Nilza_Azzi

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Eu me lembro todo dia de um amor de salvação, mas esqueço o que queria e as lembranças lá se vão... Nilza Azzi

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Elegia


Canto I
Essa que chora ante o caixão aberto,
Por quem dizias ter amor, eu sei,
Sofre por ti, um pouco, mas decerto
Seu coração lavrou a própria lei,
Na solidão sem tempo do deserto,
Sem abrir mão da liberdade ao rei.
– Sob esse véu que cobre a tal tristeza,
Resiste a alma límpida e coesa.

Canto II
Bem vês agora que escapou inteira
Da servidão que lhe quiseste impor
E na conversa muda e derradeira,
Em teu respeito, um mínimo de dor
Expressa agora, à sua maneira,
Ainda presa ao súbito estupor.
– E nessa lágrima tímida que verte,
Reverencia o teu corpo inerte.

Canto III
Caminha sempre adiante com firmeza,
Embora saiba dar um passo atrás,
Para ajustar-se às leis da natureza
E avançar de forma mais vivaz...
Mantém, consigo, a esperança acesa,
E não espera pelos outros, mais...
– A vida é roda e pelo tempo gira;
O que é verdade, nunca foi mentira.

Nilza Azzi 

 
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Poemas

37

Dizem


Hoje dizem que poesia é isso
um fluxo de pensamento
sem amarras
uma explosão de sons
uma corrente calma
sem a história errante de um amor perdido
uma questão engajada

Hoje dizem que a poesia é livre
e perambula solta pelas linhas
sem aceitar medidas coercitivas
alucinante desde o festival de Verão

Nasça ela do coração ou da mente
deve crescer sem freios
explorar formas desavisadas
esmiuçar as novas propostas
rolar como a água entre as pedras
versar um conteúdo insípido
mas que possa embeber as pautas e suprimir delírios

Hoje dizem que a poesia esperta é moderna
não quer saber da fonte em que nasceu
de onde bebeu a lírica selvagem
e transformou a imagem para sempre
não quer a teoria necessária
a prova de toque da pureza
serve a si mesma e a seu poeta

Cansada dos rigores das escolas
dizem ter ela incitado um movimento
murmuram que partiu
achou em Safo a voz tão procurada

Dizem que inventa a si mesma a cada verso
e isso basta

Mas eu que sigo a regra empedernida
e vi valor nas vozes dos meus mestres
acredito no ritmo e na rima confortando meus ouvidos
nessa ilusão em contraponto à lucidez
uma artimanha para expor-me à verdade

Hoje dizem que já não sou poeta
dizem que repito a mim mesma a cada verso
e isso não basta

Nilza Azzi
52

Nos olhos...


Nos olhos do meu amor
duas lágrimas brilharam...
Teu cheiro de água de flor:
nossas bocas se encontraram.

Nilza Azzi
54

No outono...


No outono que se avizinha,
espero dias mais claros.
A vida que diz: − Caminha! −
não me fornece anteparos.

Nilza Azzi
572

Chegam as luzes...


Chegam as luzes do outono,
frouxas, incertas e mornas;
entre as cobertas ressono,
enquanto o dia não torna.

Nilza Azzi
588

Fim


Dobre por ruas tortas
Passos sobre o gramado
Exéquias ao meu cadáver

Nilza Azzi_ Poetrix

573

Doces lembranças


Quando o dia começa, inda bem cedo,
e atravessa a cortina do teu quarto,
entra um raio de sol que, quase a medo,
vem beijar o teu corpo lasso. E, farto

dos prazeres da noite, nas texturas
dos lençóis, tu repousas as mãos puras
contra o peito, num gesto de abandono.

Ao teu lado, com medo de acordar-te,
meu olhar te contempla, mas destarte,
quando lembro teu beijo, eu me apaixono.

Nilza Azzi
60

Fim


A vida me tem golpeado, e não pouco,
pareço a bigorna nas mãos do ferreiro.
A alma ferida ressente o braseiro,
bem sei que este mundo está velho, está louco
e nada é eterno, a tristeza tampouco,
porém mal consigo parar de chorar
– a velha saudade não quer me largar!
Enquanto as imbuias prateiam a serra
e o meu pensamento essa névoa descerra,
revivo o meu sonho na beira do mar.

A dor que me habita resiste ao meu grito,
pois ela não sabe que sou resiliente
e tenho o controle perfeito da mente.
Assim, eu espero por tempo infinito;
na luta sem fim, sou fiel, acredito,
jamais duvidei de qual é meu lugar,
naquela varanda um amor aguardar.
No meio da areia, uma flor vai rasteira,
na areia branquinha da espuma que abeira,
até que haja morte na beira do mar...

Nilza Azzi #galopeàbeiramar
54

Meandros


Um sonho, guardado nas dobras da noite,
caiu de repente do céu sobre a terra
e foi repousar onde o nó se descerra,
curando as feridas e as dores do açoite.

Cruzou os meandros confusos da carne,
privou do pulsar das vontades alheias,
ardendo em faíscas queimou suas peias,
mas nunca encontrou um sinal, um alarme,

que um dia mostrasse quão fútil já era
seu brilho sem sombras na vã primavera.

Nilza Azzi
48

Descrição


Tinha a cor do trigo maduro,
nos cabelos longos e lisos,
na pele a textura das sedas,
ao caminhar, um porte altivo;

do futuro, não tinha medo,
ao presente nenhum apego:

toda manhã, ao acordar,
sentia uma angústia forte, intensa,
(nada de mal, porém, sonhara)

no coração de mel em chamas,
o velho medo e as mesmas tramas.

Nilza Azzi #retranca
27

Dia de chuva


Quatro gatinhos na janela
olham a rua muito atentos,
mas a menina tagarela
não quer conversa com ninguém;

hoje choveu e não há jeito
de ela fazer o seu passeio,

pois vem a enxurrada e traz lama,
e a garotinha fica triste,
por não poder correr na grama:

lá fora chove em profusão
e a tal menina chora em vão.

Nilza Azzi #retranca
 
38

Comentários (4)

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yuri petrilli

Belos sonetos!

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

Filipe Malaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!