Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Varou pela porta a luz da manhã, correu pelo chão, beijou as cortinas, destacou a cor do velho divã, fez brilhar os grãos da poeira fina.
Lá fora o jardim no muro termina, o orvalho ainda cobre a grama e uma vã promessa de paz anima as esquinas... Um gato amarelo atrai uma fã.
O dia se anima e ganha outro impulso, o Sol lá no céu é só um astro avulso e reina senhor dos seres que anima.
A vida no chão, a matéria-prima, desfruta a energia e torna-se ativa: – Confina no acaso e na tentativa.
Nilza Azzi
67
Juízos
Não me tenho assim por coisa à toa, sem vontade, carente e sem defesa, pois essa avaliação de mim destoa; mantenho sempre uma intenção coesa.
Também não penso que seja tão boa; de meu valor não posso dar certeza! A minha voz provoca e atordoa, quando não cuido de mantê-la presa.
De mim, melhor é não fazer juízo ora sou água, e a natureza atesta, ora sou ar e passo pelas frestas...
Por ser mulher, meu mundo é impreciso: meus sentimentos são intensos, fortes, no mais das vezes, não me entrego à sorte!
Nilza Azzi
42
Janela para o poente
Pela janela aberta, vai o pensamento, olhando a paisagem, mas não se detém na árvore, na flor, no pássaro, em ninguém, em busca do meu sonho, aquele que acalento... E nessa mesma tela há força, estou ciente, pois ela põe no ar a visão de um portal. Ao longe iluminado, o brilho é sempre igual, no ar avermelhado dessa tarde ardente. Se dentro do ambiente, instala-se a penumbra, lá fora ainda há luz, em brilhos de quermesse. Difusos os contornos, já não se vislumbra nenhuma ave no céu. O escuro, lento, desce...
E o fio da minguante, em prata risca o céu, enquanto o sol se vai e a alma fica, ao léu.
Nilza Azzi
49
João e Maria revisitado
Passou por mim num sopro, quase nada, foi parar bem longe da visão. Guardava em si a cor da madrugada e o cheiro bom das chuvas de verão...
Um dia ressurgiu na minha estrada, já decidido a ter meu coração, e me deixou surpresa e atordoada, assim, fui incapaz de dizer não.
Ele era o mundo e todo seu mistério, senhor de um reino vasto e circular, onde encontrei nobreza e conteúdo.
Nem sempre era pra ser levado a sério. Era-me necessário, como o ar... – Ele era o meu poema sobretudo.
Nilza Azzi
45
Selfie
Prossigo a minha estrada, no correr dos dias, a tudo indiferente, sem tristeza ou festa. A folha de papel é tudo que me resta, encher com meus rascunhos as linhas vazias.
Não sei imaginar mais que proeza é esta, buscar dissolução das formas arredias e nestes meus rabiscos esquecer das guias e da sabedoria que o passado atesta.
Seguir sem vãs lembranças, recriar a lida, erguer a cada passo o pé da caminhada, pisar a nova estrada sem saber de nada...
Um gesto que desfia a ilusão perdida e ajusta o contratempo de qualquer percalço – um modo de escrever inútil, tolo, falso!
Nilza Azzi
49
Inglória
Essa dor que nos punge a alma, ingente, e não é dor de amor nem de paixão, é mais dor de viver, viver e, então, descobrir dor maior, à nossa frente. É saber que na busca não há pausa, mesmo quando o cansaço nos abate e, se a busca nos leva ao disparate, é mais intensa a dor que ele nos causa. Também é despertar com nossos medos, adormecer nos braços de fantasmas, em meio à realidade que se plasma cruel e descobrir isso bem cedo.
É causa sem efeito que nos valha, diante do desfecho da batalha.
Nilza Azzi
190
Gotas
Indiferentes descem pelo vidro, gotas de chuva, num país perdido. Chora a vidraça, embaça aquela mágoa, a água escorre e vai pela enxurrada.
Uma rajada e a chuva desce em ondas, estronda o vento com seu assobio. Um arrepio ― ondulam as cortinas ― e névoas finas cobrem as montanhas.
Como não fossem sanhas tolas minhas ― a linha fina ainda escorre em gotas ― sigo sozinha, vou um ponto abaixo
e quando encaixo o sol à minha porta, na rua torta onde a chuva mora, demora o choro nas lágrimas quentes.
Nilza Azzi
46
Luto
Luto porque não sei fazer outra coisa, e porque trago no meu peito, luto.
Luto porque a palavra aprisionada devolve a minha poesia ao luto.
Luto, estendendo a minha luta ao mundo, ao mesmo mundo que me deixa em luto.
Luto que já se estende por uma eternidade, e mesmo sem saber porque, eu luto.
Nilza Azzi
61
fragmentos
há um pedaço de céu numa palavra tua um mel que escorre em sensação estranha
a minha alma recolhida nua como a madrugada veste véus de sonho e névoa tem desmaios de lua nova
há uns ticos de tristeza na lembrança do que dizes algumas gotas úmidas que não choro por querer
nilza azzi
194
a trilha das palavras
se nas reviravoltas me cansei das luas e se dos girassóis já se perdeu o encanto é que uma primavera foi embora um dia e nunca num verão eu soube o que era amar
pintei minha loucura em cor bem transparente deixei no céu o adeus sem mesmo refletir nos braços que partiram já não choro mais
se os restos de um poema são de cor brilhante e a trilha das palavras vem do pensamento além do imaginário tine a realidade certeira e mais cruel do que qualquer inferno
mas se numa recusa há sempre uma esperança repousam vinho e mel nos campos semeados