Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Quisera desse amor colher os frutos, porém o meu passado me condena a ter esta existência tão pequena, destino dos bastardos e corruptos.
Se há dor, a desejei bem mais amena e os medos, menos fortes, menos brutos! Da paz, só desconheço os atributos; ao longe, um só sorriso não me acena...
Vegeto nesse mundo sem ter vez... A sombra que me segue é tão feroz (desejos, sentimentos abstratos).
A vida me enganou, jamais desfez seu truque, pois carrego o meu algoz − A culpa da inocência dos meus atos!
Nilza Azzi
50
Escopo
Todo jovem precisa de uma espada, para poder tornar-se um bom guerreiro e vencer o combate verdadeiro, e libertar a alma aprisionada.
Porém, antes precisa de um canteiro, num jardim secreto, em luz dourada, onde cultive flores para a amada, a figura ideal, sonho primeiro...
E a senhora que vive no castelo sabe o quanto a batalha é necessária, para que o homem siga em frente, aprenda
o que dentro de si tem de mais belo e assim possa cumprir o itinerário, no caminho que vai da Lei às lendas.
Nilza Azzi
70
Segredo
... E displicente disse a juventude: – Se tudo quero, tudo posso e faço! Não receio o cansaço a que se alude, a vida inteira posso ter nos braços.
Disse a velhice – Fiz tudo que pude... São metas diferentes que ora traço e nessas metas nada mais é rude, pois hoje evito a dor e o embaraço.
Beijou a juventude em plena face, sorriu e foi embora, sem deixar que a outra em tal sorriso reparasse.
Sobrou à juventude, em seu lugar, a vontade, o ardor, o afã do enlace e à velhice, um segredo singular.
Nilza Azzi
67
Em águas rasas
No remanso de um lago, em pleno gozo, criaturas que nadam sem receio. Desconhecem a terra, mundo alheio à existência banal, num mundo aquoso.
Um pescador, bem jovem, chega. Veio com iscas. Concentrado e habilidoso, ao encontrar o sonho em que repouso, estende a rede e apanha meu enleio.
Despenco a cachoeira (o sonho é alto!). Resisto numa água transparente. A luz do sol cintila bem à frente...
Porém o pescador prossegue incauto, alheio ao sentimento que extravasa, e é ele o peixe pego em águas rasas.
Nilza Azzi
210
Estados da alma
O céu, sempre uma esfera silenciosa; o azul, uma ilusão que nos encanta; a voz é uma vontade na garganta; rainha no jardim, somente e rosa...
As nuvens, brancas nuvens, são a manta que torna essa impressão mais caprichosa; a mente acha repouso enquanto goza de um certo desalento e não se espanta.
Silêncio, pois é sob o céu parado que a vaga sensação de um bem perdido procura acomodar-se á vida em terra;
silêncio que faz bem, mas nada encerra e nos ouvidos sopra esse zumbido que é som, mas representa um outro estado.
Nilza Azzi
194
Dupla-face
Meu coração é uma rocha esburacada: – em cada nicho, uma ausência que faz falta. Se algum detalhe importante se ressalta, são as lembranças de quem, cruzando a estrada,
logo partiu, mas deixou-me a sua marca. Meu coração é um canteiro em floração e cada flor, que ali brota, é com razão, fundamental ao conjunto que ele abarca.
É dupla-face o que eu trago no meu peito: – um coração pelo avesso e, por direito, apaixonado, amoroso e, sim, completo.
E nesse estofo as nuances que coleto, de quem perpassa essas vias, são presentes, presença ímpar – valores permanentes.
Nilza Azzi
Nilza Azzi
60
Atropelo
Nunca me amou, aquele que dissera que me amaria sempre. – Foi um sonho! Visão que traz a luz da primavera, no entanto passa e deixa um frio medonho.
Mas não existe amor – e sou sincera! – de uma ilusão as dúvidas exponho... Porém a dor, a fibra nos tempera, para enfrentar truísmos enfadonhos.
E quando vejo um par de namorados estico a vista, procurando ao certo outras questões para entreter a mente.
Enquanto a vida segue surdamente, o coração espia, chega perto, solta um suspiro e morre asfixiado.
Nilza Azzi
41
Dragão
De novo esta vontade de sumiço o verso é meu esconderijo antigo o céu que nos protege não é fixo camadas de mistérios e perigo.
A velha persistência sabe disso e fadas inventaram esse abrigo tornaram a palavra compromisso as letras são os rastros do que digo.
O coração do espaço desfibrila a reta se desfaz ao fim da fila de pontos nos buracos do infinito.
O mar nada mais diz enquanto fito a plácida ilusão do espaço azul no ninho do dragão achei um ovo...
Nilza Azzi
209
Doçuras
Final de outono, neste quase inverno! O tempo triste finge ser eterno, como se eterno o tempo sempre fosse, quando a visão da luz se faz mais doce.
Na tarde, quando chega a hora escura, descobrem-se as estrelas lá na altura e a voz do coração, mais cautelosa, desfolha-se em mil pétalas de rosas.
Na noite, a tal quietude nos liberta... Se a solidão é tida como certa, saudemos o perfume dos lilases.
De mim, serei então, o que assim fazes, – já pronto pra colheita, assim tomara! – Um campo de cultivo, uma seara.
Nilza Azzi
180
Dissolução
Sinto saudade de um bem que nunca tive; a nostalgia da ausência é sempre forte e esse vazio, denso e calmo, é mais terrível, porque não há solução na minha sorte.
Se nas esquinas do tempo, eterna, vive, à minha espreita, essa sombra, a minha morte, para flagrá-la, escorrego nesse aclive e não mais quero a verdade que conforte.
Se na passagem que está no meu caminho, tudo que existe são formas de incerteza e, neste mundo, a matéria segue presa,
o bem perdido é um desejo comezinho – a ceifadeira nos diz que tudo finda – que esse vazio pode ser maior ainda.