Na distancia do reencontro
As águas turvas cavam o chão
Do meu rosto na minha mão
As marcas do céu infinito
Sobre mim desaba inteiro
Em meus olhos rios corriqueiros
A criação do mundo belo
A visão do mar tranquilo
Fantasia do meu idílio!
Oh! Como sofre meu peito
Como das mágoas coberto pesa!
Funda e só é minha tristeza.
II
São meus sonhos ilusões perdidas?
São meus olhos fantasmas vazios?
Na solidão que existo
Chove lágrimas tristes;
Meu peito aperto
Meu dia mentira
Tristeza! Me deixe livre, me deixe rir!
III
Cantava o dia pelo bico do passarinho
Prometia alegrias para o meu destino;
Cantei sozinha minha canção verdadeira
A minha solidão de forma inteira.
Frio meu corpo geme por um carinho
Mesmo falso mesmo indigno;
De forma qualquer, de qualquer maneira
Um sol que me aqueça e me queira.
Sigo agora em meio às folhas do caminho
Canto um canto novo feito de vinho;
Triste meus dias passam na beira
Do abismo que chama pela minha caveira.
2009
616
Flores de sonhos
São flores de sonhos
Me beije meu bem
São flores de sonhos
Você e mais ninguém
São flores de sonhos
E murcham no fim
São flores de sonhos
Não esqueça de mim
532
Pêlo da água
Barco me leva
Me leva pra longe
Lá onde só água é que há
E o meu medo é maior
Do que o que tenho no peito
Daquilo que me faz chorar.
553
Som do mar
As vezes o som do mar chega tarde
e os olhos brilham gotas de sangue
vagas aguadas ao longe
emudecem meu corpo
As vezes o som do mar chega tarde
e os vagos suspiros se perdem
ondas marinhas no cais de fogo
rasgam túmulos d'água
As vezes o som do mar chega tarde
e nem sóis de maracujá
cruzam pelos céus cinzentos
marcas dos escombros em pedaços
As vezes o som do mar chega tarde
e o coração entristecido morre
nas sombras obscuras dos sonhos
parados um frente ao espelho
As vezes o som do mar chega tarde
e os colírios ondulantes despencam
sobre cabeças vazias de dor
só ilusão sobre cores azuis
As vezes o som do mar chega tarde
e não conta mais mistérios de amor
sobrando histórias usadas e lavadas
caindo os adornos e as flores
As vezes o som do mar chega tarde
e o cão da corrente prende o ar
nos pulmões soltando bolhas
sabões alados instantes do não mais
As vezes o som do mar chega tarde
e a vida se esvai vazando óleo
preto, sofrimento, excremento
olhos de brasas cinzas
As vezes o som do mar chega tarde
e Eu despenco do abismo
dou adeus a todas as coisas
encerro os passos sobre nãos enlameados
As vezes o som do mar chega tarde ...
As vezes o som do mar chega tarde
As vezes o som do mar chega tarde
840
Falácia
Arrisco mais em ser sozinho o meu olhar
Não pertenço a vagas mortas do mar
Habituei meu corpo ao som de luas
Não entreguei mais meu coração às putas
Sou marca do impensado abismo
Por mais que eu cante não encontro siso
Agora as noites desprendem luz pelos galhos
Agora não tenho a sorte de um céu de estrelas
Só por ser aventurado anonimo vagando
Quero o disco da música sobre o mundo
Pelos recantos vagos em murmúrios vazios
Espero das ondas certeiras o aviso do fim
Não me espero em mim
Sou outro nada habitado
Cavando o buraco
Aturdindo meu coração vadio
As longas histórias do homem a me devorar
O texto, a ficção, o meu lar
Distante no tempo, vaga-lume
Sons, luz, escuro.
780
Cicirandando
Canta-se, ama-se! Tome
Transborde em vozes sobre os sinos e os fios da tempestade do tempo a eternidade
Canta-se, dança-se! Rode
Falseando os abismos em lascas de dor e criando os brados da formosa aventura
Canta, repete, despete-me!
-se ao cantar, ao chorar,
no meu coração
Toma meu corpo, roda o desejo do amor
Ventura, a tontura, o ardor
Cantemos,
Amemos,
hic et nunc
790
Corporis
Eu sou o rosto que te cruzou
Teu sonho pequeno
Eu sou o marco que não ficou
Areia ao vento
O rastro do teu destino,
A boca torta
A te perseguir pelos becos
Os fantasmas em tua cama
Sou eu em tudo ao mesmo tempo
O sustento de caveira e ossos
A luz e a escuridão
Eu sou a própria sorte
A tua própria encarnação
Sou a chama que te arde
A bailar sobre as almas do passado
Sou nada e somente nada
A dançar a valsa dos Vasos Quebrados
794
Prisão de Fogo
Ah! Sol, brilha em teu rosto
Amor em sabores de luz...
Reflexo de minhas sombras amargas
Não te vejo mais, só, sob a noite,
Tumultuando a sonolência do alento
Das distensões do meu ser cruento
Que rasgou as vestes puras
Por rastro imundo e caveiras nuas.
Ah! Sol, brilha em teu rosto
Na doce tarde embalada de pássaros...
Mas o ruído perpetua em meus ouvidos
No sombrio obscuro do abismo em mim,
Brincam as pupilas do meu rosto vazio
Eu bruxa ferida pela espada branca
Perambulo solitária e ilusória
Cantando no vaso quebrado a minha glória.
Ah! Sol, cantas e minha mão não te alcança
Sou pétalas caída no lodo infértil
Sou ramo destroncado da árvore sagrada
Sou crua e sou eu e somente nada
Sou por passos no caminho apagada
Pela poeira dos ventos soprada.
Oh Sol revolve minhas cinzas!
Faça acordar do pó do exílio maldito
Em vermelho de fogo
O amor que em mim é chama fria
Que se cala em meus lábios um segundo
antes do grito,...
Pois és tu, o carrasco alado de meus dias...
810
Vivo
Se tenho o encanto dos lírios roxos
e cheiro a saudosas cores outonais
é por ser feita do dia e do instante
e não ter ilusões angustiantes
a me arrastar nos pedregulhos do chão
Se ao mesmo tempo tenho um sopro azul
e aguento a dor dos sonhos mortos
é em ser flor d'água marinha
ter na beira do mar a certeza
que serei puxada prum fundo tecnicolor
Se nem sombra nem alegria profunda
e marcas de agulhas tenho em meu corpo
é que me mato de prazer pelas noites chuvosas
com o amante enlouquecido de vida
que me enche da seiva sagrada do homem
Se for assim por um risco de existência
com doces dúvidas de maracujá
sei que sou a fábula perfeita a me contar
as histórias do mundo antes do nada
a história do sim e do não
Se for assim para ter um risco de existência
brinco de vida com o dado do amor
a rolar em meu corpo e no teu
oh magnífico instante!oh meu amante!
Vivo.
865
Ondulada
Em ser nem alegre e nem triste
transformo o pouco de meu em lava
Sofro as pulhadas de lanças em riste
abandonada nas ondas bravas
Em ser nem alegre e nem triste
brinco de ser o deus do universo
Crio anjos e demônios se não existe
cavo fundo a dor sobre versos
Em ser alegre no sol de setembro
beijo as flores do caminho escuro
Apago meus passos e não me lembro
das dores murchas do destino duro
Em ser triste nas noites ermas
clamo alto pelo canto das sereias
Corro a qualquer abismo que me queira
choro lágrimas de espanto por minhas veias
Em ser o meio do nada
sem ponta fim dimensão
Sou feito pluma alada
bailando acima de Nãos