Flutuando, onde vais corpo, onde vais mente? Sinto a brisa, sinto a caricia suavemente, Liberdade, voando pelos campos, pelo ar É cheiro a flores, cheiro a arvores, cheiro a mar
Suave é esta brisa, suave é este movimento, Não peço mais, só quero este sentimento Leva-me suavidade, leva-me liberdade,
De quem é esta força de onde vem? de mim? Ao parar não sei se é o início ou o fim. Perdi-me, mas que importa saber um caminho? Não quero o certo, não quero um destino
Pincel pinta, pinta no papel Papel branco pronto a nascer Pincel pinta, pinta o sonho Para dele eu não me esquecer.
Pincel pinta, pinta e dança Faz-me ganhar cor e ganhar vida Traz ao mundo mais esperança Traz festa alegre e colorida.
Pinta rios, serras, arvores e flores Que nelas viajarei todos os dias Vou-lhes saborear os divinos sabores Que guardo nas minhas memorias mais antigas.
580
Sede
Sede, sede de água, sede de vida, sede de álcool e uma sede atrevida. O sol está quente, está tudo parado, há falta de entretimento É querer fazer coisas e coisa nenhuma ao mesmo tempo.
Não receber um sorriso em troca, não responder á porta que toca. Umas vezes não entendo a dor alheia, outras esqueço a minha própria.
Todos os dias já não sei o que cozinhar, não sei o que vestir, estou a engordar. Vou correr, vou andar estou cansada, já desmotivada Há dias em que vem inspiração e fico cheia de garra.
Ainda não consegui abrir o livro que me chama há varias semanas na cabeceira da cama Saudade dos filhos, saudade doutros lugares saudade de mim
533
Sonhar
Todos os dias me bate o sonho á porta E eu no sofá me deito Cintilantes as gotas dançam no telhado Eu oiço e espreito
A aventura ficou na mala do carro E o verso já está feito.
Quando me agarras coragem, Para eu fugir a correr por aí? Não levarei bagagem, Ninguém saberá que saí.
Não haverá saudade nem falta É apenas o sonho que não me larga Não tenho nada, leve vou a fugir Chove, vou descalça e molhada a sorrir
591
Não saber amar
O que faz falta é comer porcaria Não ter voz e ser cego e doente Faz falta ir atras da romaria E não usar a mente
O que faz falta é dar chinelada na criançada E á criança que está indignada chamar de bruxa e crucificar sim é o que faz falta é não pensar!
O que faz falta é ser como a cadeira Como o prédio ou a torneira. Não somos árvores, nem pássaros, nem mar Pois claro, como se nem sabemos amar
657
Mar Meu
Minha deliciosa manta turquesa infinita que se envolve com o céu, em movimento constante e poderoso bates contra as rochas e areias, levas barcos e navios e se quiseres até aldeias inteiras mas tudo o que levas também devolves que tu não queres o que não é teu.
Ás vezes embalas-me e fazes de mim uma criança a adormecer, Fico admirando a tua voz, a tua cor e teu cheiro temperado, Que entra no meu suspiro, porque por mim és tão amado e então meu corpo em ti mergulha, apreciando e temendo o teu poder.
Mar meu, hoje somos um só, hoje eu só tenho vontade e não tenho medo Meus lábios saboreiam o teu sal, meus cabelos estão cheios de ti Entramos numa sintonia de agua e corpo gozando por cima o sol que se ri No reboliço das tuas ondas dançantes, apaixonada eu me atrevo
E assim nesta coragem de hoje eu te descubro e me entrego Feliz lentamente em ti me deito e olho o céu a baloiçar puxas-me e atiras-me uma onda maior, queres me assustar mas hoje não, hoje somos um só e eu não tenho medo
699
RIO
O rio passa, o rio corre, O rio ri-se ás gargalhadas e foge, Ele é de todas as cores e é tão brilhante, É esguio, é torneado e é elegante.
O rio dança e canta com alegria, sempre repleto de energia, em festa exibindo sua beleza, vigor, movimento, força e delicadeza.
Ele nasce lá na serra para vir mergulhar no mar, Esse mesmo que das minhas mãos escorrega, e que deliciosamente meus pés beija. Eu amo esse rio que oiço passar.
716
Texto : Arte
A arte só acontece quando alcança alguém, quando alguém a vê, a ouve, a sente , quando alguém a ela reage, quando alguém a interpreta. Sem reações e sem interpretações nem é arte , nem há artista.
E todas as reações e interpretações teem sempre razão, são elas que qualificam a obra. Do mais ignorante ao mais sábio todo o intérprete é igualmente valioso e é por ele que a arte existe.
A obra e o artista nascem e renascem em cada membro de seu público. E o artista cresce a cada reação e quanto mais humildade houver no artista, mais ele cresce, maior ele é.
É de honestidade que é feita a arte, é artista o artista que se despe, que fica cru e se oferece. O artista descobre feridas e mexe nelas e põe lhes álcool e volta a mexer.
Na arte há coragem, há sonho, há suor, sangue, paixão, raiva e amor. como há no artista e há no público e juntos criam a magia. Os momentos felizes acontecem quando as duas partes se entendem. Entendem-se às vezes desentendendo-se, entendem se às vezes na paixão da discórdia, na discussão infinita.
776
Pai
Tu foste Um pai especial, Um pai genial, Um pai intelectual E por vezes também radical. Foste sempre, Assumidamente um ser errante, Deveras inteligente Enfim…um personagem apaixonante. Ai, pai se tenho saudade, Saudade desses jornais todos que lias Espalhados pela casa e pelo carro E até do cheiro desse maldito cigarro. Mas, sabes pai, o que é mais complicado? Que aqueles telefonemas ao sábado já não vão acontecer E a tua opinião sobre tudo o que se passa no Mundo Que eu já não vou saber. E sabes pai, o que é maravilhoso? Que quer quando olhamos para trás, quer quando olhamos para a frente Quer nos nossos sonhos ou nos nossos projetos, Estás sempre lá, estas sempre presente, Sinto-te em mim, sinto-te nos teus netos E sei que estarias mais do que orgulhoso.
799
A do meio
Doce bebé, nem por segundos te queria largar Ia trabalhar, beijava-te e tinha vontade de chorar Cinco horas sem ti, não sabia como aguentar Como é delicioso te ter, como é bom te amar.
Anos depois, pela minha mão saltitavas, todo o caminho a cantarolar Esses magníficos saltinhos que me faziam transbordar de alegria. Crescida, agora, não há no Mundo com quem eu possa melhor conversar Ninguém que me dê mais prazer em companhia.
Admiro essa tua beleza da qual nem tomas conhecimento Tuas poucas palavras cheias de sentimento Tua inocência, timidez, delicadeza e juventude Tua pela macia, teus olhos meigos e teu perfume
Adoro quando desenhas, quando sonhas e quando escreves Adoro quando confiando algo importante me pedes Adoro quando te soltas e saboreias liberdade Adoro quando me vens matar a saudade
795
Minha querida Félix
Pelos largos campos te vejo no sonho a correr ao anoitecer, Teus negros cabelos encaracolados a esvoaçar no vento Corres, choras, ofegante cansada, desesperada, sempre a sofrer Não interessa a hora, ou o dia ou o mês, que interessa o tempo?
Dona da inocência, da bondade e simplicidade Dona de delicadeza, timidez e educação Bordavas, costuravas, dominavas todas essas artes á mão, Fada doce dona da magia, dona do amor e da saudade.
Falar-te-ia, hoje, sobre os fatos para as bonecas que fizemos, Sobre as lantejoilas no lindo vestido de bailarina, Sobre as brincadeiras, canções e meus protestos, Sobre os sons da tua rua que mais nenhuma rua tinha.
Mas e os cozinhados avó? Ai que iguarias delirantes! Ainda as sei! Sei sim… o cheiro e o sabor e a beleza dessas requintadas delicias, Essa arte que nascia entre conversas, risos, lágrimas e confidencias, Com paciência, com talento, sempre fada, irmã, esposa e mãe. Tua neta Patrícia