Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Hoje dizem que poesia é isso um fluxo de pensamento sem amarras uma explosão de sons uma corrente calma sem a história errante de um amor perdido uma questão engajada
Hoje dizem que a poesia é livre e perambula solta pelas linhas sem aceitar medidas coercitivas alucinante desde o festival de Verão
Nasça ela do coração ou da mente deve crescer sem freios explorar formas desavisadas esmiuçar as novas propostas rolar como a água entre as pedras versar um conteúdo insípido mas que possa embeber as pautas e suprimir delírios
Hoje dizem que a poesia esperta é moderna não quer saber da fonte em que nasceu de onde bebeu a lírica selvagem e transformou a imagem para sempre não quer a teoria necessária a prova de toque da pureza serve a si mesma e a seu poeta
Cansada dos rigores das escolas dizem ter ela incitado um movimento murmuram que partiu achou em Safo a voz tão procurada
Dizem que inventa a si mesma a cada verso e isso basta
Mas eu que sigo a regra empedernida e vi valor nas vozes dos meus mestres acredito no ritmo e na rima confortando meus ouvidos nessa ilusão em contraponto à lucidez uma artimanha para expor-me à verdade
Hoje dizem que já não sou poeta dizem que repito a mim mesma a cada verso e isso não basta
Nilza Azzi
52
Nos olhos...
Nos olhos do meu amor duas lágrimas brilharam... Teu cheiro de água de flor: nossas bocas se encontraram.
Nilza Azzi
54
No outono...
No outono que se avizinha, espero dias mais claros. A vida que diz: − Caminha! − não me fornece anteparos.
Nilza Azzi
572
Chegam as luzes...
Chegam as luzes do outono, frouxas, incertas e mornas; entre as cobertas ressono, enquanto o dia não torna.
Nilza Azzi
588
Fim
Dobre por ruas tortas Passos sobre o gramado Exéquias ao meu cadáver
Nilza Azzi_ Poetrix
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Doces lembranças
Quando o dia começa, inda bem cedo, e atravessa a cortina do teu quarto, entra um raio de sol que, quase a medo, vem beijar o teu corpo lasso. E, farto
dos prazeres da noite, nas texturas dos lençóis, tu repousas as mãos puras contra o peito, num gesto de abandono.
Ao teu lado, com medo de acordar-te, meu olhar te contempla, mas destarte, quando lembro teu beijo, eu me apaixono.
Nilza Azzi
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Fim
A vida me tem golpeado, e não pouco, pareço a bigorna nas mãos do ferreiro. A alma ferida ressente o braseiro, bem sei que este mundo está velho, está louco e nada é eterno, a tristeza tampouco, porém mal consigo parar de chorar – a velha saudade não quer me largar! Enquanto as imbuias prateiam a serra e o meu pensamento essa névoa descerra, revivo o meu sonho na beira do mar.
A dor que me habita resiste ao meu grito, pois ela não sabe que sou resiliente e tenho o controle perfeito da mente. Assim, eu espero por tempo infinito; na luta sem fim, sou fiel, acredito, jamais duvidei de qual é meu lugar, naquela varanda um amor aguardar. No meio da areia, uma flor vai rasteira, na areia branquinha da espuma que abeira, até que haja morte na beira do mar...
Nilza Azzi #galopeàbeiramar
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Meandros
Um sonho, guardado nas dobras da noite, caiu de repente do céu sobre a terra e foi repousar onde o nó se descerra, curando as feridas e as dores do açoite.
Cruzou os meandros confusos da carne, privou do pulsar das vontades alheias, ardendo em faíscas queimou suas peias, mas nunca encontrou um sinal, um alarme,
que um dia mostrasse quão fútil já era seu brilho sem sombras na vã primavera.
Nilza Azzi
48
Descrição
Tinha a cor do trigo maduro, nos cabelos longos e lisos, na pele a textura das sedas, ao caminhar, um porte altivo;
do futuro, não tinha medo, ao presente nenhum apego:
toda manhã, ao acordar, sentia uma angústia forte, intensa, (nada de mal, porém, sonhara)
no coração de mel em chamas, o velho medo e as mesmas tramas.
Nilza Azzi #retranca
27
Dia de chuva
Quatro gatinhos na janela olham a rua muito atentos, mas a menina tagarela não quer conversa com ninguém;
hoje choveu e não há jeito de ela fazer o seu passeio,
pois vem a enxurrada e traz lama, e a garotinha fica triste, por não poder correr na grama:
lá fora chove em profusão e a tal menina chora em vão.