sou fato falhado de uma faca afiada rasgando a pele amarela de sol ardente candente faltando pedaços estilhaçada
sou a mera saudade estampada num peito fraco ardido roído sonâmbulo zumbido sem flores sem sonhos
sou marca de um tempo tampado por dentro sozinho vizinho vinho áspero amargo molhado e vazio
sou soou soprado címbalo sou soou coruja migrante alerta almirante voo rasante raspa da crosta crua
da carne que sou verme serpente cruel
do grande canibalismo criador
546
Estrela Oculta (à A hora da Estrela)
Lágrima Lacrima
Lava a minha alma
Me purifica de ser quem sou
Rasga Devasta (Explosão)
Fio que corre Parado Paradeiro Paralelepípedo
O sangue O rio lá gri ma
503
Canto
I
Na distancia do reencontro As águas turvas cavam o chão Do meu rosto na minha mão
As marcas do céu infinito Sobre mim desaba inteiro Em meus olhos rios corriqueiros
A criação do mundo belo A visão do mar tranquilo Fantasia do meu idílio!
Oh! Como sofre meu peito Como das mágoas coberto pesa! Funda e só é minha tristeza.
II
São meus sonhos ilusões perdidas? São meus olhos fantasmas vazios?
Na solidão que existo Chove lágrimas tristes;
Meu peito aperto Meu dia mentira Tristeza! Me deixe livre, me deixe rir!
III
Cantava o dia pelo bico do passarinho Prometia alegrias para o meu destino; Cantei sozinha minha canção verdadeira A minha solidão de forma inteira.
Frio meu corpo geme por um carinho Mesmo falso mesmo indigno; De forma qualquer, de qualquer maneira Um sol que me aqueça e me queira.
Sigo agora em meio às folhas do caminho Canto um canto novo feito de vinho; Triste meus dias passam na beira Do abismo que chama pela minha caveira.
2009
621
Som do mar
As vezes o som do mar chega tarde e os olhos brilham gotas de sangue vagas aguadas ao longe emudecem meu corpo
As vezes o som do mar chega tarde e os vagos suspiros se perdem ondas marinhas no cais de fogo rasgam túmulos d'água
As vezes o som do mar chega tarde e nem sóis de maracujá cruzam pelos céus cinzentos marcas dos escombros em pedaços
As vezes o som do mar chega tarde e o coração entristecido morre nas sombras obscuras dos sonhos parados um frente ao espelho
As vezes o som do mar chega tarde e os colírios ondulantes despencam sobre cabeças vazias de dor só ilusão sobre cores azuis
As vezes o som do mar chega tarde e não conta mais mistérios de amor sobrando histórias usadas e lavadas caindo os adornos e as flores
As vezes o som do mar chega tarde e o cão da corrente prende o ar nos pulmões soltando bolhas sabões alados instantes do não mais
As vezes o som do mar chega tarde e a vida se esvai vazando óleo preto, sofrimento, excremento olhos de brasas cinzas
As vezes o som do mar chega tarde e Eu despenco do abismo dou adeus a todas as coisas encerro os passos sobre nãos enlameados As vezes o som do mar chega tarde ... As vezes o som do mar chega tarde As vezes o som do mar chega tarde
848
Falácia
Arrisco mais em ser sozinho o meu olhar Não pertenço a vagas mortas do mar Habituei meu corpo ao som de luas Não entreguei mais meu coração às putas Sou marca do impensado abismo Por mais que eu cante não encontro siso Agora as noites desprendem luz pelos galhos Agora não tenho a sorte de um céu de estrelas Só por ser aventurado anonimo vagando Quero o disco da música sobre o mundo Pelos recantos vagos em murmúrios vazios Espero das ondas certeiras o aviso do fim Não me espero em mim Sou outro nada habitado Cavando o buraco Aturdindo meu coração vadio As longas histórias do homem a me devorar O texto, a ficção, o meu lar Distante no tempo, vaga-lume Sons, luz, escuro.
784
Pequena metamorfose
Mesmo sopro derramado Lágrima vertida em pó Secaram no meu rosto Sulcaram o meu rosto, Resta a aresta que me fica no canto da boca O gosto amargo do fel na boca Viro pedra, me pedrifico Pedra bruta Muda Fria Só.
774
Corporis
Eu sou o rosto que te cruzou Teu sonho pequeno Eu sou o marco que não ficou Areia ao vento
O rastro do teu destino, A boca torta A te perseguir pelos becos Os fantasmas em tua cama Sou eu em tudo ao mesmo tempo
O sustento de caveira e ossos A luz e a escuridão Eu sou a própria sorte A tua própria encarnação
Sou a chama que te arde A bailar sobre as almas do passado
Sou nada e somente nada A dançar a valsa dos Vasos Quebrados
797
Abandono
O que canta e o que me consome Aqui estou Abandonado novamente Na roda dos enjeitados O que canta e o que me consome Por que canto E fui consumido...
A roda roda em mim.
851
FloresBelas
"Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços... São teus braços dentro dos meus braços, Via Láctea fechando o Infinito."
Versos de Orgulho Florbela
Lindo sonho de flores cândidas eternas Vasos elevados em alturas aéreas Rosas escarlates, magnólias belas Perfeito o murmúrio do teu sabor
Enlevada em som de harmonia Canta o obscuro da tua agonia, Nas bordas delicada jaz a solidão... São flores perdidas cândidas eternas em flores que se vão.
810
Cicirandando
Canta-se, ama-se! Tome Transborde em vozes sobre os sinos e os fios da tempestade do tempo a eternidade
Canta-se, dança-se! Rode Falseando os abismos em lascas de dor e criando os brados da formosa aventura
Canta, repete, despete-me! -se ao cantar, ao chorar, no meu coração
Toma meu corpo, roda o desejo do amor Ventura, a tontura, o ardor