Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Saio bem cedo pra fazer compras. Vou ao mercado, quero escolher tudo bem fresco, passo nas bancas, não há segredo em reconhecer...
Já na cozinha, fechando a porta, quero sossego, enquanto começo a decidir o que mais importa. Faço a salada e então me interesso
pelo preparo de alguns legumes. Deixo pro fim, o peixe, o filé: vou preparando, sigo os costumes, os camarões, bem rápido até
a cor rosada, um tanto de molho eu acrescento, e então cebolinha... Abro um armário, a travessa escolho. É bem famosa, a minha cozinha!
Nilza Azzi
34
24 de maio
Ainda lembro daquele ensaio, a nossa festa era virtual. Como esquecer, num dia de maio, esta amizade, que é sem igual?
Querido amigo, eu te distraía, da tal tristeza em que tu vivias... Que lá do céu venha neste dia, penca de bênçãos e de alegrias!
Os tempos hoje são mais amenos; isso permite que nós brinquemos com a franqueza gratificante.
Desejo a ti uma longa vida e, pela data que é tão querida, meus parabéns, digo neste instante.
Nilza Azzi
46
Pretexto
Eu me envolvi nesse sonho e quis fugir, mas ão pude. Vi teu semblante risonho; minha'alma assim não se ilude.
Desisto e fico tristonho; não posso ver-te amiúde... Meu pranto é forte, medonho; não encontro a plenitude.
Se ao amor eu não me oponho, por que comigo és tão rude? Mil barreiras eu transponho
numa estranha quietude; de um modo tão enfadonho, foi-se a minha juventude.
Nilza Azzi
45
Centro
o lugar onde eu fico sem desejos no silêncio de meu ser que se aquieta é conquista de constante disciplina
meu refúgio contra a dor e a tempestade aprazível descortino nesse encontro nos momentos de viver sem descrição
há o prazer de sentir que sem palavras o universo entrega a mim uma canção
Tamara Trevi
56
Desencontro
quando o teu olhar buscava o Sol o meu se imiscuia nos raios da Lua nascente numa clareira de prata
desfiz a rota da magia do tempo te alinhaste com a direção do vento o outono foi quente e seco
meu avião já levantara voo e mal chegavas ao aeroporto
tamara trevi
31
Trevo
saídas que sugam em quatro direções momento da incógnita espaço da escolha é ilusão a direção certa no trânsito da vida
nilza azzi
190
À beira-mar
são as conchas meus pedaços carregados pelas ondas mais rasteiras e a espuma na areia meu estupor diante do tamanho do mar
Tamara Trevi
255
Bijuteria
guardei teu olhar na caixinha de música junto com a bailarina nas contas do colar na dança inesquecível
tamara trevi
35
Peregrino quântico
Então, grávido da Lua, vou surgindo; vejo flores tateando tudo e nada. Sob o pálio celestial a ela eu brindo e lhe peço pra ser minha namorada.
Diga, ó Lua, nosso filho não é lindo? Tem a pele qual a clara madrugada. Se nos olhos tem a cor do céu infindo, nos cabelos traz a luz do Sol, dourada.
Se gerado foi na esfera celestial, teve todas as estrelas por madrinhas e o futuro lhe promete a vida em Marte.
O Universo lhe pertence e, em toda parte, as viagens dos elétrons traçam linhas, em louvor desse rebento sem igual.
Nilza Azzi
145
Desfaçatez
Já não escolho a mão que a mim acena e, dos sorrisos, guardo os meus mais ternos; vou embalar promessas nos invernos e preferir o que me faz serena.
Não mais importam votos sempre eternos, desejo apenas a penumbra amena, a voz sincera, a cor que envolve a cena, enquanto envio os riscos aos infernos.
A minha escolha não se crê mais certa, apenas segue a luz da descoberta de que não há saída boa, honrosa,
e só pretendo entrar nesse jardim na vastidão das flores, sendo enfim, apenas uma a mais, pequena rosa.