Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Enquanto não houver a luz da perfeição, o sonho não virá, serei poeta em vão. Se na palavra pus efêmera esperança, escapa o Ideal, o bem que não se alcança.
Nas brumas da manhã, espelho do Universo, em busca de alvorar o conteúdo terso, estranho à minha voz, esquiva-se o sentido. Silêncio e estupor me abatem e, perdido,
percebo que a raiz, sem força se destaca do solo onde nasceu, mantendo a forma opaca. Como se fosse o pó indo ao sabor do vento, recolho da emoção o nada que apresento:
Recebe um alvará, no verso que extravaso, a dor mais forte em mim, contida por acaso.
(se você teve a gentileza de ler até o fim, leia agora de baixo para cima...)
Nilza Azzi
206
Tributo ao poeta
É doce a canção que compões, ó Poeta, Revive momentos alegres, liberta, é tal a emoção que transmites e enfim, um clima de grande esplendor, um festim,
aquece meu mundo, tão triste, tão frio. De um sol jubiloso, teu brilho de estio desfruto encantada, mas nada me deves, a ler os poemas, que acabam, são breves,
a ouvir, extasiada, tal sons de um arpejo. Num mundo de sonho e magia, antevejo, as formas, beleza sem tempo e lugar,
provocam deleite, é mister confessar: palavras flutuam e bailam tão leves; é doce esse encanto de ler o que escreves...
(se você teve a gentileza de ler até o fim, leia agora de baixo para cima...)
Nilza Azzi
57
Sufoco
Ontem, à tarde, quando me deixaste, e seguiste seguro pra bem longe, meu coração partiu-se qual semente, a lançar longe de si novas raízes. Depois, a noite veio embrutecer-me, envolver-me em torpor, em manto escuro. E vivi na distância, nesse exílio, sem saber de horizontes, de clareiras.
Quantos dias terei com clara angústia, com dores e incertezas, com desgosto?
Ó pedaço de mim, da minha essência, ó vontade cruel de poder mais!
Foste o centro do bosque, a árvore firme, ao redor da qual frutificava a riqueza, o verdor, a mata viva. Antevejo os tempos de deserto e lamento que não mais estejas perto.
Nilza Azzi
99
Ver de ver
Os homens sem dever avançam o sinal andam na contramão porque verdes são as matas e verdinhas são as notas ...um jeitinho ver de perto um verde sem esperança verde ver de ver de ver de ver
Nilza Azzi
60
Inspiração
Evasiva e fugaz saindo pela tangente desemboca na secante um aceno dispensa
Lírica dedilha a lira escapa em cada nota foge pelo rodapé
Rastro meteorítico em fagulhas transitórias das vertentes impulsivas
nilza azzi
39
A tal felicidade
então surgiu no ar de forma inusitada um jeito bem real de ser e cativar de semear a luz no meu caminho mais flores nos canteiros da poesia
pintou um céu tranquilo e tão azul depois, bem devagar pisou na minha estrada mostrou-me que a certeza é fruto da ilusão pediu ao coração que fosse verdadeiro contou tantas verdades escondidas
mudou a minha vida, fez-me assim na sua ausência achar o mundo sem sentido
um dia sem que percebesse estava do outro lado seguira pela trilha que o destino traça e fui quase sem jeito a reparar o laço o elo que surgira sem nenhum aviso
a tal felicidade é uma coisa imensa ninguém pode entender porque não é eterna
os sentimentos juntam tantos planos mas o amor é areia fina das mãos escorre e logo termina
nilza azzi
59
Choro de outono
hoje à tarde o céu chorou sem aviso, sem alarde
escorria quase a medo eram pingos do chuveiro sobre a água acumulada
a chuva de hoje à tarde durou pouco, quase nada
nilza azzi
156
Ciclos e ondas
Ao entardecer, céu profundo envolve na sombra a tristeza da pobre criança faminta, da jovem de extrema beleza,
as formas se igualam no escuro e não há qualquer porto seguro
às almas perdidas no mundo, aos barcos que seguem no mar, não há esperança nenhuma;
no céu, já fechado em redoma, a fome de amor não se doma...
Nilza Azzi
46
Migalhas
A insipidez dos nossos dias, um mundo em chamas deslocou e foi assim que eu me atrevi a descobrir quem não mais sou:
não sou migalha do que cismo, nem a cascata sobre o abismo;
poeira à luz de uma esperança, talvez a fome de entender na solidão, a esmola vã
de ter sonhado, em juventude, que a vida é paz e plenitude.
Nilza Azzi
30
Fonte
o meu desejo por você vem das águas primordiais, porque lá, um dia, estivemos em comunhão, partilhamos a graça de um só coração e flutuamos, em êxtase, qual feto que desconhece em seu destino uma separação!
o meu desejo por você vem do barro de que fomos feitos ao emergir da águas para os céus, onde o ar suavemente nos secou e o fogo nos forneceu impulso, para que pudéssemos carregar cada qual, o nosso próprio Ser, insuspeita ainda a dor da Queda, a saudade de nossa inocência...
então, quando irrompe, meu desejo brota, poro por poro, em gotas d’água cintilantes! eu me molho por você, como um cântaro saturado, que não pode mais conter a umidade transbordante.
em meu desejo por você, eu, líquida, sou fonte única a matar a sua sede; sou lembrança das origens, na memória resguardada.
sereia de canto mágico aguardo em águas amenas, mas a intenção, não duvide é levá-lo a nadar comigo, eterno mar abissal!