Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Tu me acreditas e eu sou mentira; tu me duvidas, sou verdadeira. Vasto mergulho – a mente delira – e vou adiante, queira ou não queira. Tu vens a mim e dons eu concedo; abro-te as portas de outras esferas, porém não caias no engano ledo: – não saberás mais quem antes eras... Se em mim procuras a fantasia, da realidade, negas a herança. Bem mais perturba e nos suplicia, a perfeição que nunca se alcança.
Espelho opaco frente ao porvir, tua presença é meu refletir...
Nilza Azzi
39
Elegia
Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Nilza Azzi
1 108
Linha quebrada
"Nenhum grande amor tem uma história reta." (Fernando Pessoa)
Sonhei seguir a estrada em linha reta, mas tu dobraste a curva do poema. Não sei se fiz a escolha mais correta − o verdadeiro amor jamais algema!
Dizer-te sim, seria a minha meta, porém, como solver o meu dilema? Sonhei seguir a estrada em linha reta, mas tu dobraste a curva do poema.
Se no meu coração a flecha espeta, repete-se a canção e o velho tema, entende a alma triste do poeta, perder-te pode ser a dor suprema.
Sonhei seguir a estrada em linha reta...
Nilza_Azzi_Rondel
43
'té hoje
'té hoje, a conversadeira depende de uma janela, mas não pode haver floreiras e nem perfumes, na tela...
Nilza Azzi
541
A meia-lua
A meia-lua no alto parece um queijo de Minas. Menina de olhar incauto, o que do amor tu me ensinas?
Nilza Azzi
595
Ritmo cinzento
Não foi da solidão que me escapou a voz; se canto a desventura, é porque sou incauta e o verso fugitivo é aquele que não falta, pois cumpre o seu papel e faz menos atroz
o eterno isolamento e o branco desta pauta. A voz surgiu do além, bem antes, não após a vida revelar que há multidão em nós e a vida, quando quer, assusta e nos assalta.
E assim vem deste som a cor e a fantasia, a força natural e o ritmo cinzento da ave que se eleva e voa à revelia;
entrega o seu cantar ao vasto firmamento, que pelo espaço irrompe e súbito irradia, mas cala ao refletir a pausa em que me adentro.
Nilza Azzi
547
Morro do José Menino
Procura-se um lugar um pouco abaixo do céu um pouco acima da terra bastante perto do mar com lembranças da infância num entardecer perdido e aquele navio ao largo piscar de luzes distante.
Nilza Azzi
45
O amor é escrito na areia...
Não há como controlar... O amor não se prende, creia; o amor é escrito na areia.
Como a mentira no ar, como a água se evapora, como a chuva vai embora, como o rio encontra o mar, é verdade secular que todo amante receia: o amor é escrito na areia.
Meu amor, eu sei agora desse calor que me aquece. Quando a luz já se amortece e o dia, ao fim se descora, enquanto a alma padece e a lua a praia clareia, o amor é escrito na areia.
Nilza Azzi
571
O céu choveu...
O céu choveu, à vontade, toda chuva que podia... Não há no mundo, verdade que não veja a luz do dia.
Nilza Azzi
595
Além da Porta
A cor do céu já é a cor do inverno e muda o mapa aos poucos de aparência. O vento esfria e o frio parece eterno; a luz boceja, esvai-se em indolência.
A noite guarda em sonho a minha essência, a solidão escura o mundo interno; traz a quimera, a dor que ninguém vence e a confusão das formas mal governo.
Além da porta, além dos velhos muros, onde andará o meu amor de outrora, olhos de mar em dias de ressaca?
Vive a lembrança cada vez mais fraca; na ideia esquiva a busca se demora. Oh, luz noturna, vastos céus escuros!