Lista de Poemas

PARECEM DANÇAR AQUELAS BORBOLETAS

Parecem dançar aquelas borboletas
Dançam ao som de alguma inaudível valsa
Flanam soltas sobre as folhagens sob o arvoredo da praça
Tão leves que se engraçam com as cores das rosas
Tão puras causando inveja até mesmo aos pássaros
E às folhas e frutos amarelados entre os que se deitaram
Derrubados pelos ventos parvos jogados nas sarjetas às traças
Mas que cumpriram sina e sorte de terem sido fartos

Olha como a natureza replica a exuberância das causas
Não houvesse motivos a vida talvez detivesse exíguo sentido
Não fosse o tempo perderíamos a significância da morte
Não fosse a morte não estaríamos semeando o privilégio da vida
Essa dádiva vívida que nos conforta a dor na esperança
De que prevaleça o amor sobre todas as crenças e graças

Afinal meu amor deixa que a poesia floresça intensa
E ressuscite-nos dos medos dos fossos das desavenças
Da linguagem frívola que turva quem não queira entender
Que o mesmo mel e sal que temperam a terra brotam da lágrima
Que graça não é apenas o querer em poder te ter nos braços
Graça é poder te imaginar além no poder de um abraço
Para que nenhuma dor perdure mais do que necessite
Ensinar-nos de que quem resiste vive porque supera o fracasso
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LEOA

Pudera afagar quieto os teus cabelos
Encerar no couro a raiz dos pelos
Mantra denso de fino aroma pelos dedos
Mexendo levemente a mente e o cerebelo

Enxergar nos sonhos vivos devaneios
Como se tatuasse orquídeas pelo dorso afora
Passeando cínico pelo hemisfério do pescoço
Pudesse desvendar misteriosos sóis de aurora

Esquiar na vertigem tênue o arrepio da nuca
Ainda que nunca tenha estado em tuas costas
Encontrar entre a vasta juba o mel das respostas

Ah que me mostras o que tenha posto
A perder-me na figura esguia entre as coxas
Enquanto finjo na esfinge rubra ver teu rosto
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DESAFINANDO

Ando empenhado em reler
O manual de convivência entre os bons
Mas não consigo encontrar
O tom da canção que nalgum momento
Desafinando me fugiu das mãos

Pode estar no embrulho final do pacote
Amarrado a barbantes à garganta
Talvez no imbróglio da voz entrecortada
Sufocada pelo nó da bravata
Ensurdecida de lorotas

Seja no sentido das viagens
Que descuidei fiz inversas
E fiquei com medo de machucar
Ou a tentação repentina de amanhã
Adormecer ao invés de acordar

Pode ser a venda que pus dos olhos
Acreditando que quando abertos melhor leria
A partitura como o todo da sinfônica
Sendo que ela é tocada por partes
Mesmo quando nada se pronuncia

Ando desafinado dos instrumentos
No coral de nuvens esfumaçadas
Somente a calma sincronizará as voltas
Assim reaprendendo a modéstia
De repente consiga reencontrar as notas



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NÓS

A fome reunia pessoas em torno da mesa
E ia confortando um a um com saciedade

Quando não havia mais nada a ser comido
Dava-se um breve período de intenso fastio
Levantavam-se e cada um a seu modo partia

Ficávamos nós por algum tempo descartando restos
Lavando copos panelas talheres pratos e cozinhando

Depois voltava a fome com cara de outra gente
E igualmente dava-se o mesmo abastamento
Levantavam-se e cada um a seu modo partia

Foram assim anos e anos a fio entre salão e cozinha
Lavando copos panelas talheres pratos e cozinhando

Até que um dia a nosso modo também partimos


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A QUALQUER HORA

Que importa quando irá
Não foi ontem nem outrora
Hoje não se está disposto

Não fui eu ou poderá ser outro
Quem ardentemente peça
Pode nem ir tão cedo
A qualquer hora
Ou nem sonhe e nem queira

Espera-se não seja amanhã
Mas não se iluda
Não será nunca



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LEIA

Tu que não te cansas de ler o mar
Não canso eu em mergulhar
Meu poema no codinome do teu olhar

Leia linha a linha de cada onda
Leia entre o balanço que elas têm
Leia sobre as pedras e as espumas
Leia as entrelinhas que se reescrevem
Leia as letras da tábua rasa e cheia
Leia para que ao lê-las se revezem
Na superfície nas profundezas
Leia no tênue brilho das estrelas

Tu que não te cansas de ler navios
Não canso eu em navegar
No raso rio do teu sonhar

Leia enquanto chamo as embarcações
Leia por rumos que se revezam
Leia mesmo que os olhos jamais alcancem
Leia para que se sintam cais
Leia quando o verbo não ventar mais
Leia enquanto há rumores de ventanias
Nas profundezas e superfícies
Leia sob a tênue luz de algum luar

Mas se te cansas ao ler meus versos
Verte tuas águas densas por outras fontes
Deixa que te leia eu nos horizontes



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PATRIOTAS

Quando menino inventava pátrias
E as distribuía contente
Para que no final das entregas
Houvesse alguma cumplicidade
Entre toda aquela gente

Além de vizinhos e colegas
Vinham também desconhecidos
Párias e filhos de outras plagas

Tornávamos fiéis amigos
E sem necessidade de qualquer patente
Cada um tomava um país e suas rotas

E até hoje ainda que sozinho
Viajo rodando o meu mundo
Reencontrando patriotas


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INDULGENTE

Paira sobre a idade
Certa ilusão de que nova paixão é utopia

Conta em segredo quantas paixões ainda teria
Ainda que lhe venha o medo dos futuros dias 
E já não tenha mais noção de felicidade ou melancolia

Porque a vida é essa eterna evasiva poesia
Nos dá a visão de que se é bucólico 
Sofrer ou sorrir bastaria

Quem está no campo imagina a cidade viva
Quem está na cobertura de um prédio
Sonha em colocar os pés na terra fria

Há inconstância espalhada pelo cotidiano
Dualidades naquele dia em que não se quer pensar
Aquele dia em que não se quer sofrer
Mas não há um dia em que não pretenda amar
Mesmo que ser amado não seja tão pleno

Ainda que intempestivo
Creio na indulgência do amor permissivo
Daqueles sem tempestade
Que faça momentos parecer eternidade


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115

UM LIVRO PRONTO

Chegaste pela porta aleatória
E apesar da face recoberta
Exalava na janela dos olhos 
Imensa poesia aberta

Na voz repleta de dúvidas
Dizia alguma história incerta
Sobre asas que voavam
A lugares que nem sabia
Que em si cabiam e não se davam 

Foi de acaso que vi e ouvi
Ao acaso que recolhi teus vértices
E por eles apreendi meus versos
Inversamente do que previ
Mas que me fizeste vir de encontro

Foi de manhã enfim
Vieste pedir uma palavra qualquer
Mal sabia que trazias um livro pronto


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A LUZ SEM COR

A chama da luz sem cor
Brilha intensa mas ninguém 
A olho nu pode vê-la
Ainda que tenha o poder 
De um incandescente farol
Ou a sinuosidade do pavio
Aceso na cera de uma vela

A luz sem cor nos norteia
Para horizontes azuis
Para noites com auroras
Para as tardes de ocasos
Desafiando as esperas
De que novos sóis acendam
As sobras das estrelas

A sombra da luz sem cor
Apesar da rara beleza
Assombra por não ser vista
Apavora quem não tem fé
Intimida por ser infinita
E somente quem nela crê
Percebe o quanto é bonita

Essa luz é a perfeição da alma
Que mora plena no mistério
Muito além da natureza
Muito aquém dos nossos olhos
Que se nos faz reconhecer frágeis
De tão insigne e mágica
Toma-nos por imortais




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Comentários (2)

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Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques

quantas verdades com perfeição!

Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava. 
      A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
      Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
      Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE. 

LIVROS RECENTES: 

CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021

Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.