Nilza_Azzi

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Eu me lembro todo dia de um amor de salvação, mas esqueço o que queria e as lembranças lá se vão... Nilza Azzi

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Elegia


Canto I
Essa que chora ante o caixão aberto,
Por quem dizias ter amor, eu sei,
Sofre por ti, um pouco, mas decerto
Seu coração lavrou a própria lei,
Na solidão sem tempo do deserto,
Sem abrir mão da liberdade ao rei.
– Sob esse véu que cobre a tal tristeza,
Resiste a alma límpida e coesa.

Canto II
Bem vês agora que escapou inteira
Da servidão que lhe quiseste impor
E na conversa muda e derradeira,
Em teu respeito, um mínimo de dor
Expressa agora, à sua maneira,
Ainda presa ao súbito estupor.
– E nessa lágrima tímida que verte,
Reverencia o teu corpo inerte.

Canto III
Caminha sempre adiante com firmeza,
Embora saiba dar um passo atrás,
Para ajustar-se às leis da natureza
E avançar de forma mais vivaz...
Mantém, consigo, a esperança acesa,
E não espera pelos outros, mais...
– A vida é roda e pelo tempo gira;
O que é verdade, nunca foi mentira.

Nilza Azzi 

 
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Poemas

543

Minha cozinha


Saio bem cedo pra fazer compras.
Vou ao mercado, quero escolher
tudo bem fresco, passo nas bancas,
não há segredo em reconhecer...

Já na cozinha, fechando a porta,
quero sossego, enquanto começo
a decidir o que mais importa.
Faço a salada e então me interesso

pelo preparo de alguns legumes.
Deixo pro fim, o peixe, o filé:
vou preparando, sigo os costumes,
os camarões, bem rápido até

a cor rosada, um tanto de molho
eu acrescento, e então cebolinha...
Abro um armário, a travessa escolho.
É bem famosa, a minha cozinha!

Nilza Azzi

34

24 de maio


Ainda lembro daquele ensaio, 
a nossa festa era virtual.
Como esquecer, num dia de maio, 
esta amizade, que é sem igual?

Querido amigo, eu te distraía,
da tal tristeza em que tu vivias...
Que lá do céu venha neste dia,
penca de bênçãos e de alegrias!

Os tempos hoje são mais amenos;
isso permite que nós brinquemos
com a franqueza gratificante.

Desejo a ti uma longa vida
e, pela data que é tão querida,
meus parabéns, digo neste instante.

Nilza Azzi
46

Pretexto


Eu me envolvi nesse sonho
e quis fugir, mas ão pude.
Vi teu semblante risonho;
minha'alma assim não se ilude.

Desisto e fico tristonho;
não posso ver-te amiúde...
Meu pranto é forte, medonho;
não encontro a plenitude.

Se ao amor eu não me oponho,
por que comigo és tão rude?
Mil barreiras eu transponho

numa estranha quietude;
de um modo tão enfadonho,
foi-se a minha juventude.

Nilza Azzi
45

Centro


o lugar onde eu fico sem desejos

no silêncio de meu ser que se aquieta
é conquista de constante disciplina

meu refúgio contra a dor e a tempestade
aprazível descortino nesse encontro
nos momentos de viver sem descrição

há o prazer de sentir que sem palavras
o universo entrega a mim uma canção

Tamara Trevi
56

Desencontro


quando o teu olhar buscava o Sol
o meu se imiscuia nos raios da Lua
nascente numa clareira de prata

desfiz a rota da magia do tempo
te alinhaste com a direção do vento
o outono foi quente e seco

meu avião já levantara voo
e mal chegavas ao aeroporto

tamara trevi
31

Trevo


saídas que sugam
em quatro direções
momento da incógnita
espaço da escolha
é ilusão a direção certa
no trânsito da vida

nilza azzi
190

À beira-mar


são as conchas
meus pedaços carregados
pelas ondas mais rasteiras
e a espuma na areia
meu estupor
diante do tamanho
do mar

Tamara Trevi
255

Bijuteria


guardei teu olhar
na caixinha de música
junto com a bailarina
nas contas do colar
na dança inesquecível

tamara trevi
35

Peregrino quântico


Então, grávido da Lua, vou surgindo;
vejo flores tateando tudo e nada.
Sob o pálio celestial a ela eu brindo
e lhe peço pra ser minha namorada.

Diga, ó Lua, nosso filho não é lindo?
Tem a pele qual a clara madrugada.
Se nos olhos tem a cor do céu infindo,
nos cabelos traz a luz do Sol, dourada.

Se gerado foi na esfera celestial,
teve todas as estrelas por madrinhas
e o futuro lhe promete a vida em Marte.

O Universo lhe pertence e, em toda parte,
as viagens dos elétrons traçam linhas,
em louvor desse rebento sem igual.

Nilza Azzi
145

Desfaçatez


Já não escolho a mão que a mim acena
e, dos sorrisos, guardo os meus mais ternos;
vou embalar promessas nos invernos
e preferir o que me faz serena.

Não mais importam votos sempre eternos,
desejo apenas a penumbra amena,
a voz sincera, a cor que envolve a cena,
enquanto envio os riscos aos infernos.

A minha escolha não se crê mais certa,
apenas segue a luz da descoberta
de que não há saída boa, honrosa,

e só pretendo entrar nesse jardim
na vastidão das flores, sendo enfim,
apenas uma a mais, pequena rosa.

Nilza Azzi
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Comentários (4)

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yuri petrilli

Belos sonetos!

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

Filipe Malaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!