Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Espanto a dor essa poeira de letras pesadas, sibilantes dobradas no percurso da linha, da pauta que perpasso a custo
Estouram as oclusões fermentam interseções e o luto é profundo e violento o sofrer
Dizem que a tristeza é passageira mas e se não for?
Nilza Azzi
171
love
leva-me a outro universo limites aos quais nunca fui longe... longe... longe...
Enlevada por teu chamado lúbrico e atemporal levito em sustos lua... de... mel...
nilza azzi
227
Silêncio
Há calma! E se nenhuma ave canta, e morre na garganta o canto meu, as folhas não se mexem por espanto. Perdeu-se a voz do amor e então se grave,
nas bolhas que esse vácuo emudeceu, a ausência e a condição não desejada e nada, nada mesmo, eu sei que nada, da atroz separação trará consolo.
Se o dolo de uma espera sem resposta, não pode a mim trazer mais nenhum mal, quisera o bom silêncio da quimera...
Sacode a minha alma em sobressalto aquela voz que, incauta, inda procuro no silêncio, tão escuro, de minh’alma.
Nilza Azzi
16
Pobre
Um coração de pedra uma alma líquida medra um sofrimento nesta vida insípida escorreguei na chuva a voz se foi num susto e o custo disso é alto é estranho ao conhecer a casa do outro lado e o lago silencioso
Nilza Azzi
47
Gota d'água
"Só percebemos o valor da água, depois que a fonte seca"
(Provérbio Popular)
será
que cai
se esvai
assim
sem que
ninguém
pense em
seu fim?
porém
se vai
ao chão
em vão
já lá
não há
quem vê
perder
valor
sem fim!
mas a
secar
o lago
o rio
pensei
então
só vai
chegar
pra mim...
e quem
virá
depois
de nós
só vai
poder
viver
se for
lhe dar
valor.
nilza azzi
55
Aqueles dias
Tenho dias em que se perdem todas as minhas guias e apenas desejo aquele dia fora do tempo do calendário maia
Fere-me a sensação sufocante dos dias afundados no tempo em que a ampulheta cósmica escorre além de banais suposições
Alguns dias como eu queria que fossem bolhas sem amanhã
Nilza Azzi
53
Carência
Jamais tu saberás que sinto amor. Talvez eu saiba disfarçar a minha insensatez.
Escondo o meu rubor e falo de outro assunto, ou olho para o céu, enquanto as mãos ajunto. Anseio por saber, mas calo e não pergunto o que sentes por mim, desde a primeira vez.
O sonho que vivi, embora foi contigo. Porém se fui feliz, hoje nem sei se ligo... Vazio me restou o coração, amigo, e vivo sem querer, num mundo sem porquês.
Nilza Azzi
188
O pingo
O pingo estava perdido. não sabia por onde andava aquela letra anoréxica...
Ela era a única junto da qual a própria existência esférica fazia sentido.
Nilza Azzi
223
Maria
Voltando à casa vazia, nos ombros a alma torta, fatigava-se Maria, triste e só, sem esperança...
Fosse noite ou fosse dia, palmilhava a mesma estrada. Pobre moça, saberia que o mundo é velho e sem fim?
Nilza Azzi
173
Ponto de fuga
No infinito a convergência a inocência de um olhar um mar de céu e de luz uma única aquarela
Como é bela a emoção dos matizes sobre a tela e nos traços dos pincéis velhos réis por mim reinaram