Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Na cozinha escura contra o vidro picotado dançam as folhas da schefflera ao sabor do vento noturno.
Um jogo de contrastes entre as cores da luz de rua chegando quase ao sépia e a iluminação doméstica de um branco azulado alterna-se no cintilar do cristal.
O quadro vivo e mutante convida o olhar ausente a beber da poesia.
Nilza Azzi
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Desenhos do vapor
Era dessas sextas-feiras meio frias, meio mortas em que se fecham as portas para as nossas alegrias em que as ruas nos parecem mais vazias e a alma inteira se resfria
Era um dia desses de chegar em casa e fazer escalda-pés de tomar um chocolate quente e distrair a mente nos desenhos do vapor
Daqueles em que nenhum cobertor aquece a carcaça dolorida ou te faz esquecer de quem és
Nilza Azzi
37
Havia...
havia naquela rua uma criança perdida vivia a olhar pra lua sem nunca viver a vida
nilza azzi
197
Cena
A visão alada sempre vale a pena pois o toque da pluma (um quase nada) diz do desejo de possuir a leveza a natureza da ave
Pele e pena demoram-se juntas transpõem os limites entre o ser e o lá fora.
Nilza Azzi
46
Recursos
Se contemplo um jardim silvestre, vejo que a natureza escolhe, entre todas as variedades, aquelas que crescem melhor,
no microclima, em certo espaço, sem que seja mister regá-las;
no mundo da tecnologia, tudo pode ser adaptado, segundo a vontade agilize,
até a muda mais pixilinga, co'adubo certo cresce, vinga.
Nilza Azzi
34
Cada estação...
Cada estação é uma tela surpreendente e natural; cada qual por si é bela, faz brotar novo ideal.
Nilza Azzi
195
Entremeios
se ao romper a teia fina dos campos do silêncio – o limbo eterno das palavras – pudesse tocar-te a alma e na névoa do sonho a brancura fosse azul os horizontes palpáveis pela verdade sem limites de amanheceres claros com seus começos de dizer sobre a inútil direção do destino entregue aos vãos do precipício...
se por um quase tudo fugisse ao fim previsto e a sensação de luz fosse romper escuros – nada mais que um fóton – a voz seria espelho do vazio.
Nilza Azzi
42
Rastros de espanto
Manhã fria e enevoada. O vento é um chicote a fustigar a pele... Hoje não houve canto de passarinhos ao despertar. Um silêncio vasto de feriado e inércia deixa no ar o vazio da tristeza e da saudade! A natureza silenciou o canto ritual... Meu olhar alcança um pequeno templo no horizonte, irregular contra os contornos da colina. Os primeiros raios do sol varam a névoa invasora, incidem sobre o metal de algum telhado e reverberam horizonte além...
Nilza Azzi
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Rastros de espanto
Manhã fria e enevoada. O vento é um chicote a fustigar a pele... Hoje não houve canto de passarinhos ao despertar. Um silêncio vasto de feriado e inércia deixa no ar o vazio da tristeza e da saudade! A natureza silenciou o canto ritual... Meu olhar alcança um pequeno templo no horizonte, irregular contra os contornos da colina. Os primeiros raios do sol varam a névoa invasora, incidem sobre o metal de algum telhado e reverberam horizonte além...
Nilza Azzi
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Como antes
Vagar pela orla, catando conchinhas, pensando somente nos sonhos que tenho; sentir que essa aragem suaviza o meu cenho, feliz, pois ao lado também tu caminhas. São sempre bem vindas, as brisas marinhas que envolvem meu corpo, perfumam o ar. Fragrância salina convida a sonhar! Os pássaros voam, cortando em rasantes a espuma das ondas e assim como antes, avisto um galope na beira do mar.