Nilza_Azzi

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Eu me lembro todo dia de um amor de salvação, mas esqueço o que queria e as lembranças lá se vão... Nilza Azzi

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Elegia


Canto I
Essa que chora ante o caixão aberto,
Por quem dizias ter amor, eu sei,
Sofre por ti, um pouco, mas decerto
Seu coração lavrou a própria lei,
Na solidão sem tempo do deserto,
Sem abrir mão da liberdade ao rei.
– Sob esse véu que cobre a tal tristeza,
Resiste a alma límpida e coesa.

Canto II
Bem vês agora que escapou inteira
Da servidão que lhe quiseste impor
E na conversa muda e derradeira,
Em teu respeito, um mínimo de dor
Expressa agora, à sua maneira,
Ainda presa ao súbito estupor.
– E nessa lágrima tímida que verte,
Reverencia o teu corpo inerte.

Canto III
Caminha sempre adiante com firmeza,
Embora saiba dar um passo atrás,
Para ajustar-se às leis da natureza
E avançar de forma mais vivaz...
Mantém, consigo, a esperança acesa,
E não espera pelos outros, mais...
– A vida é roda e pelo tempo gira;
O que é verdade, nunca foi mentira.

Nilza Azzi 

 
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Poemas

543

Intervalo


Na cozinha escura
contra o vidro picotado
dançam as folhas da schefflera
ao sabor do vento noturno.

Um jogo de contrastes
entre as cores da luz de rua
chegando quase ao sépia
e a iluminação doméstica
de um branco azulado
alterna-se no cintilar do cristal.

O quadro vivo e mutante
convida o olhar ausente
a beber da poesia.

Nilza Azzi
30

Desenhos do vapor


Era dessas sextas-feiras
meio frias, meio mortas
em que se fecham as portas
para as nossas alegrias
em que as ruas nos parecem mais vazias
e a alma inteira se resfria

Era um dia desses
de chegar em casa e fazer escalda-pés
de tomar um chocolate quente
e distrair a mente
nos desenhos do vapor

Daqueles em que nenhum cobertor
aquece a carcaça dolorida
ou te faz esquecer de quem és

Nilza Azzi
37

Havia...


havia naquela rua
uma criança perdida
vivia a olhar pra lua
sem nunca viver a vida

nilza azzi
197

Cena


A visão alada
sempre vale a pena
pois o toque da pluma
(um quase nada)
diz do desejo
de possuir a leveza
a natureza da ave

Pele e pena
demoram-se juntas
transpõem os limites
entre o ser e o lá fora.

Nilza Azzi
46

Recursos


Se contemplo um jardim silvestre,
vejo que a natureza escolhe,
entre todas as variedades,
aquelas que crescem melhor,

no microclima, em certo espaço,
sem que seja mister regá-las;

no mundo da tecnologia,
tudo pode ser adaptado,
segundo a vontade agilize,

até a muda mais pixilinga,
co'adubo certo cresce, vinga.

Nilza Azzi
34

Cada estação...


Cada estação é uma tela
surpreendente e natural;
cada qual por si é bela,
faz brotar novo ideal.

Nilza Azzi
195

Entremeios


se ao romper a teia fina
dos campos do silêncio
– o limbo eterno das palavras –
pudesse tocar-te a alma
e na névoa do sonho
a brancura fosse azul
os horizontes palpáveis
pela verdade sem limites
de amanheceres claros
com seus começos de dizer
sobre a inútil direção do destino
entregue aos vãos do precipício...

se por um quase
tudo fugisse ao fim previsto
e a sensação de luz
fosse romper escuros 
– nada mais que um fóton –
a voz seria espelho do vazio.

Nilza Azzi
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Rastros de espanto


Manhã fria e enevoada.
O vento é um chicote a fustigar a pele...
Hoje não houve canto de passarinhos ao despertar.
Um silêncio vasto de feriado e inércia
deixa no ar o vazio da tristeza e da saudade!
A natureza silenciou o canto ritual...
Meu olhar alcança um pequeno templo no horizonte,
irregular contra os contornos da colina.
Os primeiros raios do sol varam a névoa invasora,
incidem sobre o metal de algum telhado
e reverberam horizonte além...

Nilza Azzi
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Rastros de espanto


Manhã fria e enevoada.
O vento é um chicote a fustigar a pele...
Hoje não houve canto de passarinhos ao despertar.
Um silêncio vasto de feriado e inércia
deixa no ar o vazio da tristeza e da saudade!
A natureza silenciou o canto ritual...
Meu olhar alcança um pequeno templo no horizonte,
irregular contra os contornos da colina.
Os primeiros raios do sol varam a névoa invasora,
incidem sobre o metal de algum telhado
e reverberam horizonte além...

Nilza Azzi
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Como antes


Vagar pela orla, catando conchinhas,
pensando somente nos sonhos que tenho;
sentir que essa aragem suaviza o meu cenho,
feliz, pois ao lado também tu caminhas.
São sempre bem vindas, as brisas marinhas
que envolvem meu corpo, perfumam o ar.
Fragrância salina convida a sonhar!
Os pássaros voam, cortando em rasantes
a espuma das ondas e assim como antes,
avisto um galope na beira do mar.

Nilza Azzi

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Comentários (4)

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yuri petrilli

Belos sonetos!

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

Filipe Malaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!