conversa ao sol se pôr... Pouco longe, um galinheiro, laranjeira é bom poleiro, numa casa do interior.
Se na frente tem varanda, tem alpendre grande, ao fundo, descortina-se outro mundo. O relógio ali não manda; do verdor, sai a ciranda... Muita fruta a seu dispor; galinheiro, sim senhor! Não que fácil seja a trilha, quando o sol falha e não brilha, numa casa do interior.
Tem vasinhos na janela com cuidado combinados; tem crochê nos cortinados, a paisagem tão singela: — Que coisa mais linda, aquela! A riqueza vem da cor branca e azul, em esplendor. Tem a água da nascente, no filtro... Que diferente, numa casa do interior.
Tem imã de geladeira e um cesto para a colheita: (de feira, nem se suspeita). A limpeza é de primeira, de domingo a sexta-feira. Já num sábado, ao dispor, recebe o amigo que for... E, nesse viver sereno, quem passa recebe aceno, numa casa do interior...
Nilza Azzi
56
De um baú...
De um baú, bem lá do fundo, tirei uma pedra branca, mas descobri, num segundo, que o tal baú não tem tranca. Co'a pedra fiz um anel que tinha as cores do céu, quando refletia a luz... O anel ficou no meu dedo e, quando ele não reluz, não sei porque, sinto medo.
Nilza Azzi
39
Aprendi...
Aprendi a chorar cedo demais, e a sorrir comecei já bem mais tarde, entre os dois, já nenhum me satisfaz, pois prefiro um silêncio sem alarde.
Nilza Azzi
51
O luar...
O luar da madrugada, no céu limpo, que clareia pela sala o chão de terra, as tristezas de minh'alma, ele descerra: − lua branca, só tu sabes o que sinto...