Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Traz a gravata azul, sobre a camisa branca; o terno, em tom escuro, é sóbrio e elegante e pode-se entrever, na paz do seu semblante, a força singular que o espírito alavanca.
A voz se sobressai e mostra o quanto é franca, a sua inspiração e o grau de seu talante voltado para o bem — um dom — e isso garante discurso natural, que aplausos sempre arranca.
Embora a foto seja a forma irrevelada, pois sobre o ser real, nos conta pouco ou nada, detalhes da aparência e os trajes de um senhor,
— uma figura humana, envolta em seu mistério — compõe em seu conjunto, um quadro sedutor, retrato varonil, de um coração etéreo.
Nilza Azzi
20
Reserva de domínio
O mar é azul e branco, transparente, na mata, o verde brilha com vigor. Não há agente externo a se interpor: − A rude natureza não consente.
A ilha tem segredos a dispor, a flora é variegada, diferente daquela que recobre o continente: − A fauna ali procria sem temor.
Falésias em embates com as ondas, as praias de uma areia branca e fina, conchinhas delicadas e redondas...
Olhar a natureza nos ensina a perceber em nós perpétuas rondas, seladas pela mesma cromatina.
Nilza Azzi
32
Repique
Quando amanhece pelas bandas de Campinas, quando o céu limpo da cidade é azul intenso, quando o perfume do jardim recende a incenso, é que me esqueço das tristezas vespertinas...
Como se a noite desfizesse o mundo denso, como tirasse da lembrança as dores finas, como se o dia solevasse as minhas sinas, é que me vejo a carecer de um outro senso.
E, nessas contas de um balanço equivocado, jamais encontro a solução do meu agrado, pois tenho um saldo negativo que não cubro.
Ao confrontar-me com tristezas e alegrias, vejo-me sempre com as mãos demais vazias. – E outro poente engole o dia, exato e rubro.
Nilza Azzi
148
Reminiscência
Pela manhã, os campos são mais belos, a brisa é fresca e o sol ainda não arde. O dia cresce, vai fazendo alarde e sob o céu, a vida tece anelos.
Meio do dia! Justo para a tarde, lá vai o tempo − faço meus castelos. Assisto ao longe rápidos duelos; não vejo em mim razão de ser covarde.
Boca da noite! Súbito, o poente, a luz recolhe a sua cor dourada: − Minha janela já contempla a Lua.
Quiçá amanhã, no leito indiferente, venha a lembrar do quanto tu me agradas, − entanto uma saudade se insinua.
Nilza Azzi
22
Compasso
Há um momento em que cabe ao coração a calma que precede a descoberta, um tempo entre dormente e meio alerta, aquele em que se acerta a pulsação...
É fato que a razão grita que não, pois essa nunca foi a escolha certa! Mas lá no coração a dor aperta, não há como escapar à tentação.
Nem sempre entendo bem esse compasso, vacilo, entre o que devo e o que faço, não sei meu amanhã no que dará...
Há horas em que a calma regenera, em outras, a ferida faz-me a fera, na jaula, a caminhar pra lá e pra cá.
Nilza Azzi
56
Quem sabe?
“Tão longe, de mim distante
Onde irá, onde irá teu pensamento ?"
(Carlos Gomes /Bittencourt Sampaio)
Há momentos em que sou a labareda, mas há outros de queimar, ser a fogueira; pensamentos delicados, gota queda, e tormentos, em que corro em cachoeira.
Há uma instância em que, brisa, eu sopro leve e uma outra, em que eu chio, em vendaval. Coração vai na batida em que não deve; vez em quando, toma um ritmo normal.
Se descanso, como um lago em placidez, me enfureço com estrondo em mar revolto; chuva mansa que essa terra satisfez,
tempestade em que o estrago corre solto. Uma coisa só não muda em mim, é certo: é a saudade, por não ter você por perto!
Nilza Azzi
205
Primícias
Jamais deixei de amar Adão, perfeito, o homem ideal, puro e sincero; o doce companheiro, o que mais quero, de quem posso cuidar do melhor jeito.
Aquele que em meus braços sempre estreito, enquanto deslizamos num bolero, e os mimos são maiores do que espero; enfim, o meu parceiro, por direito.
É ele que me deixa satisfeita, preenche a minha vida com afeto, entrega-se da forma mais singela.
À noite, em minha cama, ele se deita e sabe amar de um modo bem direto; um modo que o recato não revela.
Nilza Azzi
68
Primavera
Então é primavera e eu nem sei o inverno todo, onde se escondeu, nem onde foi parar o anseio meu – nova estação na vida e nova lei.
No mundo, a natureza é um himeneu, por todo lado o amor impera e, rei, comanda mais belezas que sonhei – nova estação que a alma recebeu!
Só sei que choveu cedo e lavou tudo, levou embora aquele frio agudo; deixou doce frescor, suavidade...
O inverno ficará só na saudade do chocolate quente e da lareira. Bem-vinda, enfim, a bela jardineira!
Nilza Azzi
54
Ponto de vista
Não há fazer algum, nem nada que se possa, por mais que haja vontade, esforço e grande alento, fazer para agarrar, com nossas mãos, o vento (não pode o vento ser alguma coisa nossa).
Vai livre em seu caminho e, sem qualquer intento, cabe às aves, ao céu, ao mar que forma a poça, que logo irá sumir nos grãos da areia grossa, ou cabe ao descampado inerte e sonolento.
É aquele que, ao deserto, as formas sempre alteia... Se o que aparece além, lutando contra a areia parece, ao nosso ver, apenas um camelo,
um outro pode olhar, mas não consegue vê-lo, portanto, afirmará: – O que vi logo adiante, podia até jurar que fosse um elefante!
Nilza Azzi
45
Poema enrolado
E fica assim o dito por não dito e o que acredito não mais tenha crédito e o que se crê não seja pelo mérito, pois quem merece já nasceu bendito e não precisa, então de um analgésico, para conter um coração aflito, porque o amor é tudo que permito, na condição de ser de fato inédito, de compreender os ritmos do rito e não viver apenas no pretérito, ter um presente refinado e ético, mostrar que o mundo é um lugar bonito e sem perder e sem ganhar também, eu tenho dito, em terra de ninguém...