Eu e o lagar
Não sei que pedir,
Nem imaginar,
Nesse presente amargo,
Espremida nesse lagar.
Quando eu penso em sonhar,
Logo vem a fenda,
Me mostrar a lenda,
E me colocar em meu lugar.
Ainda assim, espero o dia
Em que poderei cantar
A doce sinfonia.
Sem instrumentos, nem lugar,
Nem regras para estragar.
Só eu e o lagar.
Infantilidade
Me nego, me nego a acreditar
Naquele que vejo ainda caminhar.
Insisto, persisto em não ver
Ainda que a imensidão azul emane você.
Não quero falar, nem respirar
Tendo ciência de que você está por aí
Me esperando para tudo acertar,
E me lembrar de tudo que te traí.
O amanhã é uma tragédia,
Nem mesmo a merda de uma comédia,
Exala sujeira e muita asneira.
Como posso eu profetizar?
Nem me venha com tuas profecias "verdadeiras"
Se nem do meu lugar posso me levantar.
Vazio II
No assento etéreo onde está,
Sei que meu clamor pode escutar,
Que, por infelicidade, é estridente e causa surdez,
E seca o pranto da minha alma toda vez.
Por alguma ventura da vida,
Não sei mais se essa me parece corrida,
Os dias passam como aves no céu,
E o vazio se adentra, como o dedo no anel.
Ao olhar o céu, posso ser engolida
Pela tua imensidão, fico estarrecida
Pressinto, e espero, que lamentariam pela minha ida.
Porém, em palavras, posso finalmente expressar
De volta, o doce sentimento que é te amar,
Estarei em seu meio, de volta ao Lar.
Gesundheit
Já é noite
E me permeia um leve aperto no peito,
Parece que a dor encontrou sua casa de veraneio
Trazendo suas armas, preparando o açoite.
Que posso eu fazer?
Se essa dor acaba por me trazer prazer
E transforma toda essa dura muralha
Em grandes paredes de palha.
Gosto de em ti pensar,
Mas a primeira vigília nem pensa em acabar,
E já me apresso para poder deitar.
A culpa é minha,
A pressa esmagou a joaninha,
Que nem conseguiu terminar a poesinha.
Cornucópia
Com um rosto como o teu,
Nem olhar para o céu precisaria
Pois em ti veria
A tenra vontade de meu eu.
Lindos contornos,
Sem muitos adornos,
Apenas a moral diadema,
Que te enfeita a cabeça.
Cabelos macios,
Que remetem a milhares de ovelhas,
Com mais que dourados fios.
E estes lindos olhos
Que mal pude contemplar,
Se visse, já estaria no lagar.
Ósculo do Santo Espírito
O beijo que desperta
Beijo que transforma
Que me carrega
E que me traz a forma.
Toque que acalma
Que derrete a alma,
Segredo que se esconde
No coração de cada brutamonte.
Maciez que desatina,
Destrói, com sopro suave,
Toda areia movediça.
Sim, acalma toda tempestade,
Protege da tirania,
E cobre o coração de Maria.
O SIGNIFICADO DA CONTEMPLAÇÃO
Em meio a sinos e serpentinas,
Orarei sempre, na matina
A Deus e os santos que tanto confio
Que eu nunca me esqueça do flóreo arrepio.
Do cheiro que me impregnou a alma,
Do calor que agitava minha praia,
Da suave brisa de sua presença,
E do corpo, que me parecia a antiga Florença.
Recheada de artistas e de vigor criativo,
Me recordo de ti por muitos motivos.
Por mais que seja única a emoção que a alma sinta,
Como quadro em processo, teu cheiro emana várias tintas.
Obra de arte, consagrada a ser amada
Com teu simples andar, me deixa encantada,
Me torno finalmente enamorada da contemplação!
Depois de te ver, me encontro são.
Beulá ao Luar
Cenas noturnas que me invadem a mente,
Que tiram até o jeito de Selene,
Que parou suas perfeitas sonatas ao luar,
E acordou Beethoven, ao nos ver passar.
Mordeu os lábios e se debruçou
Em nuvens aniladas, vários tons,
Ao contemplar os gracejos que me cantava,
Ao sentir a pureza da tua imaculada alma.
Porém, a deusa se embraveceu,
Pois, a noite que dantes era toda umbrosa,
Do teu vigor tomou, depois de muito cortejo teu.
Sem tua conceição, trouxe-me flóreas brisas,
Suave e fino vento,
Que nunca se desfia.