Sem chave
Se me visse agora
Com certeza iria gargalhar,
Porque dantes liberei a pólvora,
E agora me coloco a pensar.
Já posso escutar altos risos
Apenas em revisar antigos suspiros.
Te vendo nos olhos de um lutador...
Tua risada me traria grande dor.
A realidade foi posta a mesa,
Cá estou a esperar os convidados,
Espero que você chegue para a sobremesa.
Desisto de me impor preocupações,
Ainda que eu tente abrir o cadeado,
Fico a pensar em nossos (?) corações.
Companhia inócua
Se por ventura teme a morte,
Que pena de você tenho,
De nada valerá todos seus anos no engenho,
Quando tua alma passar pelo extremo norte.
Sem tua permissão,
Numa cama de terra te deitarão.
Larvas e fungos irão corromper
O corpo que você tanto batalhou para ter.
Há um mundo que não espera,
Ele não se esconde debaixo da terra,
Mas é oculto aos que decidem viver
Sem perspectiva de um dia morrer.
Se me resta um último pedido a ti,
É que entenda a caroável visita.
Que de porta em porta, sempre diz:
Memento Mori.
Gesundheit
Já é noite
E me permeia um leve aperto no peito,
Parece que a dor encontrou sua casa de veraneio
Trazendo suas armas, preparando o açoite.
Que posso eu fazer?
Se essa dor acaba por me trazer prazer
E transforma toda essa dura muralha
Em grandes paredes de palha.
Gosto de em ti pensar,
Mas a primeira vigília nem pensa em acabar,
E já me apresso para poder deitar.
A culpa é minha,
A pressa esmagou a joaninha,
Que nem conseguiu terminar a poesinha.
Decisão?
Para onde ir?
Me abrigar num ninho de ignorância
Ou buscar em chaves sua confiança?
O que acudir? O que abolir?
Não me venha com vãs filosofias,
Ou com palavras que levem ao céu,
Sei como termina cada rima,
Só preciso que me entregue o réu.
Dá me uma casa, um lar,
Aonde posso contigo me encontrar,
Em que a dor não vai mais importar.
Por um tempo, irei me afastar,
Ver o que decide ficar,
E o que decide levar.
Infantilidade
Me nego, me nego a acreditar
Naquele que vejo ainda caminhar.
Insisto, persisto em não ver
Ainda que a imensidão azul emane você.
Não quero falar, nem respirar
Tendo ciência de que você está por aí
Me esperando para tudo acertar,
E me lembrar de tudo que te traí.
O amanhã é uma tragédia,
Nem mesmo a merda de uma comédia,
Exala sujeira e muita asneira.
Como posso eu profetizar?
Nem me venha com tuas profecias "verdadeiras"
Se nem do meu lugar posso me levantar.
Negação
A cada passo que dou na terra
Ouço seus suspiros na guerra
Ao tentar me esconder na caverna,
Chegas com milhares de sóis e lanternas.
Por que tem que ser assim?
Vem sempre atrás de mim.
Nego tua existência e toda materialidade,
Inevitavelmente me faz ver mais da tua fidelidade.
Que fidelidade é essa que me atormenta?
Que arrasta o corpo morto pelo verde pasto,
Parecendo sutil, mas ainda violenta.
Que posso diante de ti argumentar
Se todos meus tremores tornam meu corpo nefasto
E não posso ainda sentir como é te amar?
Vazio II
No assento etéreo onde está,
Sei que meu clamor pode escutar,
Que, por infelicidade, é estridente e causa surdez,
E seca o pranto da minha alma toda vez.
Por alguma ventura da vida,
Não sei mais se essa me parece corrida,
Os dias passam como aves no céu,
E o vazio se adentra, como o dedo no anel.
Ao olhar o céu, posso ser engolida
Pela tua imensidão, fico estarrecida
Pressinto, e espero, que lamentariam pela minha ida.
Porém, em palavras, posso finalmente expressar
De volta, o doce sentimento que é te amar,
Estarei em seu meio, de volta ao Lar.
Cornucópia
Com um rosto como o teu,
Nem olhar para o céu precisaria
Pois em ti veria
A tenra vontade de meu eu.
Lindos contornos,
Sem muitos adornos,
Apenas a moral diadema,
Que te enfeita a cabeça.
Cabelos macios,
Que remetem a milhares de ovelhas,
Com mais que dourados fios.
E estes lindos olhos
Que mal pude contemplar,
Se visse, já estaria no lagar.
Eu e o lagar
Não sei que pedir,
Nem imaginar,
Nesse presente amargo,
Espremida nesse lagar.
Quando eu penso em sonhar,
Logo vem a fenda,
Me mostrar a lenda,
E me colocar em meu lugar.
Ainda assim, espero o dia
Em que poderei cantar
A doce sinfonia.
Sem instrumentos, nem lugar,
Nem regras para estragar.
Só eu e o lagar.
Por você, lesma
Ian, doce Ian
Fico estarrecida com tua beleza,
Penso em ti, e me torno uma lesma,
Leve-me, Lieutenant.
Ian, doce Ian,
Há poucas rimas para encontrar
Com esse teu nome singular,
Resta-me buscar na pátria alemã.
Em palavras tentarei dizer
O amargo futuro
Em que não poderei te ver.
De vista perderei teus olhos puros
E terei que lembrar, diariamente,
De ti, amargamente.