Faz de conta
Faz de conta
que o dia acordou cedo,
enquanto as fadas riam no jardim
e a escada em caracol
levava àquele chão de pedras brancas
e logo adiante, aquela rua ensolarada
fazia resplender essa alvorada,
plena de luz e de belezas tantas.
Que a caixa de bombons
soltava sons fininhos e pausados
e a bailarina usava
saia de seda e um corselete azul.
E, na mesa, um tabuleiro de xadrez,
o baile começava... a uma só vez,
os pares deslizavam no salão.
Que o som vinha do vento
das flores, aves, sinos e cascatas;
as pausas, dos silêncios pelas matas,
das noites deslizando rumo ao sol.
As cores espalhadas, meus chicletes,
formavam o arco-íris no horizonte...
Bebia em fontes de água geladinha
― De um lado saltitava a amarelinha,
do outro, havia pipas contra o céu.
Que a caixa das bonecas
era o coreto em festa para mim...
e a trepadeira, toda branquinha em flores de jasmim,
era soberba ― deixava aromas pelo ar.
Que esse era o mundo certo pra brincar,
mundo de sonhos, sem começo ou fim.
Mas não gravei nenhum registro dessa longa história,
que lá ficou, porém, nalgum cantinho disso que é memória.
Na invenção do tempo, que vale por ouro,
a construção do sonho não tem mais lugar...
A salvo esse momento,
em que a verdade era o que eu queria,
eu chamo o sentimento,
mas só responde esta alegoria...
E a trepadeira, toda branquinha em flores de jasmim,
revolve aromas doces pelo ar
lembra de um mundo certo pra brincar,
mundo de sonhos, sem começo ou fim.
Nilza Azzi
Espiral
Quando tudo me parece sem graça
giro em círculos de tédio transitório
mas nunca volto ao ponto de partida
vou sempre mais longe alargando as distâncias
e o centro, o eixo, sobra apenas
como breve referência.
A vida vai subindo em graus
em curvas ascendentes
a morte vai descendo na contracorrente
nada se toca nesses caminhos
que embora próximos são tão contrários.
Quando tudo me parece sem sentido
não há poesia que me satisfaça
não acho graça nessa nobre arte
as palavras são cruéis, duras e secas
o gosto da verdade é amargo e...
não existe poesia ao sul da minha mente.
Nilza Azzi
Frieza
Na poesia das madrugadas me ofereces,
sem sol, palavras emboloradas.
Qualquer vida real, inatingível,escapa.
Onde vive o pastor dos dias verdes,
roupas no varal, vento fresco,
juventude das flores, frutos sumarentos?
Trago-te em raios de luar, luzes néon,
bosques nevoentos, corações partidos,
laços desfeitos... e solidão, perfídia.
Montanhas sumiram no ventre do planeta,
solo, plano horizonte sempre além... além.
O lago, em que banhas o corpo excelso,
é fonte que concede perfeição. Hesito
ante a fragrância estonteante ao teu redor, ante
desdobramentos espelhados nessas águas míticas.
Quero beber da fecundidade sempre pródiga;
voltas a mim o frio do teu olhar indiferente.
Nilza Azzi
partidas
voa bem longe e deixa
a minha alma confusa
abre as asas com vontade
olha a terra das alturas
bebe da aragem fresca
viaja o céu infinito
vai pelo espaço azulado
onde a beleza te acusa
de intrepidez e ousadia
e colhe algumas estrelas
atrás dessas nuvens tolas
para bordar teus lençóis
segue livre e sem escolta
mas lembra de mim e volta
nilza azzi
Terra nova
Eu não suporto ver a terra seca
sem umidade, sem sinal de vida;
poeira inútil dentro da ampulheta,
qual matéria inorgânica e perdida.
Coisa mais linda, quando a terra escura
está molhada e vibra, colorida;
mostra sinais de alguma criatura,
por mínima que seja e uma formiga
ou lagarta passeia, enquanto dura
seu tempo de sair ao sol, ao céu,
em busca de um bocado de alimento,
sem que uma ave a leve ao beleléu...
A secura da terra é-me um tormento
e minh’alma acredita que sem água,
o coração também sofre sedento;
nem mesmo irá chorar, verter a mágoa
e lamentar o mal de estar sozinho,
porque, se há dor, um dia ela deságua.
Mas quando lembro a força do carinho
que posso ter e vejo esse deserto,
onde sem água, triste e só, caminho,
apenas quero, um dia, estar mais perto
da nascente translúcida e sonora,
onde o sonho não seja mais incerto,
mas verdadeiro a cada nova aurora.
Nilza Azzi
Ao sabor da brisa
Nas manhãs mais puras,
quando o dia ainda não foi corrompido,
murmuro algum segredo ao teu ouvido.
O orvalho ainda se aquece
nas flores das goiabeiras,
que migraram para as ruas de meu bairro.
Teu olhar azul
põe em mim doce moldura;
o céu dá sentido às copas das paineiras.
Nessas manhãs em que parece outono,
e o vento apenas beija folhas verdes,
é que me pergunto, sem querer,
o que é a cor...
Um tijolo grita
de um muro qualquer
— Já não sou mais o barro natural!
Mais perto de mim,
três letras dançam no ar sereno
e pedem abrigo até a primavera.
Há uma pausa breve —
o vento ainda passeia
e vai levando pra bem longe
toda angústia que há em mim.
Enquanto toca, o sino faz tilintar as pedras,
vai dizendo — Acorda! — e ouve
o som dessa harmonia ao teu redor.
Um cachorro late ao longe;
tu me tomas pela mão.
É quando me pergunto sem querer:
— O que é o amor?
Nilza Azzi
Alma devoluta
Não houve dor nenhuma
e, por que não dizer?
Houve sequer saudade...
Antes houvesse
a força da tristeza
e justificativas para a ausência
que enlouquece os dias
e rouba a qualquer céu
a espessa cor azul
e a qualquer noite
o brilho das estrelas.
Nilza Azzi
Ainda, um gato amarelo
Suzana pegou seu gato
foi pro fundo do quintal
e pensou: − Não... não faz mal
que o gato seja amarelo.
Seu pelo vale um libelo
mas eu defendo essa cor
que lembra o Sol e o Verão
e a solidão vai embora,
quando em sua companhia
passeio entre os canteiros
a olhar as margaridas.
O gato, sempre sabido,
entendia bem Suzana
e cochichou: − Desencana,
o mundo é mesmo intrigante!
Nilza Azzi
Crenças
Diz-se que tudo que é demais enjoa,
então, do amor eu quero ter distância,
de forma que eu me afogue nesta ânsia
e saiba amar, tão leve, qual garoa
que vem do céu e o beija suave e mansa.
Ah, quem me dera fosse sempre boa,
essa emoção, e nunca fosse breve,
como a ilusão que a tudo circunscreve.
E, se a minha alegria dura pouco,
eu, por ser pobre, peço-te uma esmola:
– Vem compreender o sentimento louco
que a alma inteira, pouco a pouco esfola,
e, assim agindo, eu não sinta, tampouco,
a indiferença que me desconsola...
Que no vazio intenso desta hora
caiba um verão que chega e vai embora.
Se, no entanto, o sol nasce para todos,
vou guardar alguns raios com cuidado,
evitar sucumbir aos vis engodos,
e manter esse amor mui bem guardado:
– A pureza de um lírio sobre o lodo,
é a vitória de um ser sobre o seu fado...
E quando um dia, o amor exigir mais,
que apenas eu perceba seus sinais.
E saiba amar, tal qual uma garoa
que cai do céu, mas desce sempre mansa.
Nilza Azzi
Chuva graúda
Cai chuva grossa, como o desespero,
que rói por dentro e traz desassossego,
como o trovão que nunca vem primeiro,
que manda o raio e nos envolve em medo,
até se ouvir o estrondo verdadeiro.
É temporal que assusta tarde ou cedo;
o vento forte é sempre um exagero
que causa estrago e deixa o mundo quedo.
Quem sabe a mim a chuva, assim, revela,
na fúria estranha e louca igual a ela...
Nilza Azzi