Paula Regina Scoz Domingos Damázio

Paula Regina Scoz Domingos Damázio

n. 1990 BR BR

n. 1990-04-04

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Desalento da noite ou da morte da noite pela virgem

Minha noite escura, por que me procuras?
Quer o alento de meu calor?
Quer o profundo do meu suspirar?
A mancha do meu cobertor?

Noite fria, por que me crias?
Não vias pois minha máscara de ferro
Meus olhos em fogo devasso
A angústia do desejo aprisionado

Noite tola, por quem me toma?
Acaso a ti o palor é graça?
Oh noite! Meus lábios são taças
De transbordante anseio

Pobre tola não vejas a mim
A musa do teu passado morto
Pois sou filha do mundo torto
Carnal e carmim
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Poemas

24

Flores de sonhos

São flores de sonhos
Me beije meu bem

São flores de sonhos
Você e mais ninguém

São flores de sonhos
E murcham no fim

São flores de sonhos
Não esqueça de mim

534

Estrela Oculta (à A hora da Estrela)

Lágrima Lacrima

Lava a minha
alma

Me purifica
de ser quem sou

Rasga
Devasta
(Explosão)

Fio que corre
Parado
Paradeiro
Paralelepípedo

O sangue
O rio
lá gri ma

500

Pêlo da água

Barco me leva
Me leva pra longe
Lá onde só água é que há

E o meu medo é maior
Do que o que tenho no peito
Daquilo que me faz chorar.
555

Som do mar

As vezes o som do mar chega tarde
e os olhos brilham gotas de sangue
vagas aguadas ao longe
emudecem meu corpo

As vezes o som do mar chega tarde
e os vagos suspiros se perdem
ondas marinhas no cais de fogo
rasgam túmulos d'água

As vezes o som do mar chega tarde
e nem sóis de maracujá
cruzam pelos céus cinzentos
marcas dos escombros em pedaços

As vezes o som do mar chega tarde
e o coração entristecido morre
nas sombras obscuras dos sonhos
parados um frente ao espelho

As vezes o som do mar chega tarde
e os colírios ondulantes despencam
sobre cabeças vazias de dor
só ilusão sobre cores azuis

As vezes o som do mar chega tarde
e não conta mais mistérios de amor
sobrando histórias usadas e lavadas
caindo os adornos e as flores

As vezes o som do mar chega tarde
e o cão da corrente prende o ar
nos pulmões soltando bolhas
sabões alados instantes do não mais

As vezes o som do mar chega tarde
e a vida se esvai vazando óleo
preto, sofrimento, excremento
olhos de brasas cinzas

As vezes o som do mar chega tarde
e Eu despenco do abismo
dou adeus a todas as coisas
encerro os passos sobre nãos enlameados
As vezes o som do mar chega tarde ...
As vezes o som do mar chega tarde
As vezes o som do mar chega tarde
843

Falácia

Arrisco mais em ser sozinho o meu olhar
Não pertenço a vagas mortas do mar
Habituei meu corpo ao som de luas
Não entreguei mais meu coração às putas
Sou marca do impensado abismo
Por mais que eu cante não encontro siso
Agora as noites desprendem luz pelos galhos
Agora não tenho a sorte de um céu de estrelas
Só por ser aventurado anonimo vagando
Quero o disco da música sobre o mundo
Pelos recantos vagos em murmúrios vazios
Espero das ondas certeiras o aviso do fim
Não me espero em mim
Sou outro nada habitado
Cavando o buraco
Aturdindo meu coração vadio
As longas histórias do homem a me devorar
O texto, a ficção, o meu lar
Distante no tempo, vaga-lume
Sons, luz, escuro.
781

Corporis

Eu sou o rosto que te cruzou
Teu sonho pequeno
Eu sou o marco que não ficou
Areia ao vento

O rastro do teu destino,
A boca torta
A te perseguir pelos becos
Os fantasmas em tua cama
Sou eu em tudo ao mesmo tempo

O sustento de caveira e ossos
A luz e a escuridão
Eu sou a própria sorte
A tua própria encarnação

Sou a chama que te arde
A bailar sobre as almas do passado

Sou nada e somente nada
A dançar a valsa dos Vasos Quebrados
795

Cicirandando

Canta-se, ama-se! Tome
Transborde em vozes sobre os sinos e os fios da tempestade do tempo a eternidade

Canta-se, dança-se! Rode
Falseando os abismos em lascas de dor e criando os brados da formosa aventura

Canta, repete, despete-me!
-se ao cantar, ao chorar,
no meu coração

Toma meu corpo, roda o desejo do amor
Ventura, a tontura, o ardor

Cantemos,
Amemos,
hic et nunc
790

Vivo

Se tenho o encanto dos lírios roxos
e cheiro a saudosas cores outonais
é por ser feita do dia e do instante
e não ter ilusões angustiantes
a me arrastar nos pedregulhos do chão

Se ao mesmo tempo tenho um sopro azul
e aguento a dor dos sonhos mortos
é em ser flor d'água marinha
ter na beira do mar a certeza
que serei puxada prum fundo tecnicolor

Se nem sombra nem alegria profunda
e marcas de agulhas tenho em meu corpo
é que me mato de prazer pelas noites chuvosas
com o amante enlouquecido de vida
que me enche da seiva sagrada do homem

Se for assim por um risco de existência
com doces dúvidas de maracujá
sei que sou a fábula perfeita a me contar
as histórias do mundo antes do nada
a história do sim e do não

Se for assim para ter um risco de existência
brinco de vida com o dado do amor
a rolar em meu corpo e no teu
oh magnífico instante!oh meu amante!
Vivo.
867

Abandono

O que canta e o que me consome
Aqui estou
Abandonado novamente
Na roda dos enjeitados
O que canta e o que me consome
Por que canto
E fui consumido...

A roda roda
em mim.
850

Pequena metamorfose

Mesmo sopro derramado
Lágrima vertida em pó
Secaram no meu rosto
Sulcaram o meu rosto,
Resta a aresta que me fica no canto
da boca
O gosto amargo do fel na boca
Viro pedra, me pedrifico
Pedra bruta
Muda
Fria
Só.
772

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